Pesquisa qualitativa revela a heterogeneidade do antipetismo no Brasil ao personificar a sigla e seus opositores. Associado a figuras como malandro ou marido infiel, o PT é rejeitado por motivações morais, religiosas ou econômicas distintas. Mais do que definir o partido, essas metáforas revelam a identidade e os valores dos próprios eleitores, expondo um partidarismo negativo que molda o cenário político atual a partir do contraste ético e afetivo com o adversário.
"Se o PT fosse uma pessoa, seria a Odete Roitman", diz Diva, carioca, assistente administrativa; "Odete Roitman total", concorda Natália, empregada doméstica, moradora de Mogi das Cruzes, em São Paulo. As duas riem. A referência é à personagem célebre das telenovelas brasileiras, símbolo da frieza e da arrogância classista: "Gosta de dinheiro, quer ficar cada vez mais rica… e odeia pobre", resume Diva.
Nenhuma das duas é petista - exatamente o motivo pelo qual se encontravam nesta mesma sala de pesquisa que reuniu 36 entrevistadas, de cidades de todas as regiões do Brasil, recrutadas por critérios amostrais no segundo semestre de 2025. Motivação: compreender a composição e os sentidos do antipetismo no Brasil.
Diva e Natália, assim como boa parte dos entrevistados desta pesquisa, têm dificuldade de explicar de imediato de onde vêm suas convicções políticas.
A psicologia política oferece uma explicação: a maioria das pessoas não possui opiniões políticas plenamente estruturadas, prontas para recitar sob demanda. Elas são construídas, em boa parte, no próprio ato de formulação — e a pergunta direta costuma intimidar mais do que esclarecer. O que aparece, então, são as frases de sempre: "porque é corrupto", "porque não me representa".
Sabendo disso, em vez de perguntar diretamente os motivos da rejeição, pedi a essas entrevistadas que imaginassem o PT ludicamente: como se fosse uma pessoa. Ao longo de outros encontros espalhados pelo país, o PT encarnou, para os entrevistados, um malandro de chapéu branco, um marido infiel, um ativista oportunista, um golpista de aplicativo de relacionamento. São respostas menos argumentativas do que associativas - e, talvez por isso mesmo, mais reveladoras.
Afinal, quase todo mundo conhece alguém que se define pela rejeição ao PT. Aquela tia, aquele colega de trabalho que estabelece um limite inegociável: pode votar em qualquer pessoa, em qualquer partido, menos no PT. O que nem sempre percebemos é que duas pessoas podem compartilhar essa rejeição e, ainda assim, ter muito pouco em comum: há quem rejeite o PT porque se identifica fortemente com a direita, quem o rejeite por razões morais ou religiosas, quem o associe à corrupção e à incompetência, e quem não se identifique com espaço político algum e, ainda assim, mantenha uma rejeição persistente.
Uma rejeição, múltiplas explicações
A imprensa, os analistas políticos e o senso comum daqueles que acompanham eleições: todos têm suas próprias teorias sobre porque tantas brasileiras e brasileiros rejeitam o PT. São muitas explicações, praticamente uma para cada especialista. Alguns vinculam o antipetismo ao ressentimento social diante das políticas redistributivas do partido. Outros, à reação moral aos escândalos de corrupção; outros ainda, ao avanço do conservadorismo religioso, ou à emergência do bolsonarismo e à consequente reorganização da direita brasileira depois de 2018.
Talvez nenhuma dessas explicações esteja simplesmente errada; cada uma parece capturar uma parte de um fenômeno grande demais para caber em uma única causa. O problema pode estar justamente aí: estamos chamando pelo mesmo nome rejeições que não necessariamente têm a mesma origem, o mesmo conteúdo ou a mesma função política.
Essa heterogeneidade ajuda a entender como o antipetismo pode atravessar diferentes conjunturas sem desaparecer. Já em 2014, o Estudo Eleitoral Brasileiro mostrava que a antipatia ao PT superava a simpatia pelo partido. Desde então, essa rejeição atravessou o impeachment de Dilma, a prisão de Lula, o governo Bolsonaro, a pandemia e a vitória de Lula em 2022. Ela também faz parte de uma transformação mais ampla da política contemporânea: em diversos países, eleitores passaram a organizar suas escolhas não apenas a partir dos partidos ou candidatos de que gostam, mas também daqueles que rejeitam, um fenômeno que a literatura batizou de "partidarismo negativo".
Não à toa, em 2024, 48,8% dos brasileiros diziam ter "nenhuma confiança" nos partidos políticos, segundo dados do Latinobarômetro, o pior índice entre as principais instituições do país.
Mas será que todos os antipetistas dizem a mesma coisa quando afirmam "não gosto do PT"? Essa é a pergunta que me guiou ao longo de diversas conversas com diferentes perfis de antipetistas: bolsonaristas fervorosos, evangélicas para quem a rejeição é sobretudo moral, homens que a justificam em termos econômicos e desiludidos que rejeitam o PT sem se reconhecer na própria identidade de "antipetista".
Em determinado momento, fiz aquela pergunta aparentemente simples: "se o PT fosse uma pessoa, como seria?". Depois, o exercício inverso: "e um antipetista, como seria?". As respostas não coincidiam por acaso: ao descrever o PT, os entrevistados desenhavam, sem perceber, um autorretrato às avessas.
Uma rejeição, múltiplos perfis
Entre os antipetistas mais fervorosos, essa oposição apareceu com nitidez. Diego, analista de segurança e simpatizante de Bolsonaro, descreveu o PT como um homem "mal-arrumado", com barba e cabelo por fazer, sempre no bar, bem relacionado e capaz de usar seus contatos em benefício próprio. É alguém que dá calote, promete ascensão social e não cumpre; finge trabalhar enquanto vive à custa dos outros. A descrição terminou em uma imagem quase cinematográfica: "chapéu branco, roupa branca, cigarro na boca o tempo todo".
Quando pedi, na sequência, a esses mesmos entrevistados que descrevessem o antipetista, o repertório mudou. Os homens do grupo de Diego escolheram figuras de autoridade: um militar, um policial honesto, um pai de família "que ama a pátria, a família e a Deus". As participantes do grupo de Diva, quando convidadas a fazer o mesmo exercício, recorreram a uma imagem mais simples: uma mãe, alguém que se sacrifica em nome de quem ama.
Nenhuma dessas figuras - o militar, o policial, a mãe - é política em si mesma. Ganham esse sentido pelo contraste: diante do malandro que engana, a disciplina, a proteção e o sacrifício viram atributos de quem merece confiança. É um pouco o que Sara Ahmed descreve quando fala em circulação dos afetos: sentimentos que não pertencem a quem os sente, nem ao objeto que parece provocá-los, mas vão se acumulando, por associação, até desenharem, eles mesmos, a fronteira entre quem inspira confiança e quem não inspira.
Entre algumas das entrevistadas evangélicas, essa mesma lógica ganhou contornos morais mais explícitos. Beatriz, enfermeira, imaginou o petista como um homem bissexual, já preso, mentiroso, sem disciplina física, "de qualquer outra religião, mas não cristão".
No mesmo grupo, Joana foi além: descreveu o petista como corrupto e manipulador e concluiu que essa pessoa "não deveria viver na sociedade, muito menos ser um governante". Não se trata, aqui, de características reais, mas de atributos acionados para desqualificar moralmente o adversário.
Nessas falas, a rejeição alcança uma questão mais ampla: quem pode ser reconhecido como parte legítima da comunidade política. O adversário aparece investido de atributos que, para essas entrevistadas, o colocam fora das fronteiras que definem uma pessoa digna de confiança e de representação.
Há, porém, um grupo em que essa lógica assume outra direção: são os desiludidos, aqueles que rejeitam o PT, mas não votam e, em sua maioria, sequer se reconhecem no rótulo de antipetista. Entre as mulheres desse grupo, o antipetista aparece como um homem arrogante e, não raro, explicitamente violento. É a única imagem predominantemente negativa do antipetista em toda a pesquisa.
Pedro, um homem porto-alegrense, imagina o PT como um marido infiel. A população brasileira ocuparia o lugar da esposa traída: continua naquela relação mesmo decepcionada, porque ainda acredita que aquela seja a melhor opção disponível. Depois, ao imaginar o antipetista, Pedro constrói a figura mais idealizada de toda a pesquisa: um jogador de futebol que chegou ao topo, ganhou dinheiro e reconhecimento, mas não se deixou corromper. Alguém que poderia ter esquecido suas origens, mas decide voltar para ajudar a própria comunidade.
Essas duas imagens parecem, por associação, falar de política, mas falam também de caráter, pertencimento, confiança e reconhecimento. Não é coincidência que seja justamente nesse grupo, o dos que rejeitam o PT sem se filiar a nenhuma outra bandeira - partidária, religiosa ou ideológica - , que apareçam as imagens mais pessoais. Quando nenhum partido, igreja ou causa oferece uma linguagem pronta para dizer quem se é, ganham espaço referências mais próximas: os papéis que aprendemos em casa, na família, nas relações conjugais.
O que a rejeição revela sobre quem rejeita
O achado mais direto desta pesquisa é que o antipetismo não é uma coisa só. Ele se manifesta por meio de gramáticas distintas — moral, econômica, religiosa, afetiva —, e cada uma delas diz menos sobre o PT do que sobre quem o rejeita. As imagens são formas de organizar o mundo político quando os conceitos disponíveis — esquerda, direita, governo, oposição — parecem insuficientes ou distantes. Perguntado sobre o adversário, ninguém fala apenas do adversário; fala também, sem perceber, de si mesmo.
Este texto é fruto de uma parceria do The Conversation Brasil com a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS). A autora Mariana Chaise participará, na semana que vem, do 50º Encontro Anual da ANPOCS, que ocorre entre os dias 29/9 e 2/10 (online), e 7/10 e 9/10 (presencial). Ela debaterá, justamente, o tema do antipartidarismo. Confira a programação completa do evento aqui.
Nota: os nomes dos entrevistados foram alterados para preservar suas identidades. As falas reproduzidas não representam o conjunto do eleitorado brasileiro, mas ilustram a diversidade de gramáticas que o antipetismo pode assumir.
Mariana Chaise não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.