Apesar de saberem da importância do cinto de segurança, muitos brasileiros ainda ignoram o item no banco de trás, como revelaram dados do IBGE e multas recentes flagradas por inteligência artificial em SP. Especialistas apontam uma falsa sensação de segurança e a distância entre a informação e o hábito. Para mitigar o problema e mudar o comportamento dos passageiros, o setor automotivo e órgãos de trânsito apostam na fiscalização eletrônica e em alertas sonoros mais rígidos dentro dos veículos.
Quando as câmeras com inteligência artificial começaram a funcionar na rodovia Raposo Tavares, na entrada de São Paulo (SP), em 3 de agosto desse ano, a aposta era que elas mostrariam o tamanho de um vício moderno: o celular ao volante. Na verdade, elas mostraram outra coisa.
No primeiro mês de operação, o sistema ajudou a aplicar 2.316 multas. Seis em cada dez não tinham nada a ver com o telefone, e sim com um equipamento inventado há quase sete décadas. Foram 1.386 autuações por falta de cinto — 779 envolvendo motoristas e 607, passageiros.
A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, do IBGE, confirma o desequilíbrio. Enquanto 79,7% dos brasileiros diziam usar sempre o cinto no banco da frente, só 54,6% afirmavam fazer o mesmo atrás. Entre os jovens de 18 a 29 anos, a proporção no banco traseiro caía para 44,7%. E há um corte geográfico importante: no Norte e no Nordeste, cerca de 69% usavam o cinto na frente, contra mais de 84% no Sul e no Sudeste.
Biavati não enxerga explicação óbvia. "Isso realmente é um enigma", afirma. "Tem gente que acredita piamente que o encosto do banco da frente vai te segurar."
Saber não é o mesmo que fazer
A psicóloga Alessandra Sant'Anna Bianchi, da Universidade Federal do Paraná, estuda há anos essa distância entre o que as pessoas sabem e o que fazem no trânsito. E ela aparece até onde menos se esperaria.
Em um estudo observacional feito na entrada dos campi da UFPR em Curitiba, a equipe de Bianchi constatou que 91,9% dos motoristas e 89,5% dos passageiros da frente usavam cinto. Os pesquisadores consideraram o número baixo justamente pelo perfil da amostra: todos tinham, no mínimo, ensino superior incompleto. Informação não faltava.
As câmeras com inteligência artificial mexem justamente nessa disputa. O que em 1994 exigia agentes em centenas de cruzamentos, hoje uma única câmera faz ao observar milhares de carros por dia através do para-brisa.
O carro também pode insistir
Mas há um terceiro caminho, e ele está dentro do veículo. Em um experimento do Insurance Institute for Highway Safety com motoristas que só às vezes usavam o cinto, um alerta sonoro persistente elevou o uso em cerca de 30%. No Brasil, porém, a regra é tímida.
A Resolução 936 do Contran, de 2022, obriga o aviso de cinto desafivelado apenas no banco do motorista. Para os passageiros, apenas define como o sistema deve funcionar, caso o fabricante decida instalá-lo. O próprio programa federal Mover, de incentivo à indústria, já trata o alerta para todos os ocupantes como tecnologia a ser estimulada — e vários carros vendidos aqui trazem o recurso de série também no banco de trás.
Fora do país, algumas montadoras foram além do bipe. Hoje a General Motors tem um sistema que impede o câmbio de sair da posição de estacionamento por até 20 segundos se o motorista não afivelar o cinto — a ideia, segundo a empresa, é criar o hábito antes da partida.
A Volvo apresentou um cinto que ajusta a força de retenção à altura, ao peso e à posição de cada ocupante, com chegada prevista ao Brasil no primeiro semestre de 2027.
Quase setenta anos depois de a indústria transformar o cinto de três pontos em padrão, há carros capazes de adaptá-lo ao corpo de quem o usa em tempo real. O desafio brasileiro continua sendo anterior: convencer o passageiro de trás a encaixar a fivela.