O BBB não é a lata de lixo da humanidade: é o chorume que alimenta o Coliseu moderno em rede nacional

1 abr 2026 - 21h09
(atualizado às 21h21)

O Big Brother Brasil  - BBB, para os íntimos - está na 26ª edição. Isso, por si, é a prova de que deu certo. Para quem não curte o 'entretenimento' proposto ali, vale encarar como um experimento social. Um estudo da psicologia humana. Eu juro que tentei enxergar dessa forma, mas falhei. Minha crença nas pessoas perde um tantão de força quando ligo a TV pra assistir a decadência do ser humano.

BBB: quanto pior, melhor. Pra quem?
BBB: quanto pior, melhor. Pra quem?
Foto: Imagem gerada por IA / Perfil Brasil

Para mim, o BBB não é a lata de lixo da humanidade. É aquele caldinho que fica no fundo e exala podre misturado com azedo, sabe? Você joga o lixo fora e fica aquele odor que pingou pela pia, pelo chão da cozinha e contamina o ambiente. É o chorume: aquela substância densa e tóxica que sobra da decomposição do que há de pior em nós.

Publicidade

Sentar no sofá para assistir ao espetáculo do confinamento não me parece um passatempo inofensivo; diante dos gritos, das ofensas, xingamentos e afins, começa a subir um negócio que, quando a gente vê, está com o coração acelerado, com uma raiva que surgiu no intuito de defender quem a gente nem conhece. Lá dentro, os participantes se esforçam para mostrar seu pior.

BBB: vence quem 'performa' bem. Quem 'joga'

No tabuleiro do jogo, performar bem não é sinônimo de virtude. É uma descida aos porões da alma. Vence quem melhor domina a arte de ser baixo, quem exibe sem pudor o seu lado mais obscuro e quem transforma o caráter em mercadoria de troca. É um ambiente onde o grotesco é celebrado e a humilhação em rede nacional é o preço que se paga pela promessa de uma fortuna efêmera. Vale tudo pelo engajamento. Quanto mais podre o comportamento, melhor parece ser.

Fico me perguntando se não estamos diante de uma espécie de Coliseu moderno e verborrágico. Se, na Roma Antiga, o entretenimento era o sangue físico, hoje o deleite vem do sangue emocional e da destruição da reputação alheia. É um palco onde quem triunfa é quem detém a maestria de ofender com precisão ou a resiliência de aguentar ser pisoteado até o limite da sanidade. É um desserviço à evolução humana patrocinado por grandes empresas que, em busca de lucro e visibilidade, ignoram o impacto ético de financiar a exposição da miséria moral em horário nobre.

Certamente, chegará o dia em que olharemos para trás com um misto de vergonha e incredulidade - como já fizemos diante de mulheres nuas sendo servidas num prato de sushi, por exemplo... Questionaremos como nos submetemos, como sociedade, a esse espetáculo da degradação e como permitimos que o entretenimento se tornasse sinônimo de observar (e incentivar) o pior do outro. O apresentador, ao finalizar o programa, afirma algo como "deixem as brigas somente aqui dentro do BBB". Fico pensando como é possível pedir paz no mundo e, ao mesmo tempo, incentivar a violência psicológica que acontece ali. Em um jogo onde o baixo nível é o requisito para a vitória, penso que, a cada edição, acabamos perdendo um pouco da nossa humanidade.

Publicidade

 * Este texto não reflete a opinião do Grupo Perfil Brasil 

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se