O Vaticano defendeu a manutenção do diálogo diplomático com a Rússia como essencial para solucionar a guerra na Ucrânia, rejeitando a estratégia de isolamento. O chanceler Paul Richard Gallagher reiterou a disposição da Santa Sé em mediar as negociações e prestar apoio humanitário. Paralelamente, o Kremlin condicionou uma possível cúpula entre Vladimir Putin, Donald Trump e Volodymyr Zelensky à existência prévia de acordos concretos para formalização.
O Vaticano defendeu neste domingo (30) que a manutenção do diálogo com a Rússia é fundamental para buscar uma solução para a guerra na Ucrânia.
A avaliação foi feita pelo secretário para as Relações com os Estados da Santa Sé, monsenhor Paul Richard Gallagher, que é uma espécie de "chanceler" do Vaticano, ao comentar a missão diplomática realizada em Moscou.
"As reuniões que realizamos em Moscou com vários representantes diplomáticos servem para reforçar a iniciativa da Santa Sé de manter aberto o caminho do diálogo", afirmou Gallagher em declaração à imprensa vaticana.
Segundo o religioso, a Santa Sé considera que o isolamento de países ou de seus representantes não contribui para a resolução do conflito. "Estamos convencidos de que este é o caminho a seguir e que isolar pessoas ou países não ajuda, francamente", declarou.
Gallagher ressaltou, contudo, que cada Estado tem o direito de definir sua própria estratégia diante da guerra. Para ele, a presença do Vaticano em Moscou também pretende estimular uma reflexão sobre a eficácia das medidas adotadas até agora.
"Ao vir aqui a Moscou e fazer o que outros não estão fazendo no momento, convidamos à reflexão sobre se as estratégias implementadas até agora estão dando resultados na resolução desta tragédia", afirmou o enviado do papa Leão XIV.
O secretário para as Relações com os Estados também reiterou que a Santa Sé está disposta a disponibilizar seus bons ofícios para favorecer a retomada do diálogo e das negociações entre Rússia e Ucrânia.
De acordo com Gallagher, a oferta já havia sido apresentada anteriormente, mas ainda não houve um pedido de envolvimento direto dos serviços diplomáticos do Vaticano. Apesar disso, ele afirmou que o gesto foi bem recebido.
"Ao oferecer nossos bons ofícios, dizemos a ambos os lados que a Santa Sé está disponível para ajudar de todas as formas possíveis. Basta que peçam, e colocaremos à disposição todos os nossos recursos", disse o religioso, reconhecendo que os recursos do Vaticano são "modestos", mas destacando que a iniciativa é feita "de boa-fé".
O representante do Papa também afirmou que nenhuma das partes pode resolver sozinha um conflito dessa dimensão. "No mundo de hoje, ninguém consegue resolver nada sozinho. Tanto a Rússia quanto a Ucrânia precisam da comunidade internacional; precisam de suas alianças", declarou.
Gallagher confirmou ainda que, durante sua reunião bilateral, limitou-se a fazer um apelo geral pelo fim do conflito, conforme havia relatado o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov.
Segundo ele, a Santa Sé evita entrar nos detalhes das negociações ou apresentar soluções técnicas, por considerar que essa responsabilidade cabe diretamente às partes envolvidas.
Para o "chanceler", a posição do Vaticano é pedir que Rússia, Ucrânia e outros países demonstrem boa vontade e criem condições para um diálogo sério.
Por fim, Gallagher destacou a importância dos esforços humanitários relacionados à guerra, especialmente diante da próxima viagem à Rússia do presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), cardeal Matteo Zuppi, que tem sido porta-voz de Leão XIV para discussões sobre a guerra na Ucrânia.
"Essa dimensão é fundamental, e a Santa Sé já está contribuindo nessa área ? um esforço que tem sido muito apreciado até agora. O próprio Papa, antes de partir, me disse: 'Devemos avançar com o aspecto humanitário'", concluiu.
Enquanto o Vaticano defende a manutenção dos canais de diálogo, o Kremlin afirmou neste domingo que uma eventual cúpula entre os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, só faria sentido se tivesse como objetivo a formalização de acordos.
A declaração foi feita pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, citado pela agência RIA Novosti.
"Uma cúpula entre Putin, Trump e Zelensky vem sendo proposta há algum tempo. E vocês conhecem bem a posição do nosso chefe de Estado. Tal reunião só é possível com o objetivo de formalizar acordos", afirmou Peskov.
Para o porta-voz, o processo para alcançar esses acordos é complexo e envolve uma grande quantidade de detalhes. Por isso, na avaliação do Kremlin, não faria sentido promover uma reunião de alto nível apenas para discutir questões técnicas da negociação.
Peskov também acusou Kiev de não demonstrar disposição para se comprometer com uma solução que Moscou considere genuína.