Os ataques americanos de sexta-feira, 26, os primeiros desde a assinatura do protocolo de entendimento entre Washington e Teerã em 17 de junho, foram realizados após um ataque, no dia anterior, contra um navio comercial que transitava pelo estreito, informou o Exército dos Estados Unidos, que disse ter atingido depósitos de mísseis e drones, além de radares costeiros no Irã.
Esses bombardeios "constituem uma violação flagrante" tanto da Carta das Nações Unidas quanto do protocolo de acordo, afirmou o Ministério das Relações Exteriores iraniano em comunicado.
Em represália, a Guarda Revolucionária, força ideológica ligada ao regime de Teerã, anunciou neste sábado que atacou posições americanas na região do Golfo. "Se a agressão se repetir, nossa resposta será mais ampla", advertiram, segundo a televisão estatal Irib.
O canal informou na noite de sexta-feira que houve uma explosão e o impacto de um projétil em um cais na cidade de Sirik, no sul do país, além de vários disparos de advertência contra o que Teerã chama de "navios em infração" no Estreito de Ormuz.
"O porto de Sirik não sofreu danos com o ataque inimigo", afirmou um responsável portuário da região de Hormozgan, citado pela agência iraniana Mehr.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, escreveu na rede X que o Irã havia "assinado um acordo de cessar-fogo. Nós o respeitamos. Se houver divergências sobre a aplicação do protocolo, basta pegar o telefone. Mas a violência só gera mais violência".
Mais cedo, Donald Trump classificou o ataque ao cargueiro como uma "violação estúpida" do cessar-fogo, enquanto os dois lados entram em uma fase de 60 dias de negociações para um acordo final.
Acordo entre Líbano e Israel
Apesar das tensões, navios continuaram a atravessar o Estreito de Ormuz, reaberto pelo Irã após o acordo com Washington. Algumas embarcações usaram rotas não autorizadas por Teerã, mesmo depois do alerta de que "qualquer passagem fora do quadro estabelecido não teria garantia de segurança".
Na sexta-feira, 29 navios comerciais passaram pelo estreito, segundo a plataforma Kpler. Foram 42 na quinta-feira e 57 na quarta-feira.
O plano de evacuação de cerca de 600 navios, com 11 mil marinheiros bloqueados no Golfo desde o início da guerra, deve ser retomado assim que houver novas garantias de segurança, informou a Organização Marítima Internacional. Até agora, cerca de 2.500 marinheiros e 115 navios já foram libertados.
No Golfo, o Bahrein afirmou neste sábado ter sido alvo de drones iranianos e acusou Teerã de "sabotar os esforços de paz".
Em outro front, os Estados Unidos divulgaram um acordo‑quadro entre Israel e o Líbano, mediado por Washington, com o objetivo de alcançar uma "paz e segurança duradouras" entre os dois países, em conflito há décadas.
"Rumo a uma guerra civil"
Em um vídeo divulgado após o anúncio, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, destacou avanços obtidos por Israel, incluindo a manutenção de tropas no sul do Líbano "enquanto o Hezbollah não for desarmado", apesar da criação de duas zonas sob controle do Exército libanês. Ele também afirmou que a população civil deslocada não poderá retornar por enquanto.
O presidente libanês, Joseph Aoun, disse que o acordo representa "um primeiro passo" para restaurar a soberania do país, sem "ocupação" nem "tutela".
Já autoridades americanas e a diplomacia libanesa mencionaram a necessidade de desarmar o Hezbollah, aliado do Irã.
Um deputado do grupo xiita, Hassan Fadlallah, reagiu afirmando que o governo libanês não terá capacidade de aplicar esse desarmamento, a menos que o país caminhe, com apoio dos Estados Unidos, para uma guerra civil. Ele também classificou o acordo como uma tentativa de enfraquecer o entendimento firmado em 17 de junho entre Washington e Teerã, já que o Irã defende que as negociações não sejam separadas.
Apoiadores do Hezbollah chegaram a se manifestar durante a madrugada nas ruas de Beirute.
O Líbano foi arrastado para o conflito no início de março, quando o Hezbollah atacou Israel em apoio ao Irã, após uma ofensiva americana e israelense contra Teerã no fim de fevereiro.
Com AFP