Já se passaram 16 anos desde a última vez em que três pessoas foram executadas no mesmo dia nos EUA. Mas, nesta quinta-feira (13/8), três homens condenados por homicídio em diferentes Estados americanos enfrentarão a pena de morte.
As execuções previstas dos detentos Anthony Darrell Hines, 66 anos, Jeremy Williams, 41, e Carlos Cuesta-Rodriguez, 71, no Tennessee, Alabama e Oklahoma, respectivamente, são indicativas de um forte aumento no número de execuções nos EUA.
No ano passado, em 2025, mais de quatro vezes o número de pessoas foi executado em comparação com 2021, mesmo com os júris e a população americana em geral se mostrando cada vez mais contrários ao uso da pena de morte.
Então, o que está impulsionando esse aumento? E a população americana está acompanhando essa tendência?
O fator Trump
O presidente Donald Trump é há muito tempo um dos principais defensores da pena de morte, descrevendo a pena capital como "uma ferramenta essencial para dissuadir e punir aqueles que cometeriam os crimes mais hediondos e atos de violência letal contra cidadãos americanos".
Em 2020, durante seu primeiro mandato, ele encerrou uma moratória de quase duas décadas sobre a pena de morte federal, ordenando 13 execuções em um período de seis meses.
A moratória voltou a vigorar durante o governo do presidente Joe Biden. Mas, no primeiro dia do segundo mandato de Trump, em 2025, ele assinou uma ordem executiva que restabeleceu a pena de morte.
Nenhuma execução federal foi realizada desde então, no entanto. Nos EUA, tanto o governo federal quanto as autoridades dos estados podem ordenar execuções.
Durante o governo Trump, o Departamento de Justiça também ampliou os protocolos para incluir métodos adicionais de execução, como o fuzilamento, e voltou a adotar a injeção letal. Em abril, o órgão afirmou que também havia simplificado procedimentos internos para acelerar processos envolvendo a pena de morte.
A ordem executiva de Trump também incentivou os Estados a buscar a pena de morte para todos os crimes federais em que um agente de segurança seja morto e instruiu o procurador-geral a garantir que os Estados tenham um estoque suficiente de medicamentos para injeções letais, facilitando a aplicação da pena capital.
Mas o verdadeiro impacto de Trump só poderá ser conhecido daqui a vários anos, disse Justin Mazzola, vice-diretor de pesquisa da Anistia Internacional dos EUA, organização que se opõe à pena de morte.
"Por causa do tempo que leva para que o caso de fato aconteça e também de todos os recursos previstos depois que há uma condenação", afirmou.
A Flórida lidera o movimento
Houve um total de 47 execuções em 11 Estados em 2025, um aumento expressivo em relação às 25 execuções realizadas em 2024.
Mas cerca de 40% das mortes ocorreram em um único Estado: a Flórida, tornando o chamado Sunshine State o principal fator por trás do aumento das execuções nos EUA. Pouco mais da metade de 2026, 12 das 19 execuções haviam ocorrido na Flórida.
Segundo especialistas, isso se deve a um homem: o governador republicano Ron DeSantis.
"Ele é o motivo pelo qual estamos vendo um número recorde de execuções. Ele é o motivo pelo qual a Flórida é uma exceção em relação ao restante dos Estados Unidos", disse Robin Maher, diretora-executiva do Death Penalty Information Center (DPI). A organização fornece estatísticas e pesquisas sobre a pena de morte, mas não assume uma posição moral sobre o tema.
DeSantis esteve por trás de mudanças nas leis que tornam mais fácil realizar execuções.
Em 2023, a Flórida reduziu o limite legal para a aplicação da pena de morte ao diminuir o número de jurados necessários para recomendar a pena capital na fase de julgamento dos processos, de 12 — que precisavam ser unânimes — para oito jurados.
Enquanto isso, o crime de violência sexual contra menores de 12 anos passou a ser passível de pena de morte.
DeSantis tem defendido a pena de morte como um "forte elemento de dissuasão" contra o crime e uma "punição adequada para os piores criminosos".
Como os estados têm autonomia para processar crimes e ordenar execuções, grande parte do poder está nas mãos dos governadores estaduais. A Flórida ocupa uma posição única porque seu governador tem a prerrogativa exclusiva de assinar mandados de execução para presos que já não têm mais recursos judiciais, sem supervisão dos tribunais.
A Pensilvânia tem um processo semelhante, mas não realiza uma execução desde 1999.
'A punição deles é, francamente, merecida'
Os EUA são um dos poucos países ocidentais que ainda mantêm a pena de morte, que foi amplamente abolida na Europa e começa a perder força na África.
Nos EUA, 27 dos 50 Estados mantêm a pena de morte prevista em suas leis estaduais. Quatro deles — Califórnia, Ohio, Oregon e Pensilvânia — suspenderam as execuções por meio de medidas dos governadores, enquanto problemas relacionados a execuções malsucedidas, discriminação e custos ganharam destaque.
Mas muitas pessoas ainda apoiam a pena de morte. O principal promotor da Flórida, James Uthmeier, tem defendido firmemente a aplicação da pena de morte em casos de homicídio de grande repercussão, apoiando "a forma máxima de punição" para criminosos "depravados".
"As pessoas que se envolvem nesse tipo de conduta, francamente, conquistaram essa punição, e cabe a um júri de 12 pessoas determinar se essa sentença é apropriada ou não", disse o promotor público da Flórida William Sheiner em uma entrevista recente à Central Florida Public Media.
"Só porque eu defendo a pena de morte como uma opção não significa que essa será a sentença. Basicamente, estou dizendo à comunidade: cabe a vocês decidir se a morte é uma punição apropriada."
Os escritórios de Uthmeier e Sheiner não responderam imediatamente ao pedido de comentário da BBC.
Execuções sob os holofotes
A forma como os presos são executados se tornou um ponto de debate tão importante quanto a própria questão de se eles deveriam ser executados.
Empresas farmacêuticas têm se oposto ao uso de seus produtos em execuções, levando à escassez dos medicamentos necessários para injeções letais.
Em 2025, diante da falta desses medicamentos, a Carolina do Sul começou a executar presos por meio de fuzilamento.
Enquanto isso, uma série de execuções malsucedidas levantou preocupações. Segundo o Death Penalty Information Center (DPI), estima-se que 3% das execuções realizadas nos EUA entre 1890 e 2010 tenham sido malsucedidas, sendo a injeção letal o método com a maior taxa de execuções malsucedidas.
Em 2022, mais de um terço das execuções nos EUA foram malsucedidas ou apresentaram problemas graves, segundo a organização.
Em maio, autoridades do Tennessee tentaram, sem sucesso, aplicar uma injeção letal em Tony Von Carruthers, que estava no corredor da morte havia décadas.
O procedimento durou mais de uma hora. Sangue escorreu pelo peito dele, e ele gemeu repetidamente e disse aos funcionários da prisão que estava sentindo dor, segundo relatos de testemunhas.
O governador Bill Lee, que concedeu a Carruthers uma suspensão da execução por um ano após o procedimento malsucedido, afirmou que a execução não havia sido malsucedida. Segundo ele, o médico simplesmente não conseguiu estabelecer um acesso intravenoso.
Mas ainda não se sabe se a execução dos três homens prevista para esta quinta-feira será realizada — ou se haverá uma suspensão de última hora.
Anthony Darrell Hines, que há quatro anos afirma ser inocente e está acamado, tem sua execução programada para ocorrer no Tennessee nesta quinta-feira, seguindo o mesmo protocolo que fracassou 12 semanas atrás no caso de Carruthers.
No Alabama, Jeremy Williams, condenado pelo estupro e assassinato de uma menina de 5 anos em 2021, pode ser a primeira pessoa executada no Estado em 2026.
Williams, que dispensou seus advogados e declarou que deseja ser executado, deve morrer por injeção letal. A governadora do Alabama, Kay Ivey, afirmou que não pretende conceder clemência.
Em Oklahoma, o septuagenário Carlos Cuesta-Rodriguez não pediu clemência nem misericórdia pela morte de uma mulher em 2003. Ele também deve ser executado por injeção letal nesta quinta-feira, mas, segundo especialistas, sua idade aumenta o risco de uma execução malsucedida.
As execuções previstas para esta quinta-feira ocorrem em meio a uma queda constante do apoio à pena de morte na opinião pública.
"É o oposto de uma solução política barata e fácil", disse Maya Foa, CEO da Reprieve US, organização jurídica internacional que se opõe à pena de morte.
Apenas 52% dos americanos dizem que a pena de morte é moralmente aceitável, o menor percentual desde a década de 1970, segundo uma pesquisa do Gallup.
Embora mais da metade dos americanos ainda seja favorável à pena de morte, a queda mostra uma mudança de tendência, disse Maher.
Essa redução do apoio também se reflete na queda do número de sentenças de morte proferidas por júris. Na década de 1990, os júris de todo o país proferiam mais de 300 sentenças de morte por ano. Em 2025, foram apenas 23.
"Isso nos diz algo muito importante: são cidadãos comuns que estão julgando pessoas acusadas de cometer os piores crimes possíveis e, depois, decidindo qual punição é adequada para esses crimes", disse Maher.
"Esses júris estão cada vez mais dizendo que uma sentença de morte não é a resposta certa."