Por Lucas Rizzi - Há exato um ano, o colégio de cardeais elegia, pela primeira vez na história, um homem nascido nos Estados Unidos para comandar a Igreja Católica.
Em 8 de maio de 2025, Robert Francis Prevost, o papa Leão XIV, foi escolhido para suceder o carismático e reformista papa Francisco e liderar mais de 1 bilhão de fiéis em meio a um cenário de divisões no clero e conflitos disseminados pelo mundo.
Com uma inegável diferença de estilo em relação a seu antecessor, o pontífice norte-americano, mais discreto e contido, deu continuidade às políticas pastorais e teológicas de Jorge Bergoglio, e, pouco a pouco, tem começado a imprimir sua própria marca no pontificado, sobretudo depois do embate com Donald Trump por conta da guerra no Irã.
Para Fernando Altemeyer Júnior, professor de teologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Leão XIV foi eleito para dar "sequência à renovação eclesial" iniciada por Francisco, apesar das personalidades distintas.
Se Bergoglio era expansivo, de fala solta, um homem do improviso e caloroso, desapegado de símbolos e protocolos, Prevost é introspectivo, cultivador das intimidades, um bispo que, seguindo os passos de Santo Agostinho, acredita que Deus está no âmago da alma humana. Ao mesmo tempo, demonstra saber compor com a máquina burocrática da Igreja.
"O Papa acredita que o mundo vive hoje mais que uma crise militar; ele vive uma crise de sentido e de alma, então ele, como agostiniano, vem em boa hora para trazer paz e unidade, ficar do lado dos pobres, romper com indústria de armas. Mas ele não é Francisco, ele é mais delicado, interior", disse o teólogo, destacando o cenário conturbado em que o pontífice precisa se mover.
"Ele tem que jogar um novo jogo porque a ultradireita ? americana, italiana, espanhola ? é feroz, e ele não quer que o tecido rasgue mais ainda. Mas ele vai tentando. Usa a mozeta e a cruz antiga [símbolos que não costumavam ser utilizados por Francisco], ele não tem problema em seguir tradições, mas não vai falar a música do conservadorismo. Ele veio para dar prosseguimento a Francisco, mas do modo dele", acrescenta Altemeyer.
Filipe Domingues, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e especialista em Vaticano, observa que, do ponto de vista do conteúdo, não há nenhuma mudança de Bergoglio para Prevost, inclusive em temas controversos no seio da Igreja, como o tratamento a minorias sexuais e divorciados.
Ambos defendem uma Igreja aberta e acolhedora, mas Leão XIV, aos 70 anos de idade, tem diante de si a perspectiva de um pontificado longo e não precisa de pressa.
"Diferentemente de Francisco, que dizia que seu pontificado seria breve, Leão está envolvendo os cardeais para dizer: 'Eu vou definir junto com vocês qual vai ser meu programa'", afirma Domingues. Para ele, o Papa atual tem uma diferença de estilo e carisma em relação a Francisco, mas com uma "continuidade de visão pastoral".
"O mais importante é o conteúdo, ver se há uma ruptura na direção, e, neste momento, não há. Francisco foi eleito para começar uma reforma que ele sabia que não iria concluir, e a gente viu a decisão [do conclave] de continuar em vez de voltar atrás", ressalta o vaticanista.
As principais medidas do primeiro ano de pontificado de Prevost incluem a exortação apostólica "Dilexit te", iniciada por Bergoglio, e a promessa de uma nova encíclica sobre inteligência artificial. Leão XIV também tem sido "vigorosamente ecumênico", segundo Altemeyer - não apenas com muçulmanos, luteranos ou judeus, como seus antecessores, mas também com ortodoxos e anglicanos, renovando o desejo de plena comunhão entre os cristãos, como ficou claro na visita à Turquia, primeiro destino internacional de seu pontificado.
A recente recepção amistosa à arcebispa da Cantuária, Sarah Mullally, primeira mulher a liderar a Igreja da Inglaterra, foi um símbolo forte e provocou ira em setores conservadores do clero católico. Ao mesmo tempo, o Papa tem mantido o forte teor social que marcou a gestão de Francisco, com reiterados apelos em defesa dos marginalizados e críticas a um sistema econômico predatório e que prioriza o lucro em detrimento da vida humana.
Embate com Trump - O grande divisor de águas, contudo, foi a Semana Santa. Em meio à escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, Leão XIV usou sua primeira Páscoa como pontífice para elevar o tom contra as guerras, clamando para que os poderosos depusessem as armas e buscassem a paz pelo diálogo.
Artífice do atual conflito no Oriente Médio, o presidente dos EUA, Donald Trump, não tardou a responder e chamou o Papa de "fraco", em uma ruptura inédita entre a Casa Branca e a Santa Sé, mas Prevost se manteve firme em seu discurso, embora tenha dito que não estava interessado em debater com o republicano.
"Antes do conclave, falava-se que o Papa nunca seria americano, justamente por causa do envolvimento dos Estados Unidos em questões políticas e econômicas. Mas o que a gente vê é que o fato de ele ser americano está fazendo diferença porque os Estados Unidos são o maior risco do ponto de vista da instabilidade no mundo", observa Domingues. "Ter um Papa americano com uma autoridade moral forte é uma coisa totalmente nova. Nenhum outro líder global consegue falar no mesmo tom, e o Papa não tem nada a perder", acrescenta.
Já a viagem à África, com passagens por Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial e realizada na esteira do embate com Trump, mostrou um pontífice hábil e articulado para se aproximar de comunidades locais, com discursos contundentes contra as desigualdades sociais e a depredação da natureza. Antes disso, no endinheirado Principado de Mônaco, já havia condenado o "abismo" entre ricos e pobres e associado as guerras à "idolatria do dinheiro".
Para Domingues, o primeiro ano de Leão XIV no trono de Pedro foi de adaptação. "Ele está aprendendo a ser Papa", diz o vaticanista, enquanto Altemeyer vê Prevost como "o homem para o momento certo, com a palavra certa". .