Por que Japão religou e logo em seguida desligou maior usina nuclear do mundo

Mesmo com normas de segurança reforçadas e enfrentando a oposição de parte da população, o Japão enfrenta dilema nuclear quase 15 anos depois do desastre de Fukushima.

22 jan 2026 - 16h22
A usina nuclear de Kashiwazaki-Kariwa possui a maior capacidade instalada do mundo
A usina nuclear de Kashiwazaki-Kariwa possui a maior capacidade instalada do mundo
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O Japão suspendeu as operações na maior usina nuclear do mundo, poucas horas após sua reativação, afirmou o operador.

Um alarme soou "durante os procedimentos de inicialização do reator" em Kashiwazaki-Kariwa, a noroeste de Tóquio, mas o reator permaneceu "estável", disse o porta-voz da Tokyo Electric Power Company (Tepco), Takashi Kobayashi.

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O reator número seis foi religado na quarta-feira (21/1), um dia depois do planejado devido a um mau funcionamento do alarme - o primeiro a ser reativado na usina desde o desastre de Fukushima em 2011.

O Japão desativou todos os seus 54 reatores após um terremoto de magnitude 9,0 desencadear um derretimento na usina de Fukushima há 15 anos, causando um dos piores desastres nucleares da história.

Este é apenas um capítulo da retomada nuclear do Japão, que ainda tem um longo caminho pela frente.

O sétimo reator de Kashiwazaki-Kariwa só deve ser religado em 2030 e os outros cinco poderão ser desmantelados. Esta medida deixa a usina com muito menos capacidade do que quando todos os seus sete reatores estavam em operação: 8,2 GigaWatts.

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O colapso de Fukushima Daiichi, a 220 km a nordeste de Tóquio, no litoral japonês, causou vazamento radioativo. As comunidades locais foram evacuadas e muitos não voltaram até hoje, apesar das garantias oficiais de que o retorno era seguro.

Os críticos afirmam que a proprietária da usina, a Tokyo Electric Power Company (Tepco), não estava preparada e que a reação da empresa e do governo não foi bem coordenada.

Um relatório governamental independente chamou o incidente de "desastre feito pelo homem" e culpou a Tepco, mas a Justiça absolveu posteriormente três dos seus executivos, que foram acusados de negligência.

Ainda assim, o medo e a falta de confiança aumentaram a oposição das pessoas à energia nuclear e o Japão suspendeu a operação de todos os seus reatores.

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A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, defende que outros reatores fora de operação sejam religados
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O Japão passou a última década tentando religar suas usinas, em busca do seu objetivo de atingir emissões zero até 2050.

Desde 2015, o país religou 15 dos seus 33 reatores operativos. A usina de Kashiwazaki-Kariwa é a primeira de propriedade da Tepco a reiniciar suas operações.

Até 2011, a energia nuclear era responsável por cerca de 30% da eletricidade do Japão e o país planejava elevar esse índice para 50% até 2030.

O seu plano energético do ano passado divulgou um objetivo mais humilde. O país quer fazer com que a energia nuclear atenda 20% do seu consumo de eletricidade até 2040.

Mas até mesmo este nível pode ser difícil de atingir.

'Gota no deserto'

A disposição global para adotar a energia nuclear está aumentando.

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A Agência Internacional de Energia Atômica estima que a capacidade mundial de produção de energia nuclear pode crescer em mais de 100% até 2050. No Japão, a energia nuclear representou apenas 8,5% da eletricidade produzida em 2023.

A primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, que assumiu o cargo em outubro passado, enfatizou a importância da energia nuclear para a autossuficiência japonesa no setor elétrico — especialmente agora que o país espera um pico da demanda de energia, gerado pelos centros de dados e pela fabricação de semicondutores.

Os líderes japoneses e as empresas de energia do país defendem há muito tempo a energia nuclear. Eles afirmam que ela é mais confiável que a energia renovável, como a solar e a eólica, e mais adequada para o relevo montanhoso do Japão.

Mas os críticos defendem que a retomada da energia nuclear surge às custas dos investimentos em energias renováveis e no corte de emissões.

Neste momento em que o Japão tenta reviver suas ambições no setor de energia nuclear, o custo de operação dos reatores disparou. Este aumento se deve, em parte, às novas normas de segurança, que exigem grandes investimentos das companhias que tentarem religar as usinas.

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"A energia nuclear está ficando muito mais cara do que pensávamos", afirma a pesquisadora Florentine Koppenborg, da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha.

O governo japonês poderia subsidiar os custos ou repassá-los aos consumidores — duas opções impopulares para os governantes japoneses, que passaram décadas alardeando o baixo custo da energia nuclear.

O aumento da conta de energia também poderá prejudicar o governo, em um momento em que as famílias protestam contra a alta dos preços.

O governo "está de mãos amarradas, em relação ao apoio financeiro à energia nuclear, a menos que esteja disposto a abrir mão de um dos seus principais argumentos", afirma Koppenborg.

"Acho que o renascimento da energia nuclear no Japão é uma gota no deserto, pois não altera o panorama do declínio desta fonte de energia no país."

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Apenas um dos sete reatores da usina de Kashiwazaki-Kariwa está sendo religado por enquanto
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Além do temor de outro desastre como o de Fukushima, diversos escândalos também abalaram a confiança do público. E a usina de Kashiwazaki-Kariwa, particularmente, se encontra envolvida em dois deles.

Em 2023, um dos seus funcionários perdeu uma pilha de documentos que havia colocado em cima do seu carro. Ele se esqueceu de guardá-la antes de sair dirigindo.

E, em novembro passado, outro funcionário foi flagrado desviando documentos confidenciais.

Um porta-voz da Tepco declarou que a empresa relatou os incidentes para a Autoridade de Regulamentação Nuclear do país (ARN), destacando que pretende continuar aumentando sua gestão de segurança.

Para Koppenborg, estas revelações são um "bom sinal" de transparência. Mas elas também revelam que "a Tepco enfrenta dificuldades para mudar seus procedimentos e sua forma de tratar de questões de segurança".

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No início do mês, a ARN suspendeu sua análise para reiniciar os reatores nucleares da usina de Hamaoka, da empresa Chubu Electric, no centro do Japão. Descobriu-se que a companhia manipulou dados de tremores de terra nos seus testes.

A Chubu Electric se desculpou, afirmando que continuará a "respeitar sinceramente, ao máximo possível, as instruções e orientações da ARN."

O ex-alto funcionário de segurança nuclear Hisanori Nei declarou à BBC que, embora tenha ficado "surpreso" com o escândalo da usina de Hamaoka, ele acredita que a severa penalidade imposta à operadora deverá dissuadir outras empresas de fazer o mesmo.

"As companhias do setor de energia devem reconhecer a importância de não falsificar dados", segundo ele, ressaltando que as autoridades irão "rejeitar e punir" as empresas infratoras.

Como sobreviver a outro Fukushima

O episódio de Fukushima fez com que a opinião pública japonesa se voltasse contra a energia nuclear, promovida até então como barata e sustentável.

Milhares de moradores entraram com ações coletivas contra a Tepco e o governo japonês. Elas exigem compensação por danos a propriedades, desgaste emocional e problemas de saúde supostamente relacionados à exposição à radiação.

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Nas semanas que se seguiram ao desastre de março de 2011, 44% dos japoneses acreditavam que o uso da energia nuclear deveria ser reduzido, segundo uma pesquisa do centro de estudos Pew Research Center.

Este número saltou para 70% em 2012, mas pesquisas posteriores da revista de negócios japonesa Nikkei demonstraram, em 2022, que mais de 50% das pessoas apoiavam a energia nuclear, se houvesse garantias da sua segurança.

Muitas pessoas ainda se opõem à retomada da energia nuclear no Japão
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Mas o medo e a falta de confiança permanecem.

Em 2023, a liberação de água radioativa tratada da usina nuclear de Fukushima Daiichi gerou raiva e ansiedade no país e no exterior.

Muitas pessoas ainda se opõem a religar as usinas nucleares.

Em dezembro, centenas de manifestantes se reuniram no lado externo da sede do governo da província de Niigata, onde fica a usina de Kashiwazaki-Kariwa, demonstrando suas preocupações com a segurança.

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"Se algo acontecer na usina, seremos os primeiros a sofrer as consequências", declarou um manifestante à agência de notícias Reuters.

Na semana passada, antecipando a retomada de operações em Kashiwazaki-Kariwa, uma pequena multidão se reuniu em frente à sede da Tepco para realizar novos protestos.

No Japão, os padrões de segurança das usinas nucleares ficaram muito mais rigorosos depois de Fukushima. A ARN, organismo formado em 2012, agora supervisiona a retomada das usinas nucleares do país.

Em Kashiwazaki-Kariwa, foram construídos paredões de 15 metros de altura, para proteger a usina contra tsunamis. E portas à prova d'água, agora, protegem os equipamentos críticos da usina.

"Segundo os novos padrões de segurança, as usinas nucleares japonesas poderão resistir a terremotos e tsunamis similares ao ocorrido em 2011", afirma Nei.

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Mas a preocupação de Koppenborg é que "eles estão se preparando para o pior que já viram no passado, não para o que está por vir".

Especialistas receiam que estas políticas não estejam planejando o suficiente para enfrentar o aumento do nível do mar causado pelas mudanças climáticas ou o megaterremoto que acontece em média uma vez por século no Japão.

"Se o passado se repetir, o Japão está super bem preparado", afirma Koppenborg.

"Mas, se acontecer algo realmente inesperado e surgir um tsunami maior que imaginamos, não sabemos."

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