Por que é tão difícil ter notícias de dentro do Irã?

Com um dos poucos jornalistas estrangeiros que continuavam a reportar do Irã agora preso na notória prisão de Evin, quais são os desafios enfrentados por aqueles que tentam mostrar ao mundo como é a vida na República Islâmica?

4 mar 2026 - 18h22
Apoiadores em ato após a morte de Ali Khamenei  em Teerã
Apoiadores em ato após a morte de Ali Khamenei em Teerã
Foto: Getty Images / Anadolu / BBC News Brasil

Partes do complexo da emissora estatal de rádio e televisão do Irã, a IRIB, em Teerã, foram atingidas pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra a capital.

Na segunda-feira (2/3), as Forças de Defesa de Israel haviam alertado os iranianos a evitarem a região de Evin e as áreas vizinhas à emissora. Também orientaram que aqueles que já estavam no local buscassem abrigo imediato e evitassem áreas expostas até novo aviso.

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Além da IRIB, a região abriga a notória prisão de Evin, que no ano passado sofreu um grande ataque de Israel, resultando em ao menos 80 pessoas mortas, incluindo funcionários, presos e familiares em visita.

Entre os muitos presos políticos e ativistas detidos ali atualmente, acredita‑se que esteja um dos poucos jornalistas estrangeiros que continuaram a reportar do Irã durante a violenta repressão aos manifestantes no mês passado.

Shinnosuke Kawashima, chefe do escritório em Teerã da NHK — a emissora pública japonesa —, foi transferido para a prisão após ser detido em 20 de janeiro, segundo informou a Radio Farda, serviço em persa da Radio Free Europe/Radio Liberty, localizada em Praga, na República Tcheca, citando duas fontes.

Sua detenção "reflete um esforço deliberado das autoridades iranianas para silenciar a cobertura independente… projetado para pressionar jornalistas ao silêncio e fazê-los temer continuar seu trabalho", declarou o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ).

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"Ações como essa têm o objetivo de impor autocensura e expulsar a mídia independente do país", acrescentou Sara Qudah, diretora regional do CPJ.

Toda a mídia iraniana é controlada pelo Estado - e até pequenos desvios à narrativa do governo não são tolerados
Foto: EPA / BBC News Brasil

A repressão mortal aos protestos foi seguida por um corte de internet que durou mais de uma semana, amplamente visto como uma tentativa de interromper o fluxo de informações — uma tática que as autoridades já utilizaram antes para moldar a narrativa.

Muitos iranianos que vivem em áreas próximas às fronteiras, porém, conseguiram estabelecer comunicação usando conexões de internet de países vizinhos.

Atualmente, os iranianos têm novamente enfrentado um apagão total, conforme relatado pela empresa global de monitoramento de internet NetBlocks, sediada em Londres. Mas parece haver breves períodos intermitentes em que as pessoas conseguem usar a internet.

Todas as plataformas de redes sociais no Irã são proibidas, mesmo quando não há corte de internet. Para contornar essas restrições, as pessoas precisam usar VPNs (redes privadas virtuais).

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O uso das VPNs permite "enganar" os controles do governo ao ocultar o local de onde a pessoa faz o acesso.

Mas, embora o corte atual tenha reduzido drasticamente a atividade de usuários de redes sociais que estão dentro do Irã, um pequeno grupo de autoridades e comentaristas pró-regime continua a publicar.

Eles podem estar usando conexões de internet autorizadas ou ter recebido "chips em branco", que permitem acesso irrestrito à internet.

E há relatos de que esse privilégio foi estendido a alguns jornalistas, além de professores universitários e pesquisadores que solicitaram com sucesso os chips.

Mas, em um ambiente como esse, reportar fatos torna-se altamente sensível, e fazer jornalismo dentro do país é extremamente arriscado, a menos que esteja alinhado com a linha oficial da República Islâmica.

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Toda a mídia doméstica é controlada pelo Estado, e até pequenos desvios à narrativa do governo não são tolerados.

Quais veículos estrangeiros ainda operam de dentro do Irã?

A televisão estatal iraniana exibiu este ônibus carbonizado, afirmando que as imagens foram feitas em Teerã em 10 de janeiro de 2026.
Foto: Islamic Republic of Iran Broadcasting via WANA via Reuters / BBC News Brasil

Vários importantes canais pan-árabes continuam a reportar do Irã, incluindo a Al Jazeera, que tem sede no Catar, a Al Arabiya, da Arábia Saudita, o canal Al Mayadeen — sediado em Beirute, no Líbano, e pró-Teerã — e o RT Arabic, da Rússia.

O próprio canal estatal iraniano em língua árabe, a Al Alam TV, tem sede em Teerã.

Diversas grandes emissoras turcas também mantêm presença no Irã, entre elas a estatal TRT Haber, a pró-governo A Haber, a rede NTV e o canal pró-Rússia Ulusal Kanal.

A cobertura dos principais veículos turcos geralmente reflete a postura cautelosa de Ancara em relação à instabilidade no Irã.

Outras muitas organizações internacionais de notícias são proibidas ou fortemente restringidas.

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Veículos estrangeiros que conseguem operar dentro do país costumam evitar temas considerados "linhas vermelhas" pelas autoridades ou mantêm posições editoriais que não desafiam as narrativas centrais da República Islâmica.

Os desafios dos jornalistas estrangeiros no Irã

Mapa da BBC mostra localização dos ataques a Teerã
Foto: BBC News Brasil

Antes de entrar no Irã, jornalistas internacionais precisam obter um visto de imprensa e credenciamento junto ao Ministério da Cultura e Orientação Islâmica.

A aprovação é rigidamente controlada e normalmente exige o envio prévio de um plano detalhado de cobertura.

Espera‑se que os correspondentes sigam esse plano fielmente. Desvios podem resultar em advertências, perda das credenciais ou expulsão.

A movimentação e o acesso também são cuidadosamente gerenciados

Repórteres estrangeiros geralmente trabalham com produtores locais aprovados pelo governo e podem enfrentar restrições para viajar fora das principais cidades sem permissão prévia.

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As leis de imprensa e penais do Irã incluem disposições amplas que proíbem conteúdo considerado prejudicial à segurança nacional, à ordem pública ou aos princípios islâmicos.

Isso dá às autoridades grande margem para abrir processos sob acusações como "propaganda contra o Estado".

Embora alguns veículos estrangeiros mantenham escritórios em Teerã, o ambiente de trabalho é altamente restritivo — e pode se tornar ainda mais rígido durante períodos de tensão política.

Quando começaram as restrições a jornalistas no Irã

Após a contestada eleição presidencial de 2009, quando Mahmoud Ahmadinejad foi declarado vencedor sobre Mir Hossein Mousavi, protestos em massa eclodiram em todo o Irã.

As autoridades responderam com uma ampla repressão e impuseram severas restrições à mídia estrangeira.

Correspondentes internacionais foram expulsos, confinados a escritórios ou hotéis, ou proibidos de cobrir as manifestações.

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Vistos de imprensa tornaram-se cada vez mais difíceis de obter ou renovar, e as regras de credenciamento ficaram mais restritivas.

Embora o Irã já tivesse imposto limitações à imprensa antes, o período pós-2009 marcou um endurecimento contínuo das condições de acesso, circulação e cobertura política — condições que continuam a definir o ambiente até hoje.

Ondas subsequentes de protestos, incluindo as de 2017-18, 2019 e as manifestações nacionais após a morte de Mahsa Amini em 2022, desencadearam novas rodadas de restrições e expulsões temporárias.

Riscos a jornalistas mesmo à distância

Iranianos caminham em outdoor com mensagem anti-EUA em Teerã: "Se você semear o vento, colherá o vendaval"
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Jornalistas que reportam do exterior também têm enfrentado pressão. As autoridades iranianas têm mirado nos familiares que permanecem no país com assédio ou intimidação.

Desde o lançamento da BBC Persian TV, o canal em persa da BBC — no rescaldo da contestada eleição presidencial de 2009 — os funcionários têm sido submetidos a ameaças e intimidação jurídica.

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Outros dois canais em persa sediados em Londres, Iran International e Manoto, ambos críticos da República Islâmica, foram designados como veículos "terroristas".

Seus funcionários têm recebido ameaças, e um jornalista foi gravemente ferido em Londres.

Os escritórios chegaram a ser temporariamente fechados sob proteção policial, depois que a inteligência britânica interceptou ameaças graves.

As restrições já foram suspensas?

O Irã abre temporariamente suas portas a jornalistas estrangeiros durante grandes celebrações nacionais, embora sob condições rígidas.

Iniciativas conduzidas pela IRIB também parecem permitir que jornalistas independentes selecionados e influenciadores de redes sociais solicitem visitas.

Em fevereiro de 2026, por exemplo, a mídia iraniana informou que mais de 200 repórteres e equipes de filmagem estrangeiras cobririam o 47º aniversário da Revolução Islâmica de 1979.

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A correspondente internacional-chefe da BBC, Lyse Doucet, reportou de Teerã sob a condição de que nenhum de seus materiais fosse usado pelo serviço persa da BBC.

E, antes do aniversário, um centro de mídia afiliado à IRIB organizou um tour de imprensa rigidamente controlado para jornalistas estrangeiros e influenciadores.

A delegação foi levada ao Irã enquanto comícios pró-governo enchiam as ruas. Os participantes foram conduzidos à marcha comemorativa, à exposição aeroespacial e de mísseis do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a vários locais danificados durante os protestos de dezembro de 2025 e janeiro de 2026.

Os vídeos e reportagens publicados online ecoam amplamente a narrativa do governo.

Entre os convidados, estavam o ativista de mídia americano Patrick Henningsen, a comentarista paquistanesa-britânica Bushra Shaikh e a ativista política americana Kala Walsh.

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Em um vídeo amplamente compartilhado, Shaikh aparece sem véu em uma rua pública, sugerindo que a mídia ocidental distorce a representação das liberdades das mulheres no Irã.

No entanto, em imagens feitas na exposição de mísseis e durante uma entrevista em estúdio da televisão estatal, ela aparece usando lenço na cabeça.

Em resumo, emissoras estrangeiras podem e reportam do Irã, mas apenas sob condições impostas pelo Estado, circunstâncias que continuam a moldar tanto o acesso que recebem quanto as histórias que podem contar.

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