Andy Burnham está a caminho de se tornar o 59º primeiro-ministro do Reino Unido, após os parlamentares do Partido Trabalhista, atualmente no poder, apoiarem sua ascensão à liderança da legenda, no lugar de Keir Starmer.
Sua marca política é uma postura amigável e acessível, e o slogan "vote no Andy" lhe rendeu grande sucesso nas urnas ao longo dos anos.
Ele também será o primeiro primeiro-ministro a se declarar explicitamente nortista desde Harold Wilson, nas décadas de 1960 e 1970.
Outros primeiros-ministros desde então podem ter tido raízes no norte da Inglaterra, mas nenhum fez disso um elemento central de sua imagem pública da maneira que Burnham fez.
Historicamente uma região de forte tradição industrial e operária, o norte da Inglaterra passou por um período de declínio econômico desde o final do século 20. Sua população muitas vezes é vista com preconceito por pessoas de outras regiões da Inglaterra, sofrendo discriminação de classe e devido ao sotaque.
Burnham chegou a ganhar o apelido de "Rei do Norte", conquistado após um discurso desafiador ao ar livre em 2020, no qual afirmou ao governo que a região da Grande Manchester não aceitaria mais restrições relacionadas à covid.
No entanto, o político de 56 anos iniciou sua longa carreira como a figura típica de quem transita no baixo-clero do parlamento britânico — e, embora esteja em Westminster há menos de um mês nesta nova fase, sua ascensão ao poder é fruto de décadas de trajetória.
Ele concorreu à liderança trabalhista pela primeira vez em 2010 e novamente em 2015, quando ficou em segundo lugar, bem atrás de Jeremy Corbyn.
Burnham poderia ter se tornado apenas uma nota de rodapé na história política se não tivesse decidido, em 2017, candidatar-se para ser o primeiro prefeito da região da Grande Manchester — a Inglaterra possui atualmente 14 prefeitos eleitos por regiões metropolitanas, conhecidos como metro mayors.
O conceito de prefeitos regionais ainda não havia sido testado, mas Burnham imprimiu sua própria marca ao cargo — utilizando-o para construir uma plataforma poderosa, distante da política parlamentar britânica tradicionalmente centrada em Londres, que ele afirma desprezar.
Fã de futebol e amante de música indie
Nascido em Liverpool em 1970, Burnham cresceu em Culcheth, um vilarejo tranquilo na região metropolitana de Cheshire, condado do noroeste da Inglaterra.
Seu pai, engenheiro da BT (antiga British Telecom), e sua mãe, recepcionista de consultório médico, eram ambos apoiadores fervorosos do Partido Trabalhista, e ele desenvolveu um interesse precoce pela política.
Burnham conta que se inspirou a ingressar no Partido Trabalhista aos 14 anos, após se sentir tocado pelo drama televisivo da BBC Boys from the Blackstuff, que retratava a vida de quem dependia de auxílio-desemprego em Liverpool.
Torcedor do clube de futebol Everton por toda a vida, Burnham é lembrado pelos amigos como uma criança competitiva e apaixonada por esportes, que atuava como lançador na equipe escolar de críquete em Lancashire, no noroeste da Inglaterra.
Na escola — uma instituição católica local —, seu professor de inglês recorda que ele se candidatou pelo Partido Trabalhista em eleições simuladas e venceu com uma vitória esmagadora.
Burnham e seus dois irmãos foram os primeiros da família a cursar a universidade; ele estudou Inglês em Cambridge.
Em seu livro Head North ("Rumo ao Norte", em tradução literal), Burnham escreveu que teve "dificuldade em sentir que pertencia ao ambiente" na universidade e se sentia como um "impostor".
No entanto, o amante de música — fã de bandas indie de Manchester como Smiths e Stone Roses — disse que seu "interesse crescente pela música de Manchester me deu uma identidade e uma vantagem".
De deputado a prefeito da Grande Manchester
Após se formar, ele iniciou sua carreira no jornalismo, trabalhando para revistas britânicas. No início de seus 20 anos, ele teve sua primeira oportunidade na política ao trabalhar como pesquisador para a então deputada Tessa Jowell (1947-2018), que viria a ser ministra nos governos de Tony Blair e Gordon Brown.
Burnham ascendeu rapidamente na carreira, tornando-se assessor especial da secretaria de Cultura, antes de ser eleito deputado pela cidade de Leigh, na Grande Manchester, em 2001.
Inicialmente, atuou como ministro júnior sob o governo Blair, mas integrou o gabinete como secretário-chefe do Tesouro e, posteriormente, como secretário de Cultura e de Saúde, sob o governo Gordon Brown.
Foi como secretário da Cultura, Mídia e Esporte que Burnham foi vaiado durante uma cerimônia em memória do 20º aniversário da tragédia de Hillsborough.
Nela, 97 torcedores do Liverpool morreram durante um tumulto ocorrido no estádio em 1989. As vaias motivaram Burnham a levar a questão ao gabinete, contribuindo para a abertura de um segundo inquérito sobre a tragédia.
Em 2010, após a renúncia de Brown em decorrência da derrota do Partido Trabalhista nas eleições gerais, Burnham candidatou-se para ser o líder do partido.
Ele ficou em quarto lugar entre os cinco candidatos, perdendo para Ed Miliband, mas passou os cinco anos seguintes fortalecendo seu apoio junto à base do partido.
Em 2015, tentou novamente, sendo derrotado desta vez por Jeremy Corbyn, político da ala mais à esquerda do Partido Trabalhista britânico.
Os críticos de Burnham o rotularam como uma "biruta" — alguém cujas opiniões mudam conforme os ventos políticos para lhe garantir a melhor chance de sucesso.
Ele integrou o gabinete-sombra de Corbyn (grupo formado por parlamentares de oposição que acompanham e fiscalizam os ministros do governo) como ministro-sombra do Interior, apesar de ser visto como parte da ala de centro-direita do partido, mais alinhada a Tony Blair.
As posições de Burnham têm se deslocado cada vez mais para a esquerda, passando a apoiar a estatização dos serviços de água e energia.
Ele não foi um dos que renunciaram em protesto contra a liderança de Corbyn em 2016, quando diversos integrantes do Partido Trabalhista deixaram seus cargos no gabinete-sombra.
Em vez disso, deixou o cargo em 2017 para concorrer a prefeito da Grande Manchester.
Burnham venceu a eleição com mais de 60% dos votos e foi reeleito com uma margem ainda maior em 2021.
Transformação nos transportes e impasse sobre o lockdown
Como prefeito, ele foi elogiado pela transformação do sistema de transporte da região.
Sob sua liderança, a Grande Manchester foi a primeira região da Inglaterra, fora de Londres, a retomar o controle público dos serviços de ônibus, integrando-os a outros modais de transporte sob a marca Bee Network.
Outras promessas ousadas incluíam acabar com a situação de pessoas vivendo nas ruas da região até 2020 — embora a meta não tenha sido atingida.
Sua projeção aumentou ainda mais durante a pandemia de covid-19, quando acusou o então governo conservador de tratar o norte da Inglaterra com "desprezo" em relação às restrições de lockdown.
Esse embate contribuiu para que ele ganhasse o apelido de "Rei do Norte".
Na temporada de conferências partidárias de outono de 2025, Burnham já articulava abertamente uma tentativa de assumir a liderança do partido.
Suas intervenções pareciam, no entanto, ter efeito contrário, gerando forte reação negativa após ele sugerir que o governo estava "refém" dos mercados de títulos — uma referência às regras que limitam gastos públicos e endividamento.
Em janeiro, surgiu uma possível oportunidade de retorno ao Parlamento quando Andrew Gwynne, deputado pela Grande Manchester, anunciou que deixaria o cargo, desencadeando uma eleição parcial em seu distrito eleitoral.
No entanto, Burnham foi impedido de concorrer pelo órgão dirigente do Partido Trabalhista, com a aprovação do primeiro-ministro Keir Starmer.
Em maio, a situação havia mudado. O Partido Trabalhista obteve resultados eleitorais ruins na Inglaterra, Escócia e País de Gales; o partido Reform (de direita radical) ganhava força nas pesquisas, enquanto os trabalhistas registravam sucesso justamente na base política de Burnham.
Starmer enfrentava uma pressão crescente quanto ao seu futuro, com alguns deputados pedindo mudanças e renúncias de ministros.
Josh Simons, então, anunciou que deixaria o cargo de deputado trabalhista por Makerfield para abrir caminho para que Burnham tentasse retornar ao Parlamento.
Burnham acabou sendo escolhido como candidato trabalhista pelo distrito e, no mês seguinte, garantiu seu retorno ao Parlamento Britânico.
Por que Burnham é visto como um enigma
Poucas vezes, nos últimos anos, alguém assumiu o cargo de primeiro-ministro passando por tão pouco escrutínio quanto Andy Burnham.
Como o Partido Trabalhista optou por uma "coroação" em vez de uma disputa pela liderança, houve pouco debate sobre suas políticas ou seu estilo de governo.
A vantagem foi evitar divisões públicas prejudiciais dentro do partido; a desvantagem, a falta de um "teste de fogo" para seu novo líder e primeiro-ministro.
Em breve, é claro, saberemos que tipo de primeiro-ministro ele será. Mas vale lembrar que Burnham não é tão conhecido assim — fora da Grande Manchester, onde foi prefeito nos últimos 10 anos —, de modo que todos os britânicos embarcarão juntos nessa jornada de descoberta.
O que sabemos sobre Burnham sugere que ele é, ao mesmo tempo, um outsider e um insider (respectivamente, alguém de fora e de dentro do sistema político). Como a maioria dos políticos atuais, ele prefere enfatizar a primeira faceta.
Ele é considerado um outsider por sua origem na classe trabalhadora do norte da Inglaterra. E um insider porque, após estudar na prestigiada Universidade de Cambridge, ingressou rapidamente na política.
Quanto à personalidade, Burnham faz questão de se apresentar como um cara comum, com quem as pessoas do dia a dia podem se identificar. Ele gosta de cerveja e de fish and chips (o tradicional combinado britânico de peixe empanado e batatas fritas), adora conversar sobre futebol e música e tem um visual decididamente mais moderno do que a maioria dos políticos recentes.
Sobre suas convicções políticas, Burnham afirma que elas foram moldadas na adolescência pela aversão aos governos conservadores de Margaret Thatcher, na década de 1980 — marcados por privatizações e liberalismo econômico —, aos quais ele atribui a desindustrialização e a desmoralização da região norte onde cresceu.
Ele se posiciona, sem rodeios, à esquerda. Como a maioria da esquerda europeia, Burnham vê o Estado de forma positiva e concentra sua atenção nas camadas menos favorecidas da sociedade.
Ele frequentemente critica o "neoliberalismo" das últimas quatro décadas, afirmando que ele falhou com as pessoas comuns. No entanto, o que exatamente ele quer dizer com isso é menos claro, e ele nunca pareceu ser excessivamente ideológico ou muito interessado nos detalhes técnicos das políticas públicas.
Burnham mudará radicalmente a política britânica?
A resposta curta é que simplesmente não sabemos, já que ele falou muito pouco sobre o assunto.
Quanto à política interna, existem grandes limitações. O Reino Unido é um país com baixo crescimento e dívida elevada. Os níveis de gastos públicos e de tributação já estão em patamares historicamente altos.
Portanto, por mais que a ala esquerda do Partido Trabalhista deseje uma maior intervenção estatal, isso não será fácil. O governo de Burnham também estará limitado pela promessa feita pelo partido na última eleição de não aumentar impostos, nem permitir um endividamento desenfreado.
A única grande ideia que Burnham articulou desde que foi eleito líder do Partido Trabalhista é a de uma maior descentralização — a transferência de poder e recursos de Londres para as regiões —, mas essa proposta permanece bastante vaga.
Quanto à política externa — um tema sobre o qual Burnham não falou muito ao longo de sua carreira —, espera-se mais continuidade do que mudança.
Visto que a política externa é moldada pela geografia, pela história, pelos interesses nacionais e pelos acontecimentos — e não pela política partidária ou por caprichos da liderança —, tal continuidade não chega a surpreender.
Assim como Keir Starmer, Burnham certamente buscará relações mais estreitas com a União Europeia — embora não excessivamente próximas — e promoverá a importância que os britânicos atribuem ao Estado de Direito, às normas internacionais e a organizações multilaterais, como as Nações Unidas.
Ele também buscará manter a relação do Reino Unido com os EUA — mas não necessariamente com o presidente Donald Trump em nível pessoal, embora certamente vá tentar.
Burnham deverá ser o sétimo primeiro-ministro britânico em 10 anos, uma rotatividade que dá indícios da árdua tarefa que ele tem pela frente. Mas há notícias boas e ruins para o parlamentar.
A má notícia são os grandes desafios econômicos e sociais que derrubaram seus seis antecessores.
A boa notícia é que talvez o momento de maior apelo de partidos insurgentes da esquerda e da direita populistas — respectivamente, o Partido Verde e o Reform — já tenha passado.
No fim das contas, há uma enorme incerteza em relação a Burnham. Será ele, como alguns temem, uma figura simpática, porém de pouco peso político, ou — como esperam os parlamentares trabalhistas, com variados graus de otimismo — um estadista sério em potencial?