Pelo menos 72 garimpeiros sudaneses morreram em um ataque aéreo na fronteira entre o Sudão e o Egito, segundo a organização Emergency Lawyers, que atribuiu a ação à Força Aérea egípcia. Sem confirmar as mortes, o exército do Egito alegou realizar operações contra a mineração ilegal na região sul de seu território. O governo sudanês investiga o incidente em meio ao aumento de tensões e da extração clandestina de ouro impulsionada pela guerra civil que assola o país.
Pelo menos 72 garimpeiros morreram em um ataque aéreo no norte do Sudão, próximo à fronteira com o Egito, informou a organização de defesa dos direitos humanos Emergency Lawyers, no segundo incidente desse tipo nos últimos meses.
A Emergency Lawyers atribuiu a responsabilidade pelo ataque à Força Aérea egípcia, afirmando que ele ocorreu no sábado.
Em comunicado divulgado nesta segunda-feira, as Forças Armadas egípcias afirmaram que estava em andamento a última fase de sua campanha contra a mineração ilegal de ouro no sul do Egito, após o lançamento de panfletos de advertência sobre "elementos criminosos".
As Forças Armadas não fizeram nenhuma referência ao ataque aéreo no norte do Sudão nem às mortes dos mineiros.
A campanha, lançada em junho, tinha como objetivo "impor a plena autoridade do Estado dentro do território egípcio e proteger suas capacidades e recursos nacionais", acrescentou o comunicado.
O Ministério das Relações Exteriores do Egito não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre o ataque aéreo, mas nesta segunda-feira o ministro das Relações Exteriores, Badr Abdelatty, disse no X que havia "reafirmado" com seu homólogo sudanês "nossos laços fraternos históricos e o compromisso com a coordenação e consulta contínuas".
O governo sudanês, liderado por militares, afirmou nesta segunda-feira que o incidente ocorreu em uma área de fronteira entre o Sudão e o Egito e que estava investigando o caso. "É importante tratar esse incidente com seriedade, garantindo o esclarecimento dos fatos, bem como a proteção e o respeito às fronteiras."
O governo sudanês afirmou que líderes sudaneses e egípcios entraram em contato imediatamente após o ataque, mas evitou culpar diretamente o Egito.
Dois oficiais de segurança egípcios afirmaram que o ataque tinha como objetivo pôr fim a um estado de "caos" ao longo da fronteira e aos esforços de grupos egípcios e sudaneses para assumir o controle de áreas de mineração.
Imagens compartilhadas nas redes sociais e por grupos locais de direitos humanos, mas não verificadas pela Reuters, mostravam dezenas de corpos espalhados entre os escombros e outros envoltos em mortalhas, além de mineiros relatando um ataque aéreo na área.
A organização Emergency Lawyers afirmou que tal ataque transfronteiriço viola o direito internacional.
O norte do Sudão tem visto um afluxo de garimpeiros e operações improvisadas de extração de ouro desde que a guerra civil no país abalou os meios de subsistência tradicionais. O ouro tornou-se uma fonte crítica de receita para ambos os lados do conflito, e especialistas e participantes do setor afirmam que grande parte do metal é contrabandeada para o vizinho Egito.
Ataques aéreos em junho tiveram como alvo um grupo suspeito de mineração ilegal de ouro, contrabando e tráfico de medicamentos, matando um número não especificado de pessoas, afirmaram autoridades militares egípcias na época, acrescentando que o ataque ocorreu em território egípcio.
A fronteira entre o Egito e o Sudão é porosa e é objeto de disputa em duas regiões ricas em minerais conhecidas como Halayeb e Shalateen.
A guerra entre o exército do Sudão e as Forças de Apoio Rápido, um grupo paramilitar, tem registrado um aumento na frequência de incidentes com grande número de vítimas, especialmente à medida que a guerra com drones se torna a principal forma de combate.
Na sexta-feira, cerca de 31 pessoas foram mortas em um ataque com drones a um campo de deslocados em uma área controlada pelo exército no estado do Nilo Azul, no Sudão, uma das linhas de frente da guerra, segundo as Nações Unidas.