Partido de Putin amplia maioria após eleição legislativa sem oposição

A Comissão Eleitoral Central da Rússia confirmou nesta sexta-feira (25) os resultados finais das eleições legislativas realizadas entre os dias 18 e 20 de setembro. O partido Rússia Unida, do presidente Vladimir Putin, conquistou 349 dos 450 assentos da Duma, a Câmara dos Deputados, seu melhor resultado desde a chegada do líder ao poder. Em seguida ao anúncio, a Justiça russa decretou a prisão preventiva do cientista político Alexandre Kynev, conhecido por sua proximidade com opositores da guerra na Ucrânia.

25 set 2026 - 13h49
Resumo
O partido governista Rússia Unida bateu recorde e ampliou sua maioria na Duma após eleições legislativas marcadas pela exclusão da oposição antiguerra e pela eleição de 46 veteranos do conflito na Ucrânia. O pleito, realizado também em territórios ocupados, foi criticado pela União Europeia como mera aparência democrática e alvo de denúncias de fraudes pela imprensa independente. A repressão estatal culminou na prisão preventiva do cientista político Alexandre Kynev, especialista crítico ao Kremlin.

Os resultados finais divulgados superam o recorde anterior do partido Rússia Unida, registrado em 2016, quando a legenda havia obtido 343 cadeiras.  

Outdoor com uma citação do presidente russo Vladimir Putin: "Hoje, todo o país forma uma única equipe, e nisso reside o sucesso incontestável de todas as nossas iniciativas", em Sebastopol, na Crimeia, em 18 de setembro de 2026.
Outdoor com uma citação do presidente russo Vladimir Putin: "Hoje, todo o país forma uma única equipe, e nisso reside o sucesso incontestável de todas as nossas iniciativas", em Sebastopol, na Crimeia, em 18 de setembro de 2026.
Foto: REUTERS - Alexey Pavlishak / RFI

A votação ocorreu também nos territórios ucranianos ocupados e anexados por Moscou. Segundo o Kremlin, o resultado demonstra amplo apoio à atual direção política do país. A União Europeia, por sua vez, classificou o processo eleitoral como um simples "verniz democrático". 

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A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, rejeitou as "supostas" eleições russas. "O Kremlin silenciou a dissidência, excluiu o único partido registrado que é contrário à sua guerra na Ucrânia e impediu o acesso de observadores eleitorais internacionais", denunciou. "Na Rússia, resta apenas a aparência de democracia", acrescentou. 

As eleições ocorreram sem a participação de partidos abertamente contrários à guerra na Ucrânia. O liberal Yabloko, única legenda que se opõe publicamente ao conflito, foi excluído da disputa nacional. 

Além da ampla vitória do partido governista, a eleição marcou a entrada em massa de veteranos da guerra à Duma. Ao todo, 46 deputados eleitos participaram diretamente da invasão da Ucrânia ou já combateram no conflito, representando mais de 10% do Parlamento. Destes, 41 foram eleitos pelo Rússia Unida. 

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, saudou o resultado e afirmou que a experiência desses combatentes será importante para o país. Em diversas ocasiões anteriores, Putin defendeu a ideia de que os veteranos da guerra devem formar uma nova elite política e administrativa na Rússia. 

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Acusações de fraude 

Apesar da vitória expressiva do partido governista, o processo eleitoral foi alvo de críticas. O site investigativo Novaia Gazeta Europa, que opera no exílio após ser proibido na Rússia, afirmou ter recolhido denúncias de observadores, candidatos e representantes partidários sobre possíveis irregularidades durante a votação. 

Entre os problemas relatados estariam pressões sobre eleitores, inconsistências envolvendo cédulas de papel, dificuldades no acompanhamento da apuração e restrições à atuação de observadores independentes. 

A publicação afirmou que o grau de opacidade do pleito não tem precedentes recentes e argumentou que o apoio real ao partido de Putin seria inferior ao registrado nos resultados oficiais. 

Especialista em eleições é preso 

No mesmo dia em que os resultados finais foram anunciados, a Justiça russa colocou em prisão preventiva o cientista político Alexandre Kynev, de 51 anos. Especialista em sistemas eleitorais e política regional, Kynev é conhecido por sua proximidade com setores liberais e opositores da guerra na Ucrânia. 

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Segundo as agências de notícias russas, ele foi acusado de tráfico de drogas em larga escala, crime que pode resultar em uma pena de até 20 anos de prisão. 

Kynev permaneceu na Rússia após a invasão da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, período em que o governo intensificou a repressão contra vozes críticas ao Kremlin. 

Em fevereiro deste ano, ele já havia sido classificado pelas autoridades como "agente estrangeiro", categoria frequentemente atribuída a opositores, jornalistas independentes e defensores de direitos humanos. A designação implica obrigações administrativas rigorosas e pode resultar em multas ou penas de prisão em caso de descumprimento. 

Nos dias que antecederam sua detenção, Kynev publicou diversas análises sobre os resultados eleitorais em sua página no Facebook, seguida por mais de 20 mil pessoas. Em algumas delas, destacava dificuldades enfrentadas pelo partido governista em determinadas circunscrições. Na última terça-feira (22), o cientista político afirmou estar "muito cansado" após quatro meses de trabalho contínuo monitorando o processo eleitoral. 

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Sua prisão reacende questionamentos de organizações de direitos humanos e grupos da oposição sobre o espaço cada vez mais reduzido para críticas ao governo russo. 

Com AFP

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