A Otan intensificou a troca de inteligência após recentes atos de sabotagem atribuídos à Rússia e alertas sobre o avanço de guerras híbridas. Apesar de Moscou negar envolvimento, o comandante Alexus Grynkewich garantiu que a aliança está pronta para responder a qualquer agressão. O cenário coincide com uma reestruturação interna na organização, na qual líderes europeus assumem postos estratégicos de comando devido às pressões dos Estados Unidos para que a Europa arque com mais custos defensivos.
A Otan está intensificando o compartilhamento de informações de inteligência em resposta a uma onda de sabotagens e outros incidentes aparentemente ligados à Rússia, mas deve permanecer "calma e confiante" de que é capaz de lidar com qualquer ameaça representada por Moscou, afirmou o comandante-chefe da aliança à Reuters nesta quinta-feira.
Os comentários do general da Força Aérea dos EUA Alexus Grynkewich foram feitos depois que o serviço de inteligência de defesa da Dinamarca alertou que a Rússia provavelmente intensificaria uma guerra híbrida — termo que abrange uma série de ataques abaixo do nível de um ataque militar convencional — contra o Ocidente nos próximos meses.
O serviço dinamarquês acrescentou que havia "um risco baixo, mas crescente" de que Moscou pudesse lançar um ataque militar limitado contra um ou vários países da Otan que fazem fronteira com a Rússia.
"É preocupante", disse Grynkewich, comandante supremo aliado da Otan na Europa, referindo-se a uma série de incidentes nas últimas semanas, incluindo uma tentativa de ataque com drone no Aeroporto de Leipzig/Halle, na Alemanha, e um navio russo disparando sinalizadores contra um helicóptero militar dinamarquês.
"Mas devemos manter a calma e a confiança de que, como aliança — a mais poderosa da história —, dispomos das ferramentas e dos mecanismos necessários para gerenciar esse risco", acrescentou.
Moscou tem negado repetidamente qualquer envolvimento em guerra híbrida ou operações de sabotagem em países da Otan, bem como qualquer plano para um confronto.
É MELHOR PUTIN NÃO TENTAR UM ATAQUE "ENQUANTO EU ESTIVER NO COMANDO", DIZ GENERAL
Grynkewich falava em uma entrevista por telefone à Reuters a caminho de uma cerimônia de troca de comando na sede da Otan em Norfolk, Virgínia, onde um general do Exército britânico está assumindo o lugar de um vice-almirante da Marinha dos EUA.
Questionado sobre o risco de um ataque russo limitado ao território da Otan, Grynkewich enfatizou a prontidão da aliança para qualquer contingência desse tipo, afirmando que tal desdobramento era "improvável, mas algo que não podemos descartar".
Grynkewich rejeitou sugestões de que o presidente russo, Vladimir Putin, pudesse ver uma oportunidade de atacar a Otan, considerando que os EUA esgotaram grande parte de seu estoque global de mísseis de longo alcance de alta precisão na guerra contra o Irã, segundo pessoas familiarizadas com os dados.
"De jeito nenhum. É melhor ele nem tentar isso enquanto eu estiver no comando", disse ele, acrescentando que a Otan está bem posicionada para defender cada centímetro de seu território.
"Se partirmos da fase em que nos encontramos e começarmos a ver ameaças emergentes, estou confiante de que disponho agora da autoridade necessária para tomar medidas que dissuadam qualquer agressão contra a aliança."
OTAN EM PLENA MUDANÇA À MEDIDA QUE EUROPEUS ASSUMEM MAIOR PAPEL
A transferência do comando de Norfolk para um comandante europeu faz parte de uma reorganização mais ampla, em consonância com as exigências do presidente dos EUA, Donald Trump, de que as nações europeias assumam mais responsabilidade por sua própria segurança. Isso também significará que um europeu assumirá o comando da Força Conjunta da Otan em Nápoles.
O Comando Conjunto de Forças da Otan em Norfolk é responsável pelas operações no Ártico e no norte da Europa, bem como pela proteção das rotas transatlânticas de reabastecimento.
Na tentativa de tranquilizar os aliados europeus preocupados com uma revisão em andamento das forças norte-americanas no continente, Grynkewich afirmou que Washington continuaria "a fornecer capacidades essenciais, porém mais limitadas", à Otan, à medida que os europeus assumissem um papel mais importante.
Ele afirmou que não havia "nenhum resultado predeterminado" quanto ao número de soldados norte-americanos que permaneceriam na Europa e "quais capacidades poderiam ser realocadas". Atualmente, cerca de 80 mil soldados norte-americanos estão baseados no continente.
Trump tem ameaçado repetidamente sair da Otan — que tem sido dominada pelos EUA desde sua fundação em 1949 —, acusando os europeus de serem aproveitadores em matéria de segurança.