Enquanto os ataques americano‑israelenses seguem contra o Irã e o Líbano, Teerã tenta contra-atacar, mirando sobretudo os países do Golfo Pérsico. A eventual queda do regime iraniano poderia desencadear um realinhamento geopolítico sem precedentes na região, avalia David Rigoulet-Roze, pesquisador do Instituto Francês de Análise Estratégica.
"A queda do Muro de Berlim foi o momento decisivo que deu início ao processo de dissolução do sistema soviético. Hoje, estamos em uma situação que pode ter semelhanças com a região do Oriente Médio, simplesmente porque o Irã é a peça central do Oriente Médio, sobretudo desde a queda de Saddam Hussein em 2003. Saddam Hussein viu uma fase de expansão e projeção regional por meio de seus representantes, com a justificativa da luta contra a existência do Estado de Israel", diz.
Rumo a uma recomposição das alianças na região?
No que diz respeito a Israel, alguns países do Golfo Pérsico podem seguir o caminho dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrein, que assinaram em setembro de 2020 os Acordos de Abraão - tratados de paz com Israel impulsionados por Donald Trump, que hoje busca avançar ainda mais, aponta Rigoulet-Roze.
"A assinatura desses acordos pela Arábia Saudita, líder dos países sunitas, seria o desfecho do processo iniciado pelo presidente americano durante seu primeiro mandato. Provavelmente é uma das razões que o impulsionou a intervir contra o Irã. Seria a cereja do bolo para Donald Trump e para Benjamin Netanyahu, para quem este também é um sonho", sugere o pesquisador.
Mas, para que isso avance, será necessário antes resolver a questão palestina, que, por ora, ficou em segundo plano desde o início desta nova crise no Oriente Médio.
Expansão do conflito aproxima países do Golfo
A guerra no Oriente Médio se estende por todo o Golfo. Alguns países atingidos pelo Irã podem, de fato, envolver-se diretamente no conflito. Eles não escondem essa possibilidade, e isso pode interessar a Donald Trump, avalia Rigoulet-Roze. Para ele, Teerã "calculou mal" seus ataques ao imaginar que atingir diretamente esses países - e não apenas as bases americanas instaladas nas petromonarquias - os distanciaria da agenda militar dos EUA.
"Mas ocorreu exatamente o contrário. Isso porque, além de atingir alvos militares e bases americanas, os ataques também afetaram civis e infraestruturas econômicas. Isso acabou levando esses países a aprofundarem sua cooperação militar dentro do Conselho de Cooperação do Golfo, apesar das tensões muito fortes que às vezes existem entre eles", analisa.
David Rigoulet-Roz completa: "Neste caso específico, essas tensões desaparecem, e esses países passam a agir de forma conjunta, considerando uma resposta coordenada e até mesmo um possível engajamento ao lado dos Estados Unidos, ainda que sejam, antes de tudo, os americanos que garantem sua segurança. Do ponto de vista político, isso é importante para Donald Trump: esses países mostram coordenação e apoio à operação em curso, diante do que consideram uma agressão".
Os houthis no Iêmen vão reagir?
Os grupos apoiados pelo regime iraniano na região, conhecidos como proxies de Teerã ou como "eixo da resistência", foram enfraquecidos nos últimos meses pelas ações israelenses.
Entre esses grupos estão os rebeldes houthis no Iêmen, que têm se mantido relativamente silenciosos desde o início desta nova guerra no Oriente Médio.
Segundo Rigoulet-Roze, "mesmo tendo expressado solidariedade aos seus aliados iranianos, não há, por enquanto, ações significativas porque eles estão enfraquecidos. Houve ataques repetidos contra os houthis. Primeiro pelos americanos e, mais recentemente, por Israel. Assim, todos esses grupos e representantes regionais foram bastante debilitados nos últimos dois anos", enfatiza.
No entanto, isso não significa que tenham perdido sua capacidade de causar danos: "Não está descartado que eles ajam de forma semelhante ao que ocorre no Estreito de Ormuz e provoquem algo equivalente no Estreito de Bab-el-Mandeb, afetando as rotas marítimas. Eles já fizeram isso antes, e vimos como isso tem impacto imediato no preço do barril de petróleo, além de aumentar a insegurança no tráfego marítimo com consequências potencialmente consideráveis, caso o conflito se estenda", conclui.