Um funeral foi realizado em um vilarejo do sul do Líbano para um menino de 11 anos e seu tio, que foram mortos em um ataque aéreo israelense.
Jawad Younes e Ragheb Younes, de 41 anos, foram sepultados em Saksakiyeh neste sábado (28/3), depois que o complexo residencial de sua família foi atingido um dia antes.
Eles estão entre as mais recentes vítimas na ofensiva de Israel contra o grupo armado Hezbollah, apoiado pelo Irã, depois que o grupo disparou foguetes contra Israel no início deste mês, em meio à guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Autoridades de saúde libanesas afirmam que mais de 1.100 pessoas foram mortas desde que a escalada começou, com civis cada vez mais presos no fogo cruzado.
Neste sábado, nove paramédicos foram mortos no sul do Líbano, segundo o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus.
No X, ele informou que 51 profissionais de saúde mortos no Líbano neste mês — é o segundo mês mais letal para os trabalhadores da saúde do país desde que a OMS começou a monitorá-los, em outubro de 2023.
"Os ataques repetidos à assistência de saúde estão prejudicando gravemente a prestação de serviços no sul do Líbano", diz Ghebreyesus. "Profissionais de saúde são protegidos pelo direito humanitário internacional e nunca devem ser alvo."
Militares israelenses dizem ter atingido mais de 250 alvos iranianos e do Hezbollah neste fim de semana.
Em uma atualização, as Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmam ter concluído "dezenas de ondas de ataques em larga escala" em todo o Líbano e no Irã.
No Irã, dizem ter atingido mais de 100 alvos, incluindo "locais de produção de mísseis balísticos, mísseis prontos para lançamento" e "instalações de armazenamento de mísseis".
No Líbano, afirmam que "mais de 170 alvos do Hezbollah foram atingidos".
'Gentil e puro'
O exército israelense não respondeu a um pedido de comentário sobre o alvo pretendido no ataque que atingiu o complexo da família Younes.
Centenas de pessoas se reuniram no centro da cidade de Saksakiyeh para o funeral de Jawad e Ragheb.
Mulheres vestidas com túnicas pretas lamentavam sobre os corpos, um deles coberto pela bandeira amarela do Hezbollah - um reflexo do apoio ao grupo nesta área majoritariamente xiita.
Malak Meslmani, mãe de Jawad, sentou-se ao lado do corpo do filho, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
"Meu filho é gentil e puro", disse ela à BBC.
"Ele gostava da ideia de martírio e, quando crescesse, queria estar com a resistência.
"Ele queria resistir ao inimigo Israel que o matou."
Enquanto a procissão fúnebre seguia em direção ao local do enterro, o som de ataques aéreos israelenses ecoava ao longe. Nuvens de fumaça subiam sobre colinas próximas.
O ataque à casa da família Younes ocorreu pouco depois das 13h00 (11h00 GMT) de sexta-feira. O pai de Jawad, Hussein Younes, disse que o filho estava jogando futebol com nove primos naquele momento.
Em frente às ruínas de sua casa, o pai de Jawad ergueu as mãos e gritou: "Eu não sei! Eu não sei!", quando questionado por que o exército israelense teria alvo na residência.
"Se isto fosse uma base militar, não haveria crianças aqui", disse ele à BBC.
A BBC conversou com vários membros da família e integrantes do conselho local, que afirmaram que a família não tinha qualquer envolvimento militar com o Hezbollah.
Cinco pessoas sobreviveram ao ataque e os feridos foram levados a um hospital próximo. Entre eles estava a tia de Jawad, Zeinab.
"Antes de acontecer, eu e meu marido estávamos dentro de casa", disse ela, chorando de sua cama de hospital.
"Não vimos nada e não ouvimos nada... Depois, me encontrei debaixo de um monte de escombros."
Zeinab está sendo tratada por uma fratura na coluna e outra na perna. Médicos dizem estar esperançosos de que ela volte a andar, mas provavelmente precisará de cirurgias extensas.
Ela disse que não houve qualquer aviso antes do ataque e que a família teria fugido se tivesse sido alertada.
Jornalistas libaneses são mortos em ataque
O enterro de Jawad e Ragheb ocorre apenas um dia depois de outra família no mesmo bairro ter enterrado duas crianças e a mãe delas. Elas também foram mortas em bombardeios israelenses em meio a outra onda de ataques letais no sul do Líbano.
Neste sábado, três jornalistas libaneses foram mortos em um ataque israelense direcionado contra o veículo de imprensa em que estavam, segundo seus empregadores.
Ali Shoeib, conhecido correspondente da Al Manar TV, emissora afiliada ao Hezbollah, foi morto junto com a repórter Fatima Ftouni e o cinegrafista Mohamed Ftouni, do canal Al Mayadeen, de acordo com as emissoras.
As Forças de Defesa de Israel (IDF) confirmaram ter matado Shoeib, descrevendo-o como um "terrorista" da elite Força Radwan, do Hezbollah apoiado pelo Irã, que teria "operado durante anos sob o disfarce de jornalista".
As IDF não comentaram as mortes de Fatima ou Mohamed Ftouni.
O presidente do Líbano, Joseph Aoun, chamou o ataque de um "crime audacioso" que violou todas as normas segundo as quais jornalistas deveriam ser protegidos durante a guerra.
O Comitê para a Proteção dos Jornalistas condena o ataque, dizendo que "jornalistas não são alvos legítimos, independentemente do veículo para o qual trabalhem".
A organização já acusou Israel anteriormente de matar profissionais de mídia enquanto alegava que eram militantes, sem fornecer evidências críveis.
Também no sábado, um ataque aéreo israelense matou cinco paramédicos na cidade de Zoutar. Grupos de direitos humanos afirmam que os ataques repetidos de Israel contra profissionais de saúde no Líbano podem configurar crimes de guerra.
Desde 2 de março, ataques aéreos israelenses têm atingido cidades e vilarejos em todo o Líbano, enquanto forças terrestres continuam avançando no sul como parte de uma ofensiva contínua. Israel afirma que suas operações têm como alvo o Hezbollah, mas civis frequentemente estão entre os mortos.
Na sexta-feira, a agência de refugiados da ONU alertou que o Líbano enfrenta uma crise humanitária crescente que pode se tornar catastrófica, com mais de um milhão de pessoas agora deslocadas.
O Líbano permanece preso em um ciclo de violência, com Israel e Hezbollah prometendo continuar o combate apesar do crescente custo humano.
Muitos, como os sobreviventes da família Younes, dizem estar dispostos a pagar o preço. "Não temos medo da guerra, porque não temos medo da morte", disse Ali, filho de Zainab.