Clea Broadhurst, da RFI em Paris
Embora profundamente enraizada na tradição, a festa se transformou em uma vitrine de novas tecnologias. Mensagens em vídeo, figurinhas animadas e cartões digitais substituem cada vez mais as visitas presenciais, sobretudo entre os jovens e famílias dispersas pelo país e pelo mundo.
Em várias cidades, fogos e rojões tradicionais dão lugar aos "e-crackers", versões eletrônicas que reproduzem luzes e sons sem fumaça. Em feiras de Pequim e outras metrópoles, robôs humanoides dançam, jogam futebol e até sobem ao palco, enquanto gigantes da tecnologia disputam espaço com campanhas baseadas em inteligência artificial, jogos interativos e experiências imersivas.
Os hongbao, os tradicionais envelopes vermelhos da sorte, são o símbolo mais visível da fusão entre tradição e era digital. Agora, eles circulam massivamente por aplicativos de pagamento, enviados em segundos entre cidades, províncias ou continentes. Por trás desse gesto simples, há uma intensa disputa industrial. Plataformas investem bilhões para conquistar usuários com hongbao turbinados por algoritmos, cupons de consumo e brindes conectados.
O gesto ancestral de desejar sorte se transforma, assim, em um campo estratégico para gigantes da tecnologia. Em 2026, as famílias se reencontram após meses de distância e os mais velhos distribuem os tradicionais envelopes vermelhos, virtuais ou não. À meia-noite, rojões, ou sua versão eletrônica, afastam os maus espíritos.
Tradição que atravessa milênios
Este ano marca o início do ano do Cavalo de Fogo. No zodíaco chinês, um ciclo de 12 animais se combina com cinco elementos - madeira, fogo, terra, metal e água - para formar um sistema complexo. O cavalo está associado à energia, ao movimento e à independência. O elemento fogo reforça essas características: dinamismo, paixão e, por vezes, imprevisibilidade.
Também chamada de "Festa da Primavera", a celebração marca o início do calendário tradicional chinês, cujas origens remontam a mais de 2.000 anos, quando a agricultura definia o ritmo do país. Hoje, apesar da urbanização intensa, o Ano-Novo continua sendo o principal momento de reunião familiar.
O ponto alto é o jantar da véspera, em 16 de fevereiro. Cada prato tem um simbolismo: peixe para abundância, raviólis em forma de barras de ouro, bolos de arroz que supostamente promovem a ascensão social.
No imaginário popular, o cavalo de fogo anuncia um período intenso, voltado para a ação. Um símbolo que ressoa na China de hoje, envolvida numa fase de profunda transformação, entre o abrandamento do crescimento e a aceleração da inovação.
Quinze dias de celebrações e um impacto econômico gigante
A comemoração se estende até 3 de março, na tradicional Festa das Lanternas. No 15º dia, lanternas vermelhas e coloridas iluminam as ruas para marcar o fim das celebrações.
Antes do Ano-Novo, famílias fazem a faxina que simbolicamente expulsa a má sorte, e as casas ganham decorações vermelhas, cor que, segundo a lenda, afasta o monstro Nian. Os primeiros dias são dedicados às visitas familiares e a rituais de cuidado. Evita-se, por exemplo, cortar o cabelo no primeiro dia do ano, já que "cabelo" compartilha o mesmo caractere inicial que "prosperidade".
Mas o período também é um motor econômico poderoso: viagens, presentes, alimentos e plataformas digitais movimentam o consumo e atingem níveis recordes. Empresas competem com promoções especiais, enquanto o governo enfrenta um grande teste logístico para gerir transportes, segurança e estabilidade social.
Em 2026, sob o signo do Cavalo de Fogo, a festa mostra uma China em transformação, ligada às suas tradições, mas determinada a projetar uma imagem de modernidade e poder. Cada foguete, cada lanterna, cada espetáculo de drones conta essa mistura singular de herança e aceleração.