Escondidos atrás de escadarias, nas colinas ou em galpões abandonados, eles aguardam a passagem da polícia ou do Exército. Em Ceuta, após a chegada em massa de dezenas de milhares de migrantes na última quinta-feira (30) - a maioria dos quais já retornou ao território marroquino -, uma crise humanitária se agrava, com jovens passando fome e moradores divididos entre a solidariedade e o medo.
"A vida aqui segue dia após dia. As coisas vão bem com as pessoas, mas não com a polícia", declarou Muhad, um jovem de 20 anos que deixou Marrocos e fez a travessia a nado com seu amigo Achim, à emissora TVE.
Mohamed, de 19 anos, também estava com eles, mas não conseguiu; morreu a poucos metros da costa. "Eu gritava: 'Vamos, Mohamed', mas não pude ajudá-lo", relata o jovem.
A família da vítima ainda não sabe que o filho morreu, enquanto a família de Muhad desconhece que ele conseguiu chegar a Ceuta.
Há dias, parentes e amigos de ambos os lados da fronteira buscam desesperadamente notícias sobre as muitas pessoas desaparecidas.
Segundo a Associação Marroquina de Direitos Humanos (Amdh), o número de mortos ultrapassa 130, com dezenas de outros desaparecidos, embora as autoridades ainda não tenham divulgado números oficiais.
O centro de acolhimento de Ceuta permanece inacessível, superlotado e sob forte segurança. Consequentemente, a maioria das centenas de migrantes que ainda se recusam a deixar o enclave é forçada a viver escondida.
"Só estou tentando construir uma vida para mim. Minha mãe está no Marrocos e tenho um irmãozinho doente que precisa de insulina", diz Muhad, que espera se reunir com parentes na Holanda ou na Itália.
"Não vim aqui para roubar; quero trabalhar. Falo espanhol e italiano e tenho formação como eletricista. Agora, só me resta torcer por um golpe de sorte para não ser mandado de volta para casa", afirma.
Entre aqueles que permanecem no enclave, não estão apenas marroquinos, mas também sudaneses que fogem da guerra e muitos africanos subsaarianos em busca de asilo e tentando evitar a deportação.
Os sentimentos na comunidade de Ceuta são contraditórios: "Estamos acostumados a ajudar como podemos", explica Mohamed Ali, que distribui água aos jovens escondidos. "Eles chegam de roupa de banho, sem nada; muitos não comem há dias. Como negar a alguém uma garrafa de água ou um telefonema?", diz ele à Ceuta TV.
Outros, no entanto, admitem viver em um estado de incerteza. "Sentimo-nos inseguros; nunca vimos uma chegada em massa como essa e não sabemos o que esperar", diz Maria José, que reabriu sua padaria após três dias fechada.
Por trás das histórias dos jovens escondidos nas ruas de Ceuta, há uma realidade mais ampla: a de uma fronteira que, há muito tempo, é um foco de tensão política.
Helena Maleno, porta-voz da ONG Caminando Fronteras, convida as pessoas a olharem além das chegadas dos migrantes.
"A narrativa sobre redes criminosas de tráfico de pessoas já não basta para mascarar as consequências de políticas que transformaram a mobilidade humana em uma ferramenta de pressão política entre nações", explica ela.
Ela também ressalta que muitos dos jovens marroquinos que chegaram à fronteira de Tarajal "já haviam manifestado demandas por justiça social durante protestos no Marrocos ? as mesmas aspirações que agora depositam na emigração".
Maleno também chama a atenção para os muitos menores deixados sem proteção: "É inaceitável que crianças e adolescentes durmam na rua".