A premiê da Itália, Giorgia Meloni, foi ao podcast do popular rapper Fedez para defender o voto no "Sim" no referendo sobre a reforma judicial proposta por seu governo e garantiu que não renunciará ao cargo caso os eleitores rejeitem a medida.
A consulta popular está marcada para 22 e 23 de março, e as últimas pesquisas, divulgadas antes da proibição legal em vigor nos 15 dias anteriores à votação, apontam empate técnico.
"Não vou renunciar porque é minha intenção terminar o mandato, levar adiante o trabalho e me apresentar perante os italianos, para então ser julgada pelo trabalho que realizei como um todo", declarou Meloni no podcast "Pulp", conduzido por Fedez, rapper sempre ativo no debate político, e pelo streamer Davide Marra, mais conhecido como Mr. Marra.
"Se você votar 'não' apenas para mandar Meloni para casa, você terá de lidar tanto com Meloni quanto com uma Justiça que não funciona. Não me parece um grande negócio", acrescentou a premiê, já antevendo uma possível pressão da oposição para ela renunciar ao cargo em caso de derrota.
"A frente do 'não' trabalha para tornar o referendo contra o governo e tem dificuldade para discutir o mérito da proposta. Para mim, dizer que vai votar para mandar Meloni para casa é uma armadilha", salientou a primeira-ministra.
A participação no "Pulp" não é uma escolha aleatória: em um referendo sem exigência de quórum mínimo para ser validado, Meloni vem tentando falar com o eleitorado mais jovem para angariar apoio ao "Sim", reflexo de uma era onde as novas gerações se informam cada vez menos pelos veículos tradicionais.
"Meloni fez muito bem em ir até Fedez. Ele me convidou, e também quero ir no futuro", declarou o vice-premiê e ministro da Infraestrutura, Matteo Salvini.
A proposta
A reforma em jogo no referendo introduz uma mudança no poder Judiciário discutida há décadas na Itália: a separação de carreiras para juízes e representantes do Ministério Público, estabelecendo percursos diferentes para cada um dentro da magistratura.
Essa medida era uma bandeira do finado ex-premiê Silvio Berlusconi, que chegou a ser condenado em definitivo por fraude fiscal e foi alvo de inúmeras investigações da Justiça, a quem acusava de persegui-lo.
Atualmente, o concurso público para juízes, promotores e procuradores é unificado, e é possível migrar de uma carreira para outra, a partir de determinados critérios.
O projeto também desmembra o Conselho Superior da Magistratura (CSM), órgão de autogoverno do poder Judiciário, criando um para promotores e procuradores e outro para juízes, ambos encabeçados pelo presidente da República, além de instituir uma corte disciplinar para punir eventuais ilegalidades de magistrados.
Para a oposição, no entanto, a reforma é uma tentativa do governo de aumentar o controle sobre o Judiciário. "Não a uma reforma que enfraquece a independência da magistratura, porque somente um juiz independente pode garantir que a lei seja igual para todos", disse a secretária do Partido Democrático (PD), Elly Schlein.
"O texto da reforma contém um mecanismo astuto e muito inteligente para dar o primeiro passo fundamental rumo ao desmantelamento do Judiciário", afirmou o ex-premiê e líder do Movimento 5 Estrelas (M5S), Giuseppe Conte.