Com Paul Khalifeh da RFI e agências
Segundo o Exército libanês, as duas vítimas foram atingidas enquanto retornavam de motocicleta para casa, após o soldado deixar o posto avançado onde estava baseado, na região de Bint Jbeil, no sul do país. No mesmo dia, a Agência Nacional de Notícias (NNA) relatou uma nova série de bombardeios israelenses contra várias cidades da região.
Na terça-feira (28), ataques aéreos israelenses já haviam matado pelo menos 11 pessoas, incluindo três socorristas da Defesa Civil. Dois soldados libaneses ficaram feridos durante uma operação de resgate. O primeiro-ministro Nawaf Salam classificou o ataque contra os socorristas como um "crime de guerra".
O presidente libanês, Josef Aoun, afirmou em comunicado que mantém contatos diplomáticos com o objetivo de consolidar o cessar-fogo e pôr fim às demolições de casas em aldeias do sul ocupadas por forças israelenses. Paralelamente aos bombardeios, o Exército israelense continua promovendo a destruição de residências em localidades fronteiriças incluídas em uma zona de segurança de dez quilômetros de profundidade, delimitada por uma "linha amarela" estabelecida unilateralmente por Israel.
Israel e Líbano realizaram duas rodadas de negociações indiretas em Washington, por meio de embaixadores, numa tentativa de pôr fim à guerra iniciada em 2 de março, quando o Hezbollah, movimento xiita pró-Irã, lançou ataques contra o território israelense. Israel respondeu com bombardeios de grande intensidade. Um cessar-fogo entrou em vigor em 17 de abril e foi prorrogado por três semanas.
De acordo com os termos do acordo, Israel se reserva o direito de adotar "todas as medidas necessárias" em legítima defesa contra o Hezbollah. O grupo, por sua vez, continua reivindicando ataques contra posições israelenses e rejeita qualquer negociação direta com Tel Aviv. "Vamos frustrar a tentativa do inimigo de estabelecer uma zona de segurança em nosso território", declarou nesta quarta-feira Hassan Fadlallah, deputado do Hezbollah.
Desde o início do cessar-fogo, ataques israelenses já mataram pelo menos 53 pessoas no Líbano, segundo dados do Ministério da Saúde e do Exército libanês compilados pela AFP.
Além do custo humano, a guerra provocou um deslocamento massivo da população. Em apenas dois meses de conflito, cerca de um em cada cinco libaneses foi forçado a sair de casa, aproximadamente 1,2 milhão de pessoas. O país, já profundamente fragilizado pela guerra anterior de 2024 e pela grave crise econômica iniciada em 2019, enfrenta enormes dificuldades para atender às necessidades básicas dos deslocados.
Emergência humanitária
Na ausência de apoio internacional substancial, o governo libanês afirma ter "batido em todas as portas" para tentar arrecadar cerca de um bilhão de dólares necessários para responder à emergência humanitária. As respostas de instituições financeiras internacionais e de países aliados, no entanto, permanecem limitadas. Até o momento, os recursos liberados ficam muito abaixo dos 720 milhões de dólares obtidos durante a guerra de 2024, enquanto as necessidades atuais são muito mais elevadas.
Um primeiro empréstimo de 200 milhões de dólares foi assinado com o Banco Mundial, com foco nas populações mais vulneráveis, mas as autoridades reconhecem que o valor é insuficiente. A guerra atual agrava uma crise estrutural já instalada há mais de seis anos.
Para lidar com a urgência, o governo estuda redirecionar empréstimos inicialmente destinados a projetos de infraestrutura. Diante da escassez de liquidez, também decidiu adiar a aplicação de aumentos salariais do funcionalismo público, aprovados em fevereiro, que teriam um custo anual estimado em 800 milhões de dólares. A medida é considerada inevitável, mas pode intensificar as tensões sociais.
Combinada às divisões políticas internas e aos efeitos imediatos do conflito armado, essa situação representa um risco crescente para a estabilidade do país, enquanto a reconstrução das áreas destruídas permanece incerta.