Israel realiza eleições cruciais e imprevisíveis para definir o futuro de sua democracia após anos de conflitos e divisões internas. A disputa central opõe o premiê Benjamin Netanyahu, que aposta na pauta da segurança, e o centrista Gadi Eisenkot, impulsionado pelo desgaste do governo. Com pesquisas apontando um provável impasse para formar a maioria de 61 cadeiras no Parlamento, o presidente Isaac Herzog terá papel decisivo na articulação de um governo para evitar novos pleitos sucessivos.
Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel
Ao todo, 34 partidos disputam as eleições, após a retirada de duas legendas. A disputa é liderada pelo Likud, partido da direita nacionalista comandado por Netanyahu, e pelo partido centrista Yashar, do ex-chefe do Exército israelense Gadi Eisenkot. Também figuram entre as principais forças o bloco centrista de Naftali Bennett e Yair Lapid, além de partidos como Os Democratas, de Yair Golan, e Israel Beiteinu, de Avigdor Lieberman.
Netanyahu, o primeiro-ministro mais longevo da história de Israel, busca um novo mandato apostando no discurso de segurança pós-trauma do 7 de Outubro, enquanto a oposição tenta capitalizar o desgaste do governo após três anos de guerra em Gaza. No cenário atual, seguem em andamento a guerra na Faixa de Gaza, duas guerras contra o Irã, uma guerra contra o Hezbollah e a ocupação do sul do Líbano.
Os últimos quatro anos de mandato de Netanyahu foram intensos. As divisões internas em Israel começaram antes mesmo dos ataques do Hamas em 7 de Outubro. A grande discussão anterior às ações do Hamas girava em torno do projeto de Reforma do Judiciário, que foi apresentado pela atual coalizão de governo ao assumir o poder, em 29 de dezembro de 2022.
Apenas seis dias depois da posse, o ministro da Justiça, Yariv Levin, anunciou o projeto da reforma, cujo objetivo central era alterar profundamente o equilíbrio de poderes em Israel, enfraquecendo o Judiciário e fortalecendo o Executivo e o Legislativo.
As grandes manifestações de oposição ao projeto foram interrompidas pelos ataques do Hamas, que mudaram a história de Israel, dos palestinos e o curso dos acontecimentos em todo o Oriente Médio.
Entendimento sobre importância histórica das eleições atuais
Há um senso de marco histórico na imprensa israelense, mas também nas conversas do cotidiano e entre especialistas. Gal Ariely, cientista político da Universidade Ben Gurion, foca sua pesquisa no estudo da democracia em Israel. "A sociedade israelense precisa tomar uma decisão nessas eleições: manter Israel como um Estado judaico, democrático e liberal. Ou torná-lo um Estado autoritário", disse em entrevista à RFI.
Mas Ariely considera que é preciso aguardar, até porque as eleições atuais podem resultar em um impasse político, talvez levando Israel a voltar às urnas novamente. Segundo ele explica, existe uma divisão histórica no país entre esquerda e direita. Mas Benjamin Netanyahu, considerado personagem central do sistema político nos últimos anos - em especial desde 2019 -, transformou o questionamento de ser a favor ou contra Bibi (apelido de Netanyahu) no tema principal da política israelense.
Ariely faz menção ao ano de 2019 porque este foi um marco que iniciou impasses sucessivos em que nenhum dos blocos, nem o governo, nem a oposição, conseguiu formar uma coalizão de pelo menos 61 parlamentares, a maioria mínima das 120 cadeiras do Knesset, o parlamento israelense, levando Israel a uma sequência de cinco eleições.
Ksenia Svetlova é analista política e foi parlamentar israelense entre 2015 e 2019 pelo então bloco de centro-esquerda União Sionista. "Depois de quatro anos de governo extremista, os israelenses não vão escolher apenas partidos ou o futuro primeiro-ministro, mas que tipo de país querem. As eleições vão decidir se Israel será ou não um Estado democrático", afirmou à RFI.
O cenário atual
As pesquisas apontam que nenhum dos blocos políticos consegue obter o mínimo de 61 parlamentares para a formação de uma coalizão de governo. Uma das figuras-chave no processo eleitoral é o presidente de Israel, Isaac Herzog. Se, durante os mandatos governamentais, o presidente atua como uma espécie de embaixador de Israel pelo mundo, após as eleições ele tem função primordial. Cabe ao presidente israelense se reunir com os partidos políticos depois da publicação dos resultados finais e então escolher qual legenda deverá ter o direito de tentar a formação de uma coalizão.
Normalmente, o presidente dá o direito ao líder do partido mais votado de tentar essa formação. Mas ele leva em consideração o cenário mais amplo e busca entender as possibilidades para o estabelecimento de um governo.
Segundo a imprensa israelense, o presidente Isaac Herzog estaria articulando nos bastidores uma tentativa de formar um governo de união nacional entre Gadi Eisenkot, líder do partido de centro-direita Yashar e que lidera a maior parte das pesquisas eleitorais, e o atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, líder do Likud, de direita. De acordo com informações de bastidores, Herzog estaria justificando este esforço por entender que, diante dos traumas pós-7 de Outubro, a sociedade israelense sofreria ainda mais impactos num cenário de sucessivos impasses e necessidade de eleições em sequência.
O gabinete de Isaac Herzog negou a veracidade desses relatos, afirmando que o presidente não discutiu qualquer futura articulação com representantes políticos, mas confirmou que "Herzog havia falado sobre a importância de estabelecer um governo estável, sem manifestar preferência por nenhuma coalizão específica".