O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou nesta quarta-feira que as tropas israelenses não vão se retirar do sul do Líbano, colocando um obstáculo às negociações de paz entre o Irã e os EUA, enquanto o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, percorre o Oriente Médio em busca de apoio ao acordo.
Os Estados Unidos e o Irã assinaram um acordo inicial na semana passada para encerrar a guerra, que abalou o Oriente Médio e pressionou as economias globais em função do fechamento do Estreito de Ormuz, ponto de trânsito de um quinto dos suprimentos globais de petróleo e gás natural liquefeito.
Versões conflitantes sobre elementos do acordo surgiram, o que gerou críticas ao presidente dos EUA, Donald Trump, tanto em seu país quanto no Oriente Médio. Os incentivos financeiros para o Irã, o controle do Estreito de Ormuz e a guerra paralela de Israel no Líbano têm sido alvo de controvérsias.
Autoridades israelenses, incluindo Katz e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, afirmaram repetidamente que não vão retirar as tropas do sul do Líbano -- onde, segundo eles, foi criada uma zona de segurança para proteger os moradores do norte de Israel.
"As Forças de Defesa de Israel estão preparadas... e não vamos recuar. Anunciamos que, de forma alguma, vamos nos retirar e, neste momento -- e isso é uma conquista política --, não há exigência norte-americana para que Israel se retire do Líbano", disse Katz em entrevista em uma conferência em Tel Aviv.
Ele fez os comentários enquanto Líbano e Israel discutem, em negociações em Washington apoiadas pelos EUA, uma proposta para que as forças israelenses se retirem de parte do território invadido durante a guerra, entregando o controle ao Exército libanês.
Israel vem combatendo o Hezbollah no Líbano desde o início de março, depois que o grupo militante atacou o território israelense em apoio ao Irã. Já Teerã fez da cessação das hostilidades no Líbano um princípio central de suas exigências em qualquer acordo de paz com os EUA.
"Para nós, um cessar-fogo no Líbano é tão importante quanto um cessar-fogo no Irã e, além disso, o fim da guerra no Líbano é tão importante quanto o fim da guerra no Irã", afirmou nesta quarta-feira o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, em Baku, durante reunião da União Parlamentar dos Estados-membros da Organização da Cooperação Islâmica.
RUBIO BUSCA CONVENCER ALIADOS
A proposta de acordo de paz foi recebida com ceticismo no Oriente Médio, onde muitos países foram alvo de ataques do Irã durante a guerra. Eles consideram o acordo excessivamente generoso para Teerã, incluindo um fundo de US$300 bilhões e a suspensão de algumas sanções.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em uma viagem pela região para tentar reduzir as preocupações, participou nesta quarta-feira de um almoço de trabalho com o presidente dos Emirados Árabes Unidos, xeque Mohammed bin Zayed Al Nahyan, e com outras figuras importantes.
Ele também está visitando o Kuweit e o Barein. Ambos os países abrigam bases militares estratégicas dos EUA e foram atingidos por uma enxurrada de mísseis iranianos, resultando em mortes de civis e um pesado prejuízo econômico.
Trump afirmou na terça-feira que os fundos iranianos descongelados seriam usados para comprar suprimentos médicos e alimentos dos EUA, apoiando os agricultores norte-americanos. O Irã contestou a afirmação.
Também surgiram relatos contraditórios sobre as disposições acordadas relativas ao programa nuclear do Irã. Trump afirmou que impedir Teerã de construir uma arma nuclear foi a principal razão para iniciar a guerra em 28 de fevereiro. O Irã afirmou que não tem planos de fazer isso.
Nesta quarta-feira, o Irã voltou a demonstrar oposição, depois que Trump afirmou que o país havia concordado com inspeções nucleares "para sempre" como parte do acordo inicial.
O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, reiterou na rede social X que não houve nenhuma reunião na Suíça com o chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, e disse que, no momento, não há planos de conceder acesso às instalações nucleares que foram atacadas nem aos materiais nucleares.
Gharibabadi afirmou que tais questões só seriam consideradas no âmbito de um acordo final e após a outra parte tomar medidas concretas para suspender todas as sanções.
GESTÃO FUTURA DO ESTREITO
O tráfego marítimo já retornou ao Estreito de Ormuz, levando a uma queda nos preços do petróleo, embora a operação e a gestão a longo prazo da hidrovia continuem em discussão entre o Irã, Omã e outros países do Golfo.
O primeiro-ministro do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman al-Thani, visitou Mascate nesta quarta-feira para conversas com Omã sobre o início de negociações relativas à hidrovia, informou à Reuters um diplomata a par do assunto.
Espera-se que os países do Golfo pressionem pela isenção de taxas de trânsito, mas o Irã poderia propor taxas ambientais, de navegação e de segurança, disse o diplomata.
Trump, que está sob pressão de alguns políticos linha-dura do Partido Republicano -- que também consideram o acordo brando em relação aos iranianos --, disse nesta quarta-feira que o Irã havia informado aos EUA que não haveria pedágios.
"O Irã informou aos EUA que, apesar das notícias falsas e provocadoras que afirmam o contrário, não há 'NENHUMA TAXA DE TRÂNSITO, NENHUM CUSTO DE SEGURO E NENHUMA OUTRA COBRANÇA DE QUALQUER TIPO SOLICITADA OU RECEBIDA PELO IRÃ SOBRE NAVIOS QUE TRAVESSAM O ESTREITO DE ORMUZ'", escreveu Trump em uma postagem nas redes sociais.
O Senado, controlado pelos republicanos, desafiou o presidente na terça-feira e votou pela suspensão da guerra, em uma medida amplamente simbólica que destacou as fissuras no partido.