Siavosh Ghazi, correspondente da RFI em Teerã
Caso o Irã "decida atacar um país inocente como o Catar", então "os Estados Unidos, com ou sem a ajuda ou o consentimento de Israel, destruirão todo o campo de gás de South Pars com uma força e um poder que o Irã jamais viu ou conheceu antes", escreveu Trump em sua rede Truth Social.
O presidente americano confirmou que Israel atingiu, na quarta-feira (18), a parte iraniana do campo de gás offshore no Golfo Pérsico, compartilhado com o Catar. Os EUA "não sabiam de nada" sobre esse ataque, garantiu Trump.
Em represália, os iranianos atacaram o complexo de gás qatari de Ras Laffan, o maior local de produção de GNL do mundo. A estatal QatarEnergy relatou "danos consideráveis" no local ao amanhecer, mas não houve vítimas. Os incêndios provocados pela ofensiva foram controlados no início da manhã, segundo o Ministério do Interior.
O Catar é o segundo maior exportador mundial de GNL, atrás dos EUA, e Ras Laffan é seu principal centro de produção. Nos Emirados Árabes Unidos, Abu Dhabi fechou um complexo de gás após a queda de destroços de mísseis interceptados. O Ministério das Relações Exteriores do Catar lamentou que os ataques na região "tenham ultrapassado todos os limites ao visar civis e instalações civis e vitais". O ataque voltou a elevar o preço do petróleo, e o barril de Brent ultrapassou US$ 112.
A ameaça de Trump envolvendo o campo de gás de South Pars e os ataques iranianos contra instalações de produção de hidrocarbonetos podem indicar uma nova fase da guerra que começou no dia 28 de fevereiro, com consequências econômicas imprevisíveis para o Irã e outros países.
O campo é o maior do mundo, e cerca de 80% do gás iraniano é produzido no local. O complexo também produz 4 milhões de litros de gás natural liquefeito, 3 milhões de litros de combustível para aviões e outras substâncias.
O gás é usado por toda a população iraniana para calefação ou cozinha, o que torna o fornecimento essencial para o país. Além de South Pars, as refinarias iranianas de Bandar Abbas produzem diariamente 43 milhões de litros de gasolina — cerca de 40% do consumo nacional.
Ainda nesta quinta, uma refinaria saudita em um porto estratégico do mar Vermelho e outras duas no Kuwait foram atingidas por drones. "Um drone caiu sobre a refinaria saudita de Samref, localizada na zona industrial de Yanbu, às margens do mar Vermelho", informou o Ministério da Defesa saudita. "A avaliação dos danos está em curso", acrescentou.
O ministério havia afirmado anteriormente, no X, ter interceptado um míssil balístico que visava o porto de Yanbu, que abriga a zona industrial e é uma importante rota de saída do petróleo saudita desde a quase paralisação do Estreito de Ormuz.
A refinaria de Samref, pertencente ao gigante petrolífero saudita Aramco e à Mobil Yanbu Refining Company Inc., subsidiária da ExxonMobil, tem capacidade de processamento de mais de 400 mil barris de petróleo bruto por dia.
Ataques contra refinaria no Kuwait
No Kuwait, as duas refinarias da companhia petrolífera nacional — Mina Abdullah e Mina Al-Ahmadi — também foram atingidas nesta quinta-feira de manhã, cada uma por um drone, provocando incêndios nos dois locais.
A Kuwait National Petroleum Company (KNPC) informou depois que os incêndios haviam sido controlados, sem deixar vítimas. As duas refinarias têm capacidade combinada de 800 mil barris por dia. A Arábia Saudita declarou que "se reserva o direito" de dar uma "resposta militar" ao Irã, que atinge regularmente o país com drones e mísseis.
Segundo o Irã, caso haja represálias e suas instalações sejam atacadas, todas as infraestruturas energéticas do Golfo se tornarão alvos do país. O Irã também deixou claro que pretende manter o controle do Estreito de Ormuz, mesmo após o fim do conflito, e impedir a passagem de petróleo. Ao mesmo tempo em que atacava o Catar, a Guarda Revolucionária impediu que um superpetroleiro de 160 mil toneladas, o Barbados, atravessasse a passagem.
O bloqueio parcial iraniano do Estreito de Ormuz, por onde circulam cerca de 20% do petróleo e do gás mundial, continua no foco das preocupações. Ao sul da passagem, no Golfo de Omã, um navio foi novamente atingido nesta quinta por um "projétil desconhecido", segundo a agência marítima britânica UKMTO, provocando um incêndio a bordo. Outro navio foi atingido ao largo de Ras Laffan.
Reunião de emergência
A Organização Marítima Internacional (OMI) está reunida em caráter de emergência e deve pedir nesta quinta o estabelecimento de um corredor marítimo seguro para evacuar navios bloqueados no Golfo Pérsico. O órgão da ONU responsável pela segurança marítima estima que 20 mil marinheiros estão atualmente a bordo de 3.200 embarcações perto do Estreito de Ormuz.
O aumento dos preços da energia também deve dominar a reunião desta quinta do Banco Central Europeu (BCE), que teme impactos na inflação e no crescimento. O presidente francês, Emmanuel Macron, pediu nesta quinta uma moratória sobre "as infraestruturas civis", especialmente energéticas, após conversar com Trump e o emir do Catar, xeque Tamim ben Hamad al-Thani.
"As populações civis e suas necessidades essenciais, assim como a segurança do abastecimento energético, devem ser preservadas da escalada militar", afirmou. Em quase três semanas, a guerra no Oriente Médio já deixou mais de 2.200 mortos, segundo autoridades, principalmente no Irã e no Líbano — segundo principal front do conflito —, onde o movimento xiita pró-Irã Hezbollah enfrenta Israel.
Com agências