Dentro do Irã, manifestações que começaram nas ruas de Teerã se espalharam para diversas cidades e repercutiram também entre comunidades iranianas no exterior, apesar da repressão brutal e de apagões de comunicação que dificultam a divulgação de informações. Houve atos na Itália — em frente à Embaixada dos Estados Unidos em Roma e ao consulado americano em Milão — além de registros recentes de protestos na Alemanha, no Reino Unido, na Suíça e no Canadá. No fim de semana, houve movimentos de apoio à população iraniana também na França.
O britânico The Guardian publicou imagens de manifestantes queimando fotos do aiatolá Ali Khamenei durante um ato em apoio à resistência iraniana em Whitehall, no centro de Londres. No mesmo protesto, ativistas exibiram a bandeira iraniana pré-1979 — com o leão e o sol — e o estandarte imperial.
Em uma galeria fotográfica, o portal britânico também destacou a mobilização diante da embaixada iraniana em Berlim e registrou, em Toronto, um manifestante usando um boné com a frase "Make Iran Great Again", em referência ao slogan de Trump, em solidariedade aos manifestantes no Irã.
Iranianos e apoiadores da resistência iraniana se manifestaram no consulado dos EUA em Milão e em frente à Embaixada dos Estados Unidos em Roma na quarta-feira. O jornal italiano La Stampa falou com a ativista Parisa Nazari, membro da diáspora iraniana em Roma, sobre os protestos em curso em seu país de origem e a repressão do regime. "Jamais vimos uma violência como a destes dias. Lembra novembro de 2019, quando mais de 1.500 manifestantes foram mortos", comentou ao jornal. "Quem saiu às ruas espera que desta vez o mundo não tolere mais a República Islâmica, que se tornou um câncer que precisa ser removido. A esperança é que o povo iraniano consiga vencer por conta própria", continuou.
Imprensa francesa repercute
A escalada de violência também domina a cobertura na França. O ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, afirmou à rádio RTL que a repressão atual pode ser "a mais violenta da história contemporânea do Irã", pedindo que ela cesse "imediatamente".
O jornal Le Figaro descreveu o episódio como "o maior massacre da história contemporânea do Irã", citando informações da rede iraniana de oposição Iran International. Segundo a emissora, a ordem para o uso de munição real teria sido aprovada pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional com o aval do líder supremo Ali Khamenei.
O jornal também publica depoimentos recebidos via rede de satélites Starlink, a única e rara conexão ainda utilizada no país, para descrever o massacre que ocorre a portas fechadas, após o corte das comunicações pelo regime há sete dias. "O regime mata sem piedade. A comunidade internacional não pode fechar os olhos", diz uma moradora de Teerã à reportagem do Figaro. Outra testemunha denuncia que as autoridades iranianas exigiram um valor equivalente a mais de R$ 60 mil para recuperar o corpo de um parente. Segundo esses testemunhos, a guarda iraniana atira para o alto para impedir as pessoas de saírem de casa para protestar.
Diversas reportagens na imprensa francesa calculam que o número de vítimas seja ainda maior do que os 2.571 mortos, incluindo 2.403 manifestantes e 147 pessoas ligadas ao governo, informados nesta quarta-feira (14) pela organização de direitos humanos HRANA, sediada nos Estados Unidos. O jornal Libération destaca reações de diversos países europeus, entre eles a França e o Reino Unido, que consideram os ataques sobre a população pacífica como "intoleráveis, insuportáveis e desumanos".
O jornal Le Monde comenta a enorme demonstração de força organizada pela República Islâmica, na segunda-feira (12), quando aliados do regime saíram às ruas na tentativa de abafar a contestação e "impedir os planos do inimigo estrangeiro", segundo as palavras do líder supremo iraniano.
Na reportagem do La Croix, moradores falam sobre a repressão violenta: "Eles atiram diretamente sobre os manifestantes", declarou um iraniano em vídeo divulgado pela BBC em persa, citado pelo jornal. Segundo o canal baseado em Londres, as ligações telefônicas internacionais foram restabelecidas na terça-feira (13), mas "para os 92 milhões de iranianos, nada parece deter a repressão feroz das forças do regime".