Há 25 anos, João Paulo II marcava história com 1ª visita de um papa a uma mesquita

Wojtyla fez um apelo inter-religioso em Damasco, em 6 de maio de 2001

5 mai 2026 - 15h01
(atualizado às 15h06)

Ele tirou os sapatos e calçou chinelos brancos. Seus primeiros passos foram um pouco instáveis, por causa do calçado que não era seu, mas logo continuou seu caminho em direção à área de oração. Era 6 de maio de 2001, há 25 anos, quando, pela primeira vez na história, um papa ? João Paulo II ? entrou em uma mesquita, durante sua viagem apostólica à Síria, então presidida por Bashar al-Assad.

Tratava-se da Grande Mesquita Omíada, situada na parte antiga de Damasco, entre as estreitas ruas do souk. De lá, Wojtyla lançou um apelo ao mundo islâmico por maior entendimento entre cristãos e muçulmanos, incentivando a educação dos jovens na compreensão e na tolerância.

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Na mesma mesquita, o Papa também dedicou um momento de reflexão diante do memorial de João Batista, que, segundo a tradição, abriga a cabeça do profeta ? venerado também pelos muçulmanos.

Relatos contemporâneos descrevem em detalhes esse momento histórico, posteriormente repetido por seus sucessores: Bento XVI, Francisco e até mesmo o papa Leão XIV, que, em menos de um ano de pontificado, já visitou duas mesquitas ? a de Istambul, em novembro passado, e a de Argel, durante sua recente viagem à África.

João Paulo II foi recebido pelo grão-mufti Ahmed Kuftaro: "Santo Padre, o senhor não pode imaginar nossa alegria. Esta é uma ocasião que transcende a história e dará muitos frutos, a começar pela paz mundial", disse ele em árabe.

"É a primeira vez que um papa visita uma mesquita", respondeu João Paulo II em inglês. "Para mim também, é um dia muito importante." Tudo ocorreu em meio a grande agitação que tanto o cardeal Roberto Tucci, organizador das viagens papais, quanto Arturo Mari, fotógrafo pessoal do Santo Padre, permaneceram do lado de fora do local sagrado. Um funcionário do Vaticano chegou a cair durante a confusão, mas sem consequências graves.

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O então porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro, também destacou tratar-se de um dia "histórico", embora o grão-mufti tenha aproveitado a ocasião para criticar Israel e os "judeus sionistas" pela situação na Palestina. "Onde está o governo dos Estados Unidos? Onde está o Conselho de Segurança da ONU?", questionou o líder islâmico.

Na época, João Paulo II já caminhava com o auxílio de uma bengala, na qual se apoiou durante o momento de reflexão na mesquita. Os discursos, porém, foram realizados no pátio externo.

Relatos também mencionam um episódio inesperado: a longa cerimônia coincidiu com o horário da oração da tarde muçulmana, e o sistema automático que substitui o muezim foi acionado, transmitindo o chamado à oração pelos alto-falantes. Cerca de quarenta pessoas presentes no pátio ajoelharam-se e começaram a rezar.

Entre os que acompanharam o Papa nessa visita histórica estavam o então patriarca latino de Jerusalém, Michel Sabbah; o patriarca caldeu do Iraque, Raffael Bidawid; e o cardeal Jean-Marie Lustiger, de Paris ? um judeu convertido ao catolicismo, cuja mãe e irmã morreram no campo de concentração de Auschwitz. Também estava presente Ernesto Olivero, fundador da Sermig. 

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