"Os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã reacenderam a questão mais crítica de segurança energética para a economia global: a interrupção do fluxo de petróleo e gás do Oriente Médio que transita pelo gargalo energético mais importante do mundo, o Estreito de Ormuz", resume Simone Tagliapietra, analista do think tank europeu Bruegel.
Este corredor marítimo crucial do comércio global está sendo evitado pelas principais companhias de navegação do mundo devido ao conflito.
Os preços do gás natural na Europa dispararam depois que a empresa estatal de energia do Catar, QatarEnergy, anunciou a suspensão da produção de GNL após um ataque com drone iraniano, "o que sugere potenciais grandes interrupções no fluxo de energia para a Europa", observa Neil Wilson, analista da Saxo Markets. "O Catar está entre os três maiores exportadores de GNL do mundo", acrescenta.
No começo da tarde, o contrato futuro holandês TTF, considerado a referência para o gás natural na Europa, subiu 44,18%, para € 46,08. Logo em seguida saltou a mais de 50%, atingindo € 49,14, seu nível mais alto desde fevereiro de 2025.
Enquanto isso, os preços do petróleo bruto permaneceram acentuadamente mais altos: o petróleo Brent do Mar do Norte subiu 8,67%, para US$ 79,19 o barril, e seu equivalente americano, o WTI, subiu 7,62%, para US$ 72,13.
Nos mercados de ações, a queda nos índices europeus se acelerou, impulsionada pela disparada do preço do gás.
A bolsa de valores de Paris caiu 2,22%, a de Frankfurt 2,67%, a de Londres 1,59% e a de Milão 2,53%. Em Wall Street, no início do pregão, o Dow Jones Industrial Average caiu 0,89%, o Nasdaq Composite Index 0,64% e o S&P 500, mais abrangente, perdeu 0,63%.
Oriente Médio se inflama
Ataques israelenses contra posições do Hezbollah no Líbano, salvas de mísseis iranianos lançados indiscriminadamente e refinarias e petroleiros atingidos no Golfo compõem agora um cenário de crescente risco regional. Apenas dois dias após a ofensiva conjunta de Israel e Estados Unidos contra o Irã, os efeitos já se espalham por todo o Oriente Médio.
O impacto chega rapidamente às economias ocidentais: o euro recua com a disparada dos preços dos combustíveis, enquanto o dólar volta a se fortalecer.
"O contexto no mercado cambial é claramente favorável ao dólar", devido à "alta dos preços da energia e ao aumento da demanda por ativos de refúgio, enquanto (...) as ações globais estão em queda", observa Fawad Razaqzada, analista da Forex.com. "Os Estados Unidos permanecem em grande parte autossuficientes em energia, ao contrário da Europa e de grande parte da Ásia", acrescentou.
Assim, "as vendas em euros aumentaram (...), já que a zona do euro é a mais exposta ao conflito. A forte alta nos mercados de energia é crucial para entender o que esse conflito implica em termos de crescimento e da resposta da política econômica", enfatizou Neil Wilson.
Transporte marítimo e grandes petrolíferas disparam
Após o ataque a dois navios no domingo, na costa dos Emirados Árabes Unidos e de Omã, a Organização Marítima Internacional (OMI) pediu às companhias de navegação que "evitassem" a região. A navegação no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do consumo mundial de petróleo, está paralisada. Os custos de seguro estão se tornando proibitivos e as principais empresas confirmaram a suspensão de suas operações.
A Maersk, especialista em transporte marítimo de contêineres, subiu 6,60% em Copenhague, enquanto a empresa alemã de transporte marítimo Hapag-Lloyd teve alta de 5,51% em Frankfurt
As grandes petrolíferas também registraram forte alta, beneficiando-se do aumento dos preços dos hidrocarbonetos. A TotalEnergies subiu 3,76% em Paris. A Eni teve alta de 3,10% em Milão. A Repsol saltou 5,39% em Madri. A Equinor disparou 8,63% em Oslo.
Companhias aéreas e turismo sofrem
Por outro lado, as ações de empresas dos setores de companhias aéreas e turismo caíram acentuadamente, com o cancelamento de inúmeros voos e o fechamento de rotas aéreas. As ações da Air France-KLM despencaram 8,09% em Paris, as da Lufthansa caíram 4,56% em Frankfurt e as da EasyJet recuaram 2,82% em Londres.
No setor de turismo, as ações do grupo francês de hotelaria Accor despencaram 9,54% no pregão de Paris, enquanto as da operadora alemã TUI caíram 8,69% em Frankfurt.
Com AFP