Governo Modi endurece contra protestos e detém líderes de movimento das "baratas" na Índia

Milhares de policiais nas ruas, internet cortada e muitas prisões. O governo indiano agiu com mão de ferro neste sábado (10) contra a manifestação anunciada pela oposição para exigir a renúncia do presidente da Comissão Eleitoral. Sob a alegação de que o ato não havia sido autorizado, a polícia deteve, durante a manhã, os três principais líderes do movimento das "baratas", que deu origem ao protesto.

10 out 2026 - 07h47
Resumo
O governo de Narendra Modi reprimiu duramente protestos em Nova Déli, detendo líderes do "Partido do Povo das Baratas", jornalistas e mais de 3 mil manifestantes. O movimento contesta a revisão das listas eleitorais, acusada de excluir 130 milhões de eleitores, afetando sobretudo minorias e beneficiando o partido governista BJP. Com a capital sitiada por policiais, a oposição e ONGs classificaram a ação como autoritária, enquanto o governo alegou conter anarquistas e manter a ordem pública.

"Viemos para ser presos; prendam-nos", desafiou Abhijeet Dipke, fundador do "Partido do Povo das Baratas" (CJP), dirigindo-se aos policiais, segundo imagens transmitidas por emissoras locais. "Não temos medo de vocês".

Manifestantes se revoltam contra reforma eleitoral que prejudica minorias e beneficia partido do premiê Narendra Modi. (10/10/2026)
Manifestantes se revoltam contra reforma eleitoral que prejudica minorias e beneficia partido do premiê Narendra Modi. (10/10/2026)
Foto: © Idrees MOHAMMED / AFP / RFI

Assim que desembarcavam em Nova Déli, os três jovens foram levados para um local não especificado. "Eles não conseguiram entrar em contato com seu advogado e estão isolados do mundo exterior", protestou o CJP nas redes sociais. A polícia não confirmou a detenção deles.

Publicidade

Há várias semanas, as "baratas" e o partido de oposição Congresso lideram uma onda de protestos contra a revisão das listas eleitorais, que resultou na exclusão de 130 milhões de eleitores registrados no país, segundo levantamento da imprensa.

Iniciada no ano passado, essa "limpeza" visava remover registros duplicados, nomes de pessoas falecidas e de fraudadores.

No entanto, críticos acusam a medida de excluir prioritariamente minorias, especialmente muçulmanos, e populações mais vulneráveis, o que beneficia o Bharatiya Janata Party (BJP), partido do primeiro-ministro hindu ultranacionalista Narendra Modi. A Comissão Eleitoral da Índia (CEI) e seu presidente, Gyanesh Kumar, negaram qualquer irregularidade no processo de revisão das listas eleitorais.

Jornalistas detidos e centro da capital sitiado

Isolado por mais de 20 mil policiais, segundo a agência Press Trust of India, o centro de Déli permaneceu inacessível aos manifestantes no sábado. Apenas um pequeno grupo conseguiu chegar ao local, constataram jornalistas da AFP.

Publicidade

"Estou aqui por dever para com a nação", declarou um deles, Sanjeev Takshak, de 42 anos. "O Estado sufoca uma cidade inteira para impedir que as pessoas se expressem".

Nos arredores de Jantar Mantar, local histórico de protestos na capital indiana, as forças de segurança detiveram inúmeras pessoas, que foram imediatamente colocadas em ônibus da polícia. Segundo o jornal The Hindu, citando fontes de segurança, mais de 3 mil pessoas foram detidas.

Veículos de imprensa independentes, como os sites de notícias Scroll e Newslaundry, afirmaram que vários de seus jornalistas encarregados de cobrir a manifestação também foram detidos e tiveram seus equipamentos confiscados.

A polícia divulgou nas redes sociais imagens de uma barreira mantida por seus agentes, com o tráfego sendo liberado a conta-gotas. "Apenas para aqueles que querem uma cidade em paz", comentou na legenda.

Publicidade

'Ditadura de Modi' 

A repressão à manifestação provocou fortes críticas por parte dos opositores de Narendra Modi. "É oficial: vivemos em uma ditadura liderada por Modi", exclamou nas redes sociais o ex-prefeito de oposição de Nova Déli, Arvind Kejriwal, após a prisão dos líderes dos "baratas".

"O que vemos hoje é vergonhoso e inconcebível", lamentou no X o ex-deputado do Partido do Congresso, Shashi Tharoor. "A força de uma democracia se mede pela forma como ela trata aqueles que questionam o seu funcionamento".

A ONG Anistia Internacional denunciou o "confinamento" imposto pelas autoridades em Nova Déli.

O presidente do BJP (partido governista), Nitin Nabin, defendeu a ação das autoridades contra aqueles que acusou de querer "desestabilizar" a Índia. "Essa competição entre anarquistas para criar instabilidade no país não terá sucesso", afirmou.

Protestos anteriores 

Em 20 de julho, a polícia reprimiu duramente uma manifestação em Nova Déli que reuniu dezenas de milhares de pessoas — convocada pelos "baratas" — para denunciar fraudes em exames universitários, que levaram estudantes ao suicídio.

Publicidade

Os confrontos deixaram 180 feridos, segundo as forças de segurança, e "várias centenas", segundo os manifestantes.

Após cinco dias de mobilização contínua, Narendra Modi, que construiu uma imagem de "homem forte" desde que assumiu o comando da Índia em 2014, não teve outra escolha a não ser aceitar a renúncia de seu ministro da Educação - algo inédito.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações