O governo da premiê da Itália, Giorgia Meloni, descartou a hipótese de renunciar e convocar eleições antecipadas, na esteira da derrota sofrida na votação de uma emenda ao projeto de reforma eleitoral em discussão no Parlamento.
A medida em questão tratava de um aspecto secundário do projeto de lei para alterar o sistema de votação no país, mas a derrota do governo por apenas um voto desencadeou pressões da oposição para Meloni entregar o cargo.
"Não pretendemos concluir agora nossa experiência de governo e estamos orgulhosos da estabilidade que demos ao país", disse nesta quarta-feira (15) o ministro para as Relações com o Parlamento, Luca Ciriani, em entrevista à emissora SkyTG24.
O atual sistema eleitoral italiano elege 63% dos deputados e senadores através do voto proporcional, ou seja, com o número de assentos no Parlamento distribuídos de acordo com o percentual obtido por cada partido ou coligação.
Já os 37% restantes são escolhidos em uma espécie de voto distrital, com a divisão da Itália em diversos colégios majoritários, onde é eleito apenas o candidato mais votado em cada um. Esse modelo permitiu que a coalizão de Meloni, com 43,79% dos votos para a Câmara e 44,02% para o Senado, alcançasse maioria confortável nas duas casas nas eleições de 2022, garantindo uma estabilidade rara para a premiê, cujo governo já é o segundo mais longevo da era republicana.
Naquela ocasião, no entanto, a oposição disputou o pleito dividida, o que favoreceu a coligação de direita nos colégios distritais, cenário que não deve se repetir nas eleições previstas para 2027, com a expectativa de uma aliança nacional entre as forças de centro-esquerda.
O projeto de reforma defendido por Meloni prevê acabar com o componente majoritário, criando um modelo 100% proporcional, porém com um prêmio de "governabilidade" de 70 assentos na Câmara e 35 no Senado para a coalizão que atingir 42% dos votos.
A legislação está em discussão no Parlamento, e a rejeição, em votação secreta na última terça-feira (14), de uma emenda apresentada pelo partido da premiê, o Irmãos da Itália (FdI), expôs as divergências existentes dentro da base aliada. O texto determinava o método de formação das listas eleitorais, com o primeiro nome definido pelo próprio partido e os seguintes respeitando a preferência do eleitorado, mas acabou rejeitado na Câmara por placar de 188 a 187.
O governo estima que entre 20 e 25 deputados da situação votaram contra a medida, o que deu munição aos pedidos da oposição por renúncia e eleições antecipadas. "A verdadeira notícia de ontem é que desabou a narrativa de um governo baseado em uma maioria sólida e compacta", disse a secretária do opositor Partido Democrático (PD), Elly Schlein, à rádio RTL 102.5. "A maioria está dividida, e bastou uma votação secreta para mostrar isso", salientou.
Já para o ex-premiê Giuseppe Conte, líder do Movimento 5 Estrelas (M5S), o resultado da última terça demonstra que Meloni "perdeu a confiança de sua base". "É o caso de renunciar", reforçou.