Governo da África do Sul alega que país foi 'desconvidado' de cúpula do G7 na França por pressão dos EUA

O governo da África do Sul anunciou nesta quinta-feira (26) que o presidente Cyril Ramaphosa não é mais convidado de Paris para participar da cúpula do G7, devido à pressão "contínua" dos Estados Unidos. O evento vai aconter em junho, em Evian, no sudeste da França.

26 mar 2026 - 11h42
(atualizado às 11h48)

"Ficamos sabendo que, devido a pressões contínuas, a França teve que retirar seu convite à África do Sul para participar do G7. Fomos informados de que os norte-americanos ameaçaram boicotar a cúpula do G7 caso nosso governo fosse convidado", disse o porta-voz da presidência do país, Vincent Magwenya, à AFP.

Diante da mudança, o governo sul-africano pontua que foi o presidente francês, Emmanuel Macron, quem convidou pessoalmente Ramaphosa para participar do G7, durante a cúpula do G20 na África do Sul, em novembro de 2025.

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Apesar disso, a decisão de excluir o líder sul-africano "não terá impacto na solidez ou na natureza estreita de nosso relacionamento bilateral com a França", afirmou Magwenya.

O G7 reúne as sete nações mais industrializadas do planeta, e suas reuniões são tipicamente ampliadas para incluir convidados, como o Brasil, a Índia e a Coreia do Sul este ano.

Boicote norte-americano

A alegação do governo sul-africano se dá em um momento de disputas narrativas entre Washington e Pretória. Desde seu retorno à Casa Branca, o presidente norte-americano, Donald Trump, tem acusado a África do Sul de suposta perseguição a fazendeiros brancos. Ele também repreende o país por ter processado Israel perante a Corte Internacional de Justiça devido a alegados atos de genocídio na guerra em Gaza.

Em novembro, Trump boicotou a cúpula do G20 em Joanesburgo e excluiu a África do Sul dos trabalhos do bloco, cuja presidência rotativa é exercida pelos Estados Unidos este ano.

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O episódio mais marcante da animosidade dos EUA em relação ao atual governo sul-africano foi a visita do presidente sul-africano à Casa Branca em maio de 2025. O resultado foi uma cena que chocou Cyril Ramaphosa: Donald Trump apresentou fotos e vídeos, a maioria deles enganosos ou completamente fabricados, que supostamente corroboravam suas acusações.

Além disso, o governo norte-americano também havia imposto tarifas de 30% sobre a maior parte das exportações de Pretória — as mais altas da África Subsaariana — antes de a Suprema Corte revogá-las.

Novo embaixador

Apesar das relações tensas, Pretória aceitou recentemente as credenciais do novo embaixador dos EUA no país, o conservador Brent Bozell, de 70 anos.

Menos de um mês após assumir o cargo, o diplomata foi intimado em março pelo Ministério das Relações Exteriores da África do Sul por declarações consideradas "indiplomáticas". Ele afirmou que o controverso e histórico hino antiapartheid, "Kill the Boer", deveria ser tratado como discurso de ódio contra fazendeiros afrikaners - descendentes de colonizadores europeus -, "não importando o que dizem os tribunais sul-africanos".

O governo Trump destituiu o embaixador da África do Sul nos Estados Unidos, Ebrahim Rasool, em março de 2025, e ele ainda não foi substituído.

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A respeito disso, o porta-voz presidencial indicou nesta quinta-feira que Cyril Ramaphosa está "prestes a nomear o embaixador da África do Sul nos Estados Unidos, que fará parte da equipe que está em contato com seus homólogos norte-americanos".

Com AFP

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