Gina Marques, correspondente na Itália da RFI
Quatrocentos médicos cubanos estão trabalhando na Calábria, e o governo americano exige que eles sejam enviados de volta ao país de origem. Há três anos, os profissionais atuam no serviço público de saúde da Calábria, uma das regiões mais pobres da Itália. Eles começaram a chegar no fim de dezembro de 2022 para prestar serviços em cinco hospitais calabreses — Locri, Polistena, Gioia Tauro, Melito Porto Salvo e San Giovanni in Fiore — que, sem eles, estariam condenados a fechar as portas.
O primeiro grupo era composto de 38 homens e 13 mulheres, em um total de 51 profissionais com experiência no exterior, principalmente na África e na América do Sul. Entre eles estão urgentistas, cardiologistas, radiologistas, hematologistas, pediatras, ginecologistas e clínicos gerais.
Em agosto de 2025, o Departamento de Estado dos EUA afirmou que as missões médicas da ilha comunista equivalem a tráfico de pessoas. O governo americano aplicou sanções a autoridades de países africanos, além de Granada, Venezuela e Brasil. Mas a primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, do partido de extrema direita Irmãos da Itália (Fratelli d'Italia) e aliada de Trump, até agora estava fora do radar do Executivo americano.
Durante um encontro na cidade calabresa de Catanzaro, Roberto Occhiuto disse ao diplomata americano que os médicos cubanos que trabalham nos hospitais e prontos‑socorros da Calábria são essenciais. Segundo comunicado do presidente da Região da Calábria, "a prioridade é garantir o direito à saúde para os cidadãos calabreses, cujo sistema sanitário se encontra em grande dificuldade".
No comunicado, ele afirma que pretendia contratar novos profissionais até 2026. "Nas últimas semanas, porém, graças a uma estreita colaboração estabelecida com o Departamento de Estado dos EUA e o Consulado Americano, decidimos explorar uma via alternativa para recrutar mais médicos da União Europeia e de outros países, inclusive cubanos não vinculados à missão existente", diz o texto.
As dezenas de cubanos que já trabalham nos hospitais calabreses devem permanecer até 2027, quando terminam os contratos, mas o plano de empregar outros 600 médicos de Cuba foi alterado. As vagas estão abertas para candidatos do mundo inteiro, mas não é fácil encontrar profissionais dispostos a trabalhar em hospitais da Calábria.
A região tem cerca de 1,8 milhão de habitantes e está entre as que mais sofrem com o deserto médico no sistema público italiano. Faltam especialistas para atender uma população em que 25% têm mais de 65 anos.
Os concursos públicos não conseguem atrair candidatos, e os hospitais vêm perdendo profissionais, já que os salários oferecidos são menos competitivos do que os pagos por estabelecimentos privados. Nenhum médico italiano ou europeu se candidatou diante da falta de condições aceitáveis, como carência de equipamentos.
O sistema de saúde da Calábria está sob administração especial há 16 anos. Essa supervisão foi imposta pelo governo central em 2009 devido a dívidas, desperdício e ineficiência. Ela acabou prorrogada por causa da infiltração da 'Ndrangheta — a máfia calabresa — na gestão das agências locais de saúde.
O presidente da região é um dos principais líderes do Força Itália (Forza Italia), partido de direita fundado por Silvio Berlusconi. "Tentamos contratar médicos italianos", explicaram fontes do governo regional, "mas as respostas aos nossos editais foram muito poucas. Era impossível, então nos inspiramos em métodos usados por algumas regiões durante a pandemia." Em março de 2020, no auge da primeira onda da Covid‑19, Roma já havia convocado médicos cubanos por dois meses.
As autoridades cubanas destinam 70% dos rendimentos dos médicos em missão ao financiamento da educação e da saúde — ambas gratuitas na ilha. No entanto, no caso da Calábria, o governo de Miguel Díaz‑Canel se comprometeu, excepcionalmente, a não taxar os salários desses profissionais.
O salário dos médicos cubanos na Calábria equivale ao dos médicos italianos. Segundo a diretora‑geral da Agência Sanitária Provincial da Calábria, Lucia Di Furia, não pode haver discriminação e eles recebem salário líquido de € 3.500 (cerca de R$ 21 mil) por mês, mais um subsídio de € 1.200 (cerca de R$ 7 mil) para moradia e alimentação.
O salário e o subsídio são pagos diretamente aos médicos cubanos. Segundo dados divulgados em abril de 2025 pelo Ministério da Saúde Pública de Cuba, cerca de 24 mil profissionais de saúde cubanos atuam em 56 países, distribuídos pelas Américas, África e Europa.
Documentário
O cineasta italiano Antonio Nasso realizou o documentário Doutores Cubanos na Calábria: um ano com os médicos do outro mundo (Dottori Cubani in Calabria: un anno con i "medici dell'altro mondo"). O filme relata a adaptação dos médicos cubanos desde a chegada, acompanhando o dia a dia deles durante 2023.
O longa mostra como os profissionais dedicaram muitas horas ao estudo do italiano e aprenderam até algumas palavras do dialeto local. No começo houve certa resistência da população, mas rapidamente eles foram acolhidos como membros da comunidade. Os próprios colegas médicos italianos elogiam a capacidade profissional dos cubanos. "Eles são como nossos médicos de décadas atrás", diz um gestor da área da saúde. "Se uma máquina quebra, eles não chamam o suporte técnico, pegam a chave de fenda."
Na ponta da bota italiana, contam‑se anedotas quase lendárias sobre as habilidades clínicas dos cubanos e sua capacidade de adaptação. Em outubro de 2023, ocorreu um incidente no pronto‑socorro de Cetraro, na província de Cosenza: uma menina de sete anos sofreu uma crise respiratória.
Os médicos decidiram intubá‑la e precisaram esperar o anestesista. Não havia tempo. A menina estava morrendo. A doutora Alathiel Alexander Pérez, pediatra recém‑chegada de Santiago de Cuba, apesar de não ser anestesista, realizou a intubação, quebrando todos os protocolos e salvando a vida da criança. Ela foi condecorada pelo presidente da região. O episódio tornou‑se símbolo do "milagre cubano" na Calábria.