Exposição em Paris mostra como Cézanne se tornou pilar da arte moderna

Uma nova exposição no Grand Palais, em Paris, propõe olhar Paul Cézanne não apenas por sua obra, mas pelas interpretações que ela suscitou ao longo de mais de um século. A mostra revela como diferentes gerações transformaram Cézanne em referência para questões tão diversas quanto a construção do espaço, a abstração e os limites da pintura. Um dos curadores dessa mega mostra parisiense, Jean-Rémi Touzet falou com a RFI sobre esse legado.

23 out 2026 - 14h30
Resumo
Em cartaz no Grand Palais, em Paris, a mostra "Cézanne et nous" reúne 174 obras para demonstrar como Paul Cézanne se tornou um dos maiores pilares da arte moderna. Em vez de uma influência linear, a exposição revela que diversas gerações reinterpretaram suas pesquisas sobre cor, geometria e espaço sob perspectivas próprias. Do cubismo de Picasso à abstração e ao pós-modernismo, a exibição destaca como o pintor francês foi continuamente reinventado por outros artistas ao longo de mais de um século.

Márcia Bechara, da RFI em Paris

Autorretrato de Paul Cézanne (c. 1880–1881), em exibição na National Gallery, Reino Unido.
Autorretrato de Paul Cézanne (c. 1880–1881), em exibição na National Gallery, Reino Unido.
Foto: CC/National Gallery / RFI

A exposição Cézanne et nous ("Cézanne e nós"), em cartaz no Grand Palais até janeiro de 2027, parte de uma premissa que reorganiza a leitura do artista: a influência de Paul Cézanne (1839-1906) não se desenvolveu como uma linha contínua, mas como um conjunto de interpretações moldadas pelo contexto histórico. O recorte abandona a ideia de uma filiação direta e procura entender como diferentes gerações recorreram ao pintor para responder às próprias questões estéticas.

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O percurso reúne 174 obras, sendo 69 de Cézanne e 105 de 78 artistas que o observaram sob perspectivas distintas. A seleção mostra que o francês não foi apenas uma referência histórica: tornou-se ponto de partida para debates que atravessam mais de um século de produção artística. A mostra se apoia na ideia de que cada época construiu um Cézanne próprio.

Para Jean-Rémi Touzet, conservador de pintura do Museu d'Orsay e um dos curadores da mostra, o objetivo é colocar em diálogo o artista e aqueles que o reinterpretaram ao longo do tempo. "Cézanne et nous é o encontro entre um artista, Cézanne, apresentado por cerca de 70 obras, e nós, que somos todos os artistas que o olharam desde o fim do século XIX até hoje", afirma. Segundo ele, o percurso foi concebido para mostrar "toda a diversidade dos olhares" lançados sobre o pintor e revelar "como nós também vimos Cézanne através deles".

O início da exposição revisita os anos 1880 e 1890, quando o artista já não buscava projeção pública e sua produção circulava discretamente na galeria de Père Tanguy, em Paris. Esse período é apresentado como fundamental para compreender as primeiras leituras de sua obra: restritas e acompanhadas por um círculo relativamente pequeno de artistas que identificaram em sua pesquisa formal elementos que mais tarde alimentariam diversos caminhos da arte moderna.

O percurso também destaca o papel decisivo do galerista Ambroise Vollard na consolidação da reputação de Cézanne. As exposições organizadas por ele e a circulação crescente das obras entre 1895 e 1906 contribuíram para consolidar a posição do pintor na história da arte. A mostra ressalta ainda as primeiras aquisições por museus e a grande retrospectiva póstuma organizada no Salão de Outono de Paris, em 1907, como momentos decisivos para sua consagração.

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O artista que os artistas escolheram

Para Touzet, a dimensão alcançada por Cézanne ao longo do século XX não encontra paralelo entre muitos de seus contemporâneos. "Para a pintura ocidental, Cézanne é realmente o maior pilar", afirma o curador. "Mais do que Van Gogh, mais do que Gauguin, Cézanne é o artista dos artistas, aquele para quem todos olharam."

Segundo ele, sucessivas gerações voltaram à sua obra para compreender procedimentos, testar soluções formais ou desenvolver pesquisas próprias. A admiração estaria ligada também à trajetória singular do pintor.

"Cézanne é a imagem do gênio criador", diz Touzet. Após enfrentar dificuldades para obter reconhecimento em Paris, o artista se recolheu em grande parte à sua cidade natal, Aix-en-Provence, onde continuou produzindo intensamente.

"A ideia de um artista que trabalha sozinho e continua sua própria luta para produzir uma obra sem ser reconhecido marcou profundamente gerações posteriores", afirma.

O curador recorda uma declaração célebre de Henri Matisse: "Nos momentos de dúvida, eu pensava: se Cézanne está certo, então eu também estou."

A partir dos anos 1910, Cézanne passa a ser reinterpretado pelas vanguardas que questionavam a relação entre pintura e realidade. Cubistas, fauvistas e artistas ligados à abstração encontraram em sua obra diferentes caminhos para pensar estrutura, composição, cor e forma. A exposição destaca justamente essas divergências de leitura, mostrando que não houve um único legado de Cézanne.

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De Picasso à abstração: múltiplas leituras de um legado

A influência de Cézanne, segundo Touzet, está menos nos temas que pintava do que na forma como entendia a própria pintura. O artista deixou de lado temas históricos e religiosos para se concentrar em retratos, naturezas-mortas e paisagens do entorno onde vivia.

"Os artistas perceberam que uma pintura podia ser apenas um jogo de cores, linhas, formas e geometria, uma espécie de música colorida", afirma.

Essa mudança ajudou a abrir caminho para a ideia, cada vez mais presente ao longo do século 20, de que uma pintura não precisava reproduzir fielmente o mundo visível para ter significado.

Entre os artistas que mais exploraram essa ruptura estava Pablo Picasso. Segundo o curador, o espanhol se interessou particularmente pela maneira como Cézanne reorganizava o espaço pictórico. Desde o Renascimento, a representação do espaço na pintura ocidental era estruturada sobretudo pela perspectiva geométrica. Cézanne começou a se afastar dessas regras ao introduzir pontos de vista distintos numa mesma composição.

"Quando você vê essas naturezas-mortas, às vezes vê a mesa de cima, uma maçã de lado e uma jarra vista de outro ângulo", explica Touzet. "O que importa não é a exatidão científica, mas a sensação de espaço."

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Diversidade de linguagens

Essa maneira de representar o espaço influenciaria diretamente as pesquisas que levariam ao cubismo, movimento que abandonou as convenções tradicionais da perspectiva para explorar múltiplos pontos de vista simultaneamente.

A seleção do Grand Palais reúne nomes como Matisse, Mondrian, Morandi, Joan Mitchell, Georg Baselitz, Roy Lichtenstein, Andy Warhol, Luc Tuymans, Maria Helena Vieira da Silva, Bridget Riley e Zao Wou-Ki. A diversidade de linguagens evidencia como Cézanne foi reivindicado por artistas interessados em questões muitas vezes opostas, da geometria à cor, da figuração à abstração.

O percurso final examina ainda as leituras produzidas a partir do pós-modernismo, quando a condição quase mítica atribuída ao pintor passou também a ser questionada. Em vez de buscar uma síntese definitiva, a exposição mostra como cada geração construiu seu próprio Cézanne.

Essa pluralidade se reflete também na origem das obras reunidas em Paris. Organizada em parceria entre o Museu d'Orsay, o Museu da Orangerie e o Museu Nacional de Arte Moderna, a mostra conta com empréstimos de grandes instituições internacionais, colecionadores privados, galeristas e herdeiros de artistas.

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Ao reconstruir mais de 140 anos de interpretações, Cézanne et nous apresenta um artista rejeitado por parte das instituições acadêmicas de seu tempo, mas transformado em um dos pilares da arte moderna. A exposição sugere que a permanência de sua obra está justamente na capacidade de gerar leituras diversas, por vezes contraditórias, sem jamais esgotar seu significado.

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