Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão
Além de marcar o auge do verão, um dos motivos que levam milhões de italianos às estradas é o "Ferragosto", feriado celebrado em 15 de agosto, cuja origem remonta a uma tradição da Roma Antiga ligada ao descanso. Por isso, muitos aproveitam a data para emendar alguns dias de férias, geralmente perto do mar.
Neste ano, porém, em vez de passar vários dias seguidos fora, os italianos estão preferindo fazer uma ou mais viagens curtas, de poucos dias. Segundo pesquisa recente da Confturismo, principal entidade de representação empresarial do setor turístico, 69% dos entrevistados pretendem adotar esse modelo de férias. O gasto médio previsto é de cerca de 1.165 euros por pessoa.
As viagens também devem ser mais perto de casa. Seis em cada dez italianos vão viajar dentro do país. Em 31% dos casos, o destino é própria casa de veraneio ou a casa de parentes e amigos.
Um dos principais motivos para essas mudanças é o aumento dos custos. Nos últimos dez anos, as passagens aéreas domésticas ficaram quase 193,3% mais caras. A gasolina, as passagens de trem e a hospedagem também subiram. As diárias de hotel estão, em média, 69% mais altas do que em 2016, enquanto os pacotes de viagem acumulam alta de 46%. Os dados são do Centro Italiano de Formação e Pesquisa sobre o Consumo (CRC).
Além disso, pesquisas apontam que as incertezas provocadas pelos conflitos internacionais também pesam na decisão de permanecer na Itália, principalmente por causa das rotas aéreas que passam pelo Oriente Médio.
Itália é o destino favorito dos europeus
Além do turismo doméstico, a Itália continua atraindo cada vez mais visitantes estrangeiros. Segundo a Confturismo, o país é o destino de verão mais desejado pelos europeus e foi apontado por 54% dos entrevistados como primeira opção para as férias. Na sequência aparecem Espanha, Grécia e França.
O fluxo de estrangeiros no país vem registrando um forte crescimento. No primeiro trimestre deste ano, mais da metade das presenças turísticas (54,6%) registradas na Itália foi de visitantes estrangeiros, de acordo com o Instituto de Estatística (Istat). Em comparação com o mesmo período do ano passado, o número de turistas internacionais aumentou 12,5%.
A grande surpresa é o destino mais procurado pelos turistas estrangeiros neste ano: a região da Puglia, que ultrapassou as ilhas da Sicília e da Sardenha nas buscas feitas na plataforma Booking.com. Tradicionalmente mais conhecida pelos próprios italianos, a Puglia ganhou visibilidade internacional nos últimos anos e passou a atrair cada vez mais visitantes de fora.
Praias privadas: a polêmica do litoral italiano
Parte da costa italiana está sob concessão para estabelecimentos balneares privados que ocupam grandes trechos do litoral. Quem deseja utilizar a estrutura, com guarda-sóis, espreguiçadeiras, banheiros e restaurantes, conhecida como "lidos", precisa pagar. E, embora o acesso ao mar seja garantido por lei, muitos reclamam que sobraram poucos espaços livres para quem não quer ou não pode pagar.
Neste ano, uma cidade próxima a Nápoles virou símbolo desse debate. O prefeito de Bacoli prometeu "devolver" o litoral aos cidadãos depois que o proprietário de um desses estabelecimentos chamou de "pé-rapada" uma mulher, que estava em uma praia livre, e após consumir uma bebida no restaurante, pediu para usar o banheiro.
O prefeito da cidade afirmou que a ocupação do litoral da cidade possui um histórico "abusivo" e anunciou novas licitações para as concessões, que em muitos casos estão há décadas nas mãos das mesmas famílias. Além disso, determinou uma meta para que 80% do litoral de Bacoli seja formado por praias de acesso público. A legislação já foi aprovada pela Câmara de Vereadores.
A proposta chama atenção porque, em algumas regiões da Itália, como Liguria e Emilia-Romagna, até 70% das praias estão sob concessão privada, segundo um levantamento da ONG Legambiente, realizado em 2022.