Em visita a Metz, na França, o papa Leão XIV condenou o uso da religião para justificar a violência e defendeu o acolhimento de migrantes, o multilateralismo e a busca ativa pela paz via diálogo. Ao lado do pontífice, o presidente Emmanuel Macron pediu a união da Europa contra o isolamento e o nacionalismo, resgatando a coragem de seus fundadores. O encontro encerrou a viagem de quatro dias do papa ao país com um apelo conjunto contra a barbárie e a favor da dignidade humana.
"Usar o nome de Deus para legitimar a violência ou a opressão é uma profanação desse nome", declarou o sumo pontífice durante um encontro com representantes de diferentes religiões em Metz. O papa afirmou que nada do que atinge a dignidade humana pode "reivindicar uma autêntica inspiração divina" e que o discurso religioso deve ser um apelo constante "ao desarmamento dos corações e das palavras", durante fala no centro de convenções Robert Schuman.
O pontífice americano chegou pouco depois das 9h ao aeroporto de Metz-Nancy-Lorraine, onde foi recebido pelo ministro do Interior, Laurent Nuñez. Leão XIV discursou após a leitura do "Apelo de Metz", declaração conjunta dos representantes religiosos na França em favor do diálogo inter-religioso e da paz.
No texto, os líderes religiosos manifestam oposição "ao veneno do totalitarismo" e afirmam que "o nome de Deus, assim como qualquer verdade religiosa ou tradição espiritual, jamais pode ser utilizado para justificar a violência e o ódio".
O presidente francês Macron participará da missa na Catedral de Saint-Étienne de Metz, às 16h (11h em Brasília). Na sexta-feira, o chefe de Estado recebeu o papa Leão XIV no Palácio do Eliseu. Ele não participou da missa celebrada pelo pontífice em Paris, no sábado.
Nesta segunda, o presidente francês pediu que a Europa recuperasse a "coragem de seus fundadores" e rejeitasse o "isolamento" e o "retorno dos nacionalismos", durante um encontro sobre a construção europeia e a paz realizado na presença do papa Leão XIV na cidade francesa.
"Aqui bate o coração milenar da Europa. Uma Europa que protege, une e age. Uma Europa soberana e democrática, movida por esse projeto de paz e prosperidade. Uma Europa que deve recuperar a coragem de seus fundadores, a coragem para não ceder ao isolamento, ao ódio ao retorno dos nacionalismos que dividem", declarou Macron no último dia da visita do papa à França.
"Para garantir uma soberania real, precisamos agir. Agir, antes de tudo, para garantir nossa segurança e preservar nossos valores. Porque a paz não se decreta, ela é construída pacientemente por artesãos da boa vontade, lúcidos e perseverantes", insistiu Emmanuel Macron.
A Europa é "não uma potência que apaga as nações, mas uma força que amplia e fortalece sua capacidade de agir e de controlar seu próprio destino", acrescentou. Segundo o presidente francês, o "legado europeu" cristalizou "a primazia da pessoa humana e, depois, do indivíduo livre e racional", bem como "a liberdade, o espírito crítico, o apego à ciência, a democracia liberal", além de "um capitalismo e um livre-comércio inseparáveis do Estado de bem-estar social e da democracia social".
Em nome da paz
Citando os pais fundadores da Europa, entre eles Robert Schuman (1886-1963) e o italiano Alcide De Gasperi (1881-1954), Leão XIV também defendeu uma aplicação "ativa" da paz. "Hoje, é preciso perguntar se estamos realmente empregando 'esforços criativos' para promover a paz mundial ou se estamos apenas tentando 'estancar a hemorragia da guerra' e nos preparar melhor para aquelas que supomos ainda estar por vir", declarou.
Leão XIV pediu que se tenha "coragem nas negociações" e disposição para "sacrificar certas posições em nome do bem maior da paz" na Europa, enquanto a guerra na Ucrânia continua, apesar das diversas tentativas de mediação.
"É necessário empenhar-se em um diálogo paciente, demonstrar coragem nas negociações e estar disposto a sacrificar certas posições em nome do bem maior da paz", acrescentou em seu discurso, na presença de Emmanuel Macron. O líder da Igreja Católica também pediu que a Europa ponha fim à espiral de "mentira e engano" nas relações internacionais.
"Hoje, as relações humanas, e também as relações entre os Estados, estão cada vez mais bárbaras", afirmou diante de autoridades europeias. "O valor da palavra empenhada é desprezado; em vez disso, vangloriam-se a mentira e o engano."
"A Europa pode pôr fim a essa espiral graças ao respeito pelo outro que soube cultivar e preservar", acrescentou. Leão XIV também exaltou "o direito internacional e o multilateralismo" como "o melhor antídoto contra a vontade de dominação".
Imigração
O papa Leão XIV também afirmou que não é possível falar da Europa sem mencionar o cristianismo, e defendeu uma melhor acolhida aos migrantes. Para ele, a Europa contemporânea enfrenta uma nova etapa de sua "longa história de encontros", e o acolhimento dos migrantes deve ocorrer como se eles fossem integrados "à própria família, oferecendo-lhes a possibilidade de desenvolver seus talentos, capacidades e sensibilidade, mas também de entrar no espírito da casa".
Por volta das 19h, o papa Leão XIV deixará o território francês pelo aeroporto de Metz-Nancy-Lorraine e retornará a Roma, encerrando a visita de quatro dias à França.
Com agências