A crise de moradia na Europa motivou grandes protestos, resultando em detenções e confrontos na Espanha e em Portugal. O descompasso entre oferta e demanda elevou o preço dos imóveis em 53% na União Europeia entre 2015 e 2024, atingindo 124,4% em território português. O cenário é agravado pela pressão do turismo e a alta de aluguéis por temporada, forçando residentes a comprometerem grande parte de suas rendas e impulsionando demandas por restrições drásticas a esse modelo de hospedagem curta.
Entre a noite de sábado (24) e a madrugada deste domingo (25), ao menos 128 pessoas, entre elas 73 menores de idade, foram detidas em Barcelona, na Espanha, por vandalismo e saques a cerca de 20 lojas, durante um ato que não havia sido comunicado previamente às autoridades.
Em Portugal, 50 pessoas ficaram feridas e outras 31 foram detidas por "desobediência" durante a madrugada, em Lisboa, e seis no Porto, segundo o jornal "Público". Um novo ato está marcado para as 17h deste domingo na capital portuguesa.
Esses episódios ocorreram uma semana após os diversos saques registrados na França em 17 de outubro, à margem de um dia de manifestações marcado por incidentes violentos. No sábado, novos protestos de grande escala aconteceram em Paris, mas transcorreram, em geral, de forma pacífica.
A crise da moradia afeta hoje diversos países europeus. Em muitas cidades, encontrar uma habitação a preço acessível tornou-se um desafio, especialmente para estudantes e jovens trabalhadores confrontados à alta dos aluguéis e à escassez de imóveis disponíveis.
Entre 2015 e 2024, o preço da habitação na União Europeia aumentou 53%. Em Portugal, esse aumento chegou a 124,4% no mesmo período. Esse cenário é explicado, entre outros fatores, pelo descompasso entre a oferta e a demanda. Nas grandes cidades, a alta dos aluguéis obriga os moradores a fazerem escolhas difíceis: destinar uma parcela cada vez maior de sua renda à moradia ou afastar-se dos centros urbanos.
Segundo o Eurostat, em 2023, 31% dos gregos, por exemplo, destinavam 40% de sua renda ao pagamento do aluguel - um dos percentuais mais altos já registrados na União Europeia até hoje.
Turismo e aluguéis de curta temporada
A essa tensão europeia soma-se a pressão do turismo. Essas nações compartilham uma característica comum: suas economias dependem fortemente do setor turístico. Isso resulta em uma grande concentração de locações de curta temporada nas grandes cidades, gerando uma disputa por moradia entre visitantes e residentes.
Ativistas europeus pelo direito à moradia defendem restrições drásticas a esse modelo, com o objetivo de devolver imóveis ao mercado de locação de longa duração. A pressão tem levado governos municipais de algumas das cidades mais afetadas a limitar ou até proibir os aluguéis de curta temporada.
RFI com AFP