Estudantes dos subúrbios de Paris fazem protesto contra más condições do ensino

3 out 2026 - 14h01
Resumo
Milhares de estudantes franceses protestam contra a precariedade do ensino público, a falta de professores e a superlotação, cenário crítico sobretudo nos subúrbios pobres de Paris. As manifestações atingiram mais de 1.200 escolas no país e geraram forte repressão policial, com feridos e mais de 5 mil detidos. A insatisfação popular amplia a pressão sobre o governo, que prevê reajuste orçamentário para o setor educacional abaixo da inflação, gerando acusações de abandono e desigualdade social.

Maisa, uma jovem de 17 anos de ‌um subúrbio pobre de Paris que sonha em ser professora de inglês, juntou-se a dezenas de milhares de outros estudantes e seus apoiadores nesta semana em protestos que se espalharam por toda a França contra escolas em mau estado, salas de aula superlotadas e falta de professores.

No Liceu Le Corbusier, em Aubervilliers, um subúrbio ao norte de Paris, no departamento de Seine-Saint-Denis, os manifestantes ⁠afirmaram que as escolas em bairros pobres como o deles enfrentavam as piores condições.

Publicidade

"No ano passado, fiz ‌a prova de francês do ensino médio sem um professor de francês, e os professores têm um impacto enorme", disse Maisa.

"Essas não são condições para se estudar."

Enquanto os protestos se intensificavam ‌em mais de 1.200 escolas de ensino médio francesas nesta ‌semana, a polícia reagiu com gás lacrimogêneo e balas de borracha em alguns casos. Mais ⁠de 5.000 pessoas foram presas, e alguns manifestantes ficaram gravemente feridos, com lesões nos olhos, dentes quebrados e golpes na cabeça.

O ministro do Interior, Laurent Nunez, classificou a situação como um "clima de violência inaceitável" e pediu que a ordem fosse restabelecida.

Publicidade

Amelia, de 15 anos, juntou-se a Maisa na multidão do lado de fora dos portões da escola e segurava um cartaz com os dizeres: "Nosso endereço ‌não deve decidir nosso futuro". Ela disse que estava se manifestando para exigir os mesmos direitos que ‌os estudantes de outras partes ⁠do país.

"As autoridades educacionais ⁠não estão investindo o suficiente nos subúrbios. Isso é classista e racista", afirmou ela.

Ulysse Rabate, cientista político da Universidade ⁠Paris 8, disse que os protestos mostram como os ‌bairros urbanos marginalizados da França ‌estão influenciando cada vez mais a política nacional.

"Quando há um colapso do serviço público, da educação pública, aqueles que mais sentem isso, e de forma mais violenta, são os que estão na base da pirâmide", disse ele.

PONTO CRÍTICO POLÍTICO

As manifestações e bloqueios em todo o ⁠país, que começaram na semana passada, se tornaram um ponto crítico político em um momento delicado para o governo, que anunciou na quinta-feira uma série de cortes de gastos profundamente impopulares em seu orçamento para 2027.

Publicidade

O orçamento da educação deve aumentar 1,7% -- abaixo da inflação --, para 65,53 bilhões de euros, excluindo as aposentadorias dos professores.

O Ministério da ‌Educação não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. O ministro da Educação, Edouard Geffray, afirmou que a educação continua sendo uma prioridade e que o aumento orçamentário abaixo da inflação ⁠se deve ao declínio populacional.

Os protestos começaram nos subúrbios de Paris, onde os níveis de pobreza são elevados, e depois se espalharam para a própria Paris e outras cidades francesas, incluindo Marselha, Estrasburgo, Tours e Lille.

No Liceu Le Corbusier, aulas de matemática, ciências humanas, inglês e educação física foram canceladas desde o início do ano letivo devido à falta de professores, segundo Karima Kara Ali, representante eleita dos pais.

Em Seine-Saint-Denis, dois terços das escolas de ensino médio participaram dos protestos na quinta-feira, informou o sindicato CGT. Jovens, professores e pais em quatro cidades reclamaram das condições insalubres nas escolas e da falta crônica de pessoal, incluindo enfermeiros e assistentes sociais.

Publicidade

Louise Paternoster, representante da filial de Seine-Saint-Denis do sindicato da educação da CGT, afirmou que a região não recebe recursos adequados para sua população estudantil e suas necessidades educacionais.

Dois terços das escolas do departamento têm vagas de professores em aberto, de acordo com uma pesquisa sindical.

Reuters - Esta publicação inclusive informação e dados são de propriedade intelectual de Reuters. Fica expresamente proibido seu uso ou de seu nome sem a prévia autorização de Reuters. Todos os direitos reservados.
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se