Nova moda no Vale do Silício, 'água crua' é vendida a US$ 37 a garrafa

Empresas da costa oeste dos EUA estão promovendo a nova tendência sob argumentos questionados por especialistas em saúde.

22 jan 2018 - 20h04
(atualizado em 23/1/2018 às 07h23)

Em alguns supermercados da costa oeste dos Estados Unidos, marcas de água que chegam a custar US$ 36,99 (R$ 118,8) por garrafa de 2,5 litros estão se tornando populares a ponto de frequentemente esgotarem das prateleiras.

Essa água é diferente por não receber nenhum tipo de tratamento ou filtragem. É vendida como "água crua".

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Nova moda no Vale do Silício é beber "água crua"
Nova moda no Vale do Silício é beber "água crua"
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Coletada diretamente de mananciais, ela é propagandeada como "pura" e cheia de propriedades que beneficiariam a saúde. Uma das marcas, a Live Water, afirma que a "água crua" "hidrata a pele", "reduz as rugas" e "aumenta a flexibilidade e a força das articulações".

A própria página da marca na internet reconhece que nenhuma dessas alegações foi comprovada pelo FDA (Food and Drugs Admnistration), o órgão americano que regula os setores de alimentos e remédios.

Os perigos da água crua

Essa nova febre, no entanto pode ser perigosa: mesmo que a água pareça pura e cristalina, por não passar por nenhum tratamento, ela pode estar contaminada com bactérias, vírus e outros parasitas.

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A "água crua" é retirada de fontes naturais
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Muitas doenças podem ser transmitidas pela água se ela não receber nenhum tratamento e contiver micróbios ou outros contaminantes", alertou o médico Andrew Pavia, infectologista da Universidade de Utah, no EUA, em um artigo sobre a "água crua". "Se ela não é filtrada, há um risco", escreveu.

Vicent Hill, chefe do departamento de doenças transmitidas pela água do CDC (Center for Disease Control), a entidade americana de controle de doenças, também advertiu para os perigos da nova moda.

"Beber água contaminada pode levar a doenças causadas por micro-organismos como o Cryptosporidium, a Giardia, a Shigella", disse Hill à BBC Mundo.

Marcas

Apesar dos riscos, a moda parece estar pegando no Vale do Silício e em outros lugares conhecidos por terem uma população jovem e rica.

A marca Live Water coleta água da fonte Opal Spring, no Estado do Oregon, no noroeste do país. Conhecidos empreendedores do Vale do Silício estão entre seus clientes.

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Um dos grandes entusiastas da tendência é o empreendedor Doug Evans, famoso depois da falência da sua start-up Juicero, que vendia máquinas de suco. Em seu Instagram, ele relatou sua "caçada" por fontes naturais de água limpa.

Os entusiastas da "água crua" criticam a água da torneira
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

E participar da nova moda não é barato. Mesmo ao comprar a água pela internet é preciso encomendar pelo menos quatro galões de 9 litros, a U$ 16 (R$ 51) cada.

A Live Water diz em sua página que a água é colocada em "recipientes reutilizáveis de vidro sem chumbo" e "transportada rapidamente em contêiners refrigerados" para ser distribuída.

Outra marca de "água crua" é a Tourmaline Spring, do Maine. Bryan Pullen, criador da empresa, diz que toda a água distribuída é testada para verificar se ela é saudável e se atende aos requerimentos do FDA.

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A agência de controle exige que os produtores protejam as fontes de água de bactérias e outros contaminantes, que processem, envasem e transportem a água em condições sanitárias adequadas e que apliquem processos de controle de qualidade e análise.

Cloro e flúor

Para Pullen, "a água de mananciais é muito melhor que a água da torneira, que contém cloro e flúor". As substâncias são adicionadas em pequenas quantidades justamente para eliminar bactérias. O flúor ajuda a fortalecer os dentes.

Você pagaria mais de R$ 100 em uma garrafa d'água?
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A água engarrafada normal também costuma vir de mananciais - a diferença é que passa por tratamentos e filtragens, o que não acontece com o produto das novas empresas.

"A água da torneira é coquetel químico, carregada de substâncias como cloro e flúor, e muitas são cancerígenas", diz Pullen.

No entanto, o empresário não apresenta estudos que corroborem essas afirmações, que Hill, do CDC, considera errôneas.

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"Pesquisas científicas mostram que tomar água com pequenas quantidades de cloro não tem efeito nocivo para a saúde", afirmou o cientista. "Isso ainda garante proteção contra as doenças transmitidas pela água."

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