"Enfrentamos predadores vorazes que rondam nossos espaços comuns globais. E, em resposta a esses predadores, a grande maioria dos Estados prestou aliança ou agiu com covardia", disse Callamard à RFI.
De acordo com o relatório publicado pela ONG, em 2025, as instituições internacionais sofreram os "piores" ataques desde 1948, com sanções americanas impostas a alguns magistrados e promotores da Corte Penal Internacional ou a saída dos Estados Unidos de dezenas de organismos e tratados, como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
No caso dos Estados Unidos, a ONG cita "homicídios extrajudiciais além de suas fronteiras", afirmando que o país "atacou ilegalmente a Venezuela e o Irã" e ameaçou a Groenlândia.
"Constatamos o advento daquilo que havíamos pressentido, daquilo que havíamos anunciado. Estamos, de fato, diante desse advento da erosão, do colapso iminente do nosso sistema", adverte a secretária-geral da Anistia Internacional.
Além de "algozes políticos", o relatório também aponta predadores econômicos, principalmente as gigantes da tecnologia que, segundo Callamard, "se dobraram às demandas de Trump e que se beneficiam enormemente dessa ordem exploradora que está sendo instaurada".
"Donald Trump não hesita em usar a ameaça, em usar a chantagem para garantir que os interesses econômicos das empresas americanas sejam protegidos - em especial das chamadas big techs", aponta. "Vemos isso particularmente dentro da União Europeia, onde Donald Trump não hesita em recorrer à chantagem, exigindo que essas empresas americanas sejam protegidas de impostos e que qualquer tentativa de regulamentar o setor seja interrompida", acrescenta.
Desprezo pela lei
Para a secretária-geral da ONG, o atual conflito no Oriente Médio é um exemplo da "deriva de desprezo pela lei", desde os "ataques ilegais realizados pelos Estados Unidos e Israel" até as "represálias indiscriminadas" do Irã. Em coletiva de imprensa em Londres, onde apresentou o relatório nesta terça-feira, a secretária-geral da ONG declarou que as autoridades iranianas "massacraram manifestantes em janeiro de 2026, no que provavelmente foi a repressão desse tipo mais mortal em décadas".
Callamard também aponta a falta de atitude da União Europeia diante de dirigentes que incitam conflitos, o que para ela "vai além da impotência". "Quando falamos de atores na África ou na América Latina, é possível compreender que busquem negociar ou se esconder. Mas a União Europeia possui a capacidade econômica e o projeto político para resistir a essa ordem mundial predatória", avalia. "Eles [dirigentes europeus] podem reagir, mas escolheram a covardia ou até mesmo a cumplicidade", reitera.
Por outro lado, ela elogia iniciativas na Espanha, França ou Marrocos para "perturbar o envio de armas para Israel". Callamard também destaca o engajamento de cidadãos americanos que se opuseram às operações do serviço de imigração dos Estados Unidos (ICE), "às vezes arriscando a própria vida".
Repressão nos EUA e na América Latina
Em seu capítulo sobre as Américas, o relatório da ONG ressalta como os governos do continente "intensificaram os esforços para silenciar a dissidência" e registrou uma "repressão crescente" às manifestações e "ataques" contra defensores dos direitos humanos e jornalistas. O documento denuncia o uso de "força excessiva e injustificável" diante de protestos, o que "resultou em violações dos direitos humanos", com casos no Brasil, Estados Unidos, Honduras e Peru.
"Nos Estados Unidos, 1.143 pessoas, incluindo uma proporção excessiva de pessoas negras, foram assassinadas a tiros pela polícia em 2025", destaca a secretária-geral da Anistia Internacional.
Além disso, "os Estados Unidos mataram pelo menos 123 pessoas no contexto de operações de combate ao tráfico de drogas no Caribe e no Pacífico", fatos que "constituíram execuções extrajudiciais", acrescenta.
O relatório também salienta "casos de assédio, censura e ataques que colocaram em perigo a vida e a integridade" de comunicadores na Argentina, Brasil, Colômbia, Cuba, Estados Unidos, Guatemala, Honduras, México, Paraguai, Peru, El Salvador, Uruguai e Venezuela. Além disso, cita "processos penais e manobras de assédio judicial" contra jornalistas, entre eles os iniciados contra oito repórteres pelo presidente argentino, Javier Milei.
No entanto, para Agnès Callamard ainda há razões para acreditar em um mundo melhor. "O que dizemos e colocamos em evidência é que os predadores estão no poder. De fato, eles substituem a diplomacia pela guerra, cometem atos de agressão e afirmam que o direito internacional está morto. Mas há uma humanidade corajosa que reage", diz. "Cabe agora a nós, à sociedade civil, a nós, povos deste mundo, exigir que nossos líderes demonstrem coragem e liderança", conclui.