Entre Washington e Teerã, Líbano tenta recuperar autonomia nas negociações com Israel

O Líbano inicia nesta terça‑feira (23), em Washington, um novo ciclo de discussões com Israel. Beirute insiste em manter negociações diretas, mesmo com a decisão do Irã de incluir o país em suas conversas com os Estados Unidos.

23 jun 2026 - 08h23

As autoridades libanesas insistem que somente negociações diretas com Israel poderão encerrar o conflito, que se arrasta desde 2 de março, quando o Hezbollah abriu fogo contra Israel em apoio ao Irã, desencadeando ataques aéreos e terrestres israelenses que já deixaram mais de 4 mil mortos no Líbano.

Um soldado libanês diante de escombros de imóveis na cidade de Nabatiyé, no sul do Líbano, em 21 de junho de 2026.
Um soldado libanês diante de escombros de imóveis na cidade de Nabatiyé, no sul do Líbano, em 21 de junho de 2026.
Foto: © Stringer / REUTERS / RFI

Desde abril, quatro rodadas de negociações não conseguiram produzir um cessar‑fogo duradouro. A trégua mais longa até agora ocorreu nesta semana, depois que Irã e Estados Unidos chegaram a um acordo de entendimento prevendo a interrupção das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano.

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Esse acordo fortaleceu o Hezbollah, apoiado por Teerã, e representou um novo revés para o Estado libanês, cujos dirigentes exigiam que o Irã deixasse de negociar em nome do Líbano. Segundo um responsável libanês e dois diplomatas estrangeiros envolvidos nas discussões, o acordo entre Irã e Estados Unidos pegou o governo libanês de surpresa, enfraquecendo ainda mais sua posição e colocando em dúvida a utilidade das conversas previstas para esta semana com Israel.

Retirada de tropas do Líbano não está em discussão

Uma fonte libanesa de alto escalão demonstra ceticismo quanto à possibilidade de avanços concretos ao final das negociações, programadas para durar três dias.

"Há um problema fundamental de confiança entre os israelenses e nós nessas discussões. Não podemos aceitar as exigências deles, e eles rejeitam todas as nossas", afirmou à AFP.

Mesmo assim, Beirute tentará obter um calendário de retirada israelense e deixou claro que este é um de seus principais objetivos. Essa expectativa esbarra nas declarações firmes de autoridades israelenses, que defendem que as Forças de Defesa de Israel permaneçam indefinidamente no sul do Líbano.

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"É a única chance que temos de gerar algum impulso nessas discussões, e é uma disputa dura com o Irã", acrescentou o responsável libanês.

Israel, por sua vez, considera que o objetivo central das conversas em Washington não é discutir a retirada de sus tropas, mas sim "desarmar o Hezbollah e alcançar um verdadeiro acordo de paz" com o Líbano, segundo David Mencer, porta‑voz do governo israelense. Para ele, o Hezbollah é o único obstáculo a um acordo. "É por isso que eles precisam ser desarmados e desmantelados."

Cautela

Temendo a possibilidade de uma nova guerra civil e convencido de que seu Exército, que inclui muitos soldados xiitas, não teria condições de enfrentar a poderosa milícia pró‑iraniana, o governo libanês avança com cautela em sua tentativa de desarmar o Hezbollah, movimento surgido nos anos 1980. O Hezbollah se recusa a entregar as armas e exige que o governo libanês interrompa todas as negociações diretas com Israel, preferindo que Teerã assuma o papel de mediador.

Karim Safieddine, pesquisador do Tahrir Institute for Middle East Policy, em Washington, alertou que há risco de Israel adotar uma postura ainda mais rígida nas conversas, refletindo a irritação de suas autoridades com o acordo firmado entre Washington e Teerã sem consulta prévia a Israel.

Calma relativa

Embora o acordo tenha trazido um período de relativa calma ao Líbano, as posições assumidas por ambos os lados da mesa não indicam grandes chances de progresso, afirmou o pesquisador. O presidente do Líbano, Joseph Aoun, propôs pela primeira vez negociações diretas em março, mas elas só começaram em meados de abril, após o anúncio de um cessar‑fogo pelos Estados Unidos.

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Embora a intensa campanha de bombardeios na periferia sul de Beirute, reduto do Hezbollah, tenha diminuído, combates violentos continuam no sul do Líbano, onde tropas israelenses avançaram mais profundamente em vilarejos muitas vezes reduzidos a escombros.

A Defesa Civil e a imprensa libanesa informaram que duas pessoas foram mortas nesta terça-feira por disparos israelenses. Segundo a agência estatal NNA, soldados israelenses abriram fogo contra um grupo de pessoas próximo a um trator que desobstruía uma via no bairro de Al‑Deir, em Nabatiyé el‑Faouqa, no sul do país.

No início de junho, os Estados Unidos anunciaram uma nova iniciativa de cessar‑fogo no âmbito das discussões entre Líbano e Israel, mas ela foi rejeitada pelo Hezbollah por exigir que o grupo interrompesse seus disparos.

O Hezbollah aposta que o Irã conseguirá negociar uma retirada israelense como parte de suas conversas com os Estados Unidos sobre um acordo final e considera que o governo libanês deveria priorizar essa via, em vez de suas negociações diretas com Israel.

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Com AFP

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