Dois fortes terremotos atingiram a Venezuela nesta quarta-feira, matando pelo menos 32 pessoas e ferindo 700, depois que dezenas de prédios desabaram na capital, Caracas, e arredores.
Um terremoto de magnitude 7,2 atingiu uma zona a quase 160 km a oeste de Caracas, seguido, menos de um minuto depois, por um tremor de magnitude 7,5, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS na sigla em inglês).
O USGS, utilizando modelos preditivos para estimar o número de mortos, afirmou que este provavelmente chegaria a milhares, com uma probabilidade substancial de ultrapassar 10.000.
Imagens de vídeo mostraram equipes de emergência atuando para encontrar sobreviventes entre os escombros de um prédio que desabou na capital, ao cair da noite, enquanto familiares buscavam ajuda para seus entes queridos que se acreditava estarem presos. Vários sobreviventes atordoados foram retirados do local, alguns em macas.
"Quando descemos as escadas, a cena parecia um filme de terror", disse Maria Alejandra, moradora de um prédio próximo, que não revelou seu sobrenome.
"Tivemos que escalar os escombros e tudo mais. O zelador do prédio com o bebê e todos os vizinhos desceram. Mas daquele prédio, só vi aquela família conseguir sair."
A presidente interina Delcy Rodríguez disse que os números iniciais de vítimas não incluem os do estado de La Guaira, o mais afetado, próximo a Caracas e onde fica o aeroporto da cidade, que havia sido fechado.
"Dezenas de prédios desabaram, e estamos realizando, neste momento, esforços de resgate muito intensos para salvar tantas vidas quanto Deus nos permitir salvar", disse ela em uma aparição na televisão estatal pouco antes da 1h da manhã, horário local, na quinta-feira.
"Também quero dizer que esta é uma verdadeira tragédia. Daqui, enviamos nossa mensagem de solidariedade e, às famílias que perderam entes queridos, reafirmamos nossas condolências e nosso apoio nestas horas difíceis."
Um site criado para rastrear pessoas desaparecidas e divulgado no X por líderes da oposição do país — muitos dos quais estão no exterior — listava mais de 6.600 pessoas como desaparecidas logo após as 2h da manhã, horário local.
Muitos venezuelanos estavam em casa quando os terremotos ocorreram durante a tarde de um feriado.
"Houve um estrondo muito alto. Coisas caíram na casa, jarros dentro da geladeira. Nunca passei por nada parecido", disse Coro Martinez, 56, que mora na zona leste de Caracas.
TRUMP OFERECE AJUDA APÓS "NÚMERO DEVASTADOR DE MORTES"
Os tremores secundários continuaram a abalar a capital até as primeiras horas da quinta-feira.
Rodríguez disse que o país estava concentrado nos esforços de resgate, incluindo a chegada, nas próximas horas, de equipes de resgate de outros países, ao agradecer a líderes como o presidente dos EUA, Donald Trump.
Trump disse em uma postagem nas redes sociais que os EUA estavam prontos, dispostos e aptos a ajudar no desastre.
"Os dois grandes terremotos que acabam de atingir o maravilhoso povo da Venezuela são de enorme magnitude e causaram um número devastador de mortes", disse Trump, que ordenou a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em uma violenta operação em janeiro.
MORADORES CORREM PARA AS RUAS
Wilmer Azuaje, ex-deputado venezuelano, registrou o momento em que o terremoto atingiu o Aeroporto de Maiquetía, fazendo com que pedaços de alvenaria e nuvens de poeira caíssem.
"Pessoal, a situação que estamos vivendo aqui é grave. Um terremoto de alta magnitude. Vejam como tudo ficou", disse ele enquanto filmava a cena.
Foi emitido um alerta de tsunami, mas rapidamente cancelado depois que o perigo passou.
Moradores de toda a cidade de Caracas, que também foi atingida por um terremoto mortal de magnitude 6,3 em 1967, correram para evacuar os edifícios enquanto os prédios tremiam.
"Assim que começou, começamos a ouvir pessoas gritando", disse Astrid Ramirez, uma publicitária de 41 anos na zona oeste de Caracas. "Todo mundo estava descendo correndo as escadas."
Maria Romero, uma aposentada de 80 anos na zona sul de Caracas, disse que a polícia a ajudou a sair de casa. "Este terremoto foi horrível, ainda pior do que o de 1967", disse ela.
Outra moradora, uma funcionária de escritório de 41 anos que preferiu não se identificar, disse que recebeu um alerta de terremoto no celular pouco antes de o tremor se intensificar.
"Quando peguei o celular e comecei a ouvir o que dizia, senti primeiro um leve tremor. Então, em menos de dois segundos, tudo começou a se mover."
Líderes de países como El Salvador, República Dominicana, Brasil e Espanha ofereceram apoio e solidariedade, enquanto o Departamento de Estado dos EUA informou que estava em contato com as autoridades venezuelanas e mobilizando ajuda.
Em nota publicada na noite de quarta-feira, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil informou que até o momento não foram identificados brasileiros entre as vítimas.
"O Brasil expressa solidariedade ao governo e ao povo da Venezuela e deseja pronta recuperação aos feridos", acrescentou o Itamaraty.
Já embaixada dos EUA em Caracas informou que estava acompanhando de perto as consequências do terremoto e pediu aos cidadãos no país que procurassem abrigos seguros.
A Venezuela fica em uma zona sismicamente ativa, onde a Placa do Caribe se encontra com a Placa Sul-Americana.
Estima-se que 30 mil pessoas tenham morrido quando um forte terremoto causou destruição generalizada nas cidades de Mérida e Caracas em 1812, de acordo com o USGS.
HOSPITAIS SE PREPARAM PARA RECEBER FERIDOS
No Hospital de Clínicas de Caracas, os funcionários foram solicitados a trabalhar em turnos duplos durante a noite para ajudar no atendimento aos feridos, disse um funcionário do local. As aulas foram canceladas pelo resto da semana, enquanto as autoridades começavam a avaliar os danos.
A infraestrutura petrolífera da Venezuela não pareceu ter sido afetada imediatamente pelos tremores. As autoridades de proteção civil em Maracaibo, perto do grande polo petrolífero do Lago Maracaibo, informaram que não houve registros de feridos, e um funcionário da refinaria El Palito, perto de Morón — o epicentro do terremoto —, afirmou que não houve danos no local.
A petrolífera britânica Shell, que está avaliando o desenvolvimento de campos de gás na Venezuela, informou que todos os seus funcionários no país foram localizados e não há feridos.
Uma fonte observou que uma interrupção prolongada no fornecimento de energia elétrica poderia afetar os níveis de produção de petróleo bruto até que o serviço seja restabelecido. O Ministério do Petróleo da Venezuela, a petrolífera estatal PDVSA e sua principal parceira estrangeira, a Chevron , não responderam imediatamente aos pedidos de comentários.