Como cartéis de droga do México terceirizaram laboratórios de metanfetamina na África

África Ocidental se torna cada vez mais atraente para organizações criminosas que produzem e exportam drogas ilícitas.

1 ago 2026 - 15h22
(atualizado às 15h27)
Agentes de combate ao narcotráfico inspecionam o local de um suposto laboratório de drogas ilícitas em uma área de mata densa no oeste da Nigéria
Agentes de combate ao narcotráfico inspecionam o local de um suposto laboratório de drogas ilícitas em uma área de mata densa no oeste da Nigéria
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O juiz nigeriano estava vestido com trajes formais, os advogados mantinham a formalidade e o protocolo jurídico foi seguido — mas a audiência não aconteceu no conforto de um tribunal em Lagos. Ela foi realizada dentro de um suposto laboratório clandestino de drogas, em meio a uma floresta densa.

Três mexicanos e sete nigerianos foram apresentados algemados enquanto o juiz Musa Kakaki inspecionava os produtos químicos e os equipamentos que, segundo a acusação, eram usados para produzir a perigosa droga sintética ilegal metanfetamina, conhecida como meth, crystal meth ou, localmente, ice.

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Um cheiro forte, amargo e penetrante tomava conta do laboratório improvisado, por causa de um grande tambor contendo a droga em estado líquido, que estava em processo de cristalização. Outro odor intenso vinha de recipientes abertos com um líquido escuro e viscoso, descrito como metanfetamina "bruta", ou seja, ainda não processada.

Outros materiais estavam espalhados pelo prédio inacabado, incluindo cilindros de gás propano e sacos de soda cáustica.

A transferência temporária do Tribunal Superior Federal para esse local, a cerca de duas horas de carro de Lagos, foi uma medida incomum no sistema judiciário da Nigéria. Mas a Agência Nacional de Repressão às Drogas (NDLEA, na sigla em inglês) afirmou que ela era necessária para que fosse possível compreender a dimensão da operação.

Quando os suspeitos foram presos, em maio, a agência classificou a apreensão como a maior já realizada no país envolvendo metanfetamina. Segundo a NDLEA, foram encontrados mais de duas toneladas da droga, avaliadas em cerca de US$ 360 milhões (cerca de R$ 2 bilhões).

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Na ocasião, a agência afirmou ter "desferido mais um golpe devastador" e desmantelado "uma organização nigeriano-mexicana altamente sofisticada de produção de metanfetamina, avaliada em milhões de dólares".

Havia sinais de que o processo de produção de metanfetamina havia sido interrompido
Foto: BBC News Brasil

No mês seguinte, agentes encontraram outro laboratório de metanfetamina escondido em uma floresta no vizinho Estado de Oyo.

Dessa vez, prenderam cinco suspeitos, entre eles um mexicano descrito como "especialista em metanfetamina".

As operações reforçam uma tendência mais ampla: o papel cada vez maior da África — e, em especial, da África Ocidental — no comércio global de drogas sintéticas. Além de servir como rota para o tráfico, o continente tem se tornado também uma base de produção para organizações criminosas.

Especialistas mexicanos na fabricação de metanfetamina, frequentemente chamados de cooks (cozinheiros), têm sido encontrados cada vez mais trabalhando ao lado de moradores locais em laboratórios na Europa e na África, segundo autoridades de combate ao crime.

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A produção de metanfetamina ficou muito mais sofisticada nas últimas décadas.

"Eles aperfeiçoaram o processo a ponto de produzirem a metanfetamina com o mais alto grau de pureza e potência que existe hoje", disse à BBC James Griego, que lidera as operações de combate ao narcotráfico do Comando dos Estados Unidos para a África (Africom).

O Africom, responsável pelas operações militares americanas no continente africano, forneceu informações de inteligência a diversas agências nacionais de combate às drogas para ajudar nas operações.

"Quem procura consumir metanfetamina sabe que a produzida pelos mexicanos é a melhor do mundo para esse fim", acrescentou Griego.

A primeira vez que a NDLEA anunciou a descoberta de um laboratório de metanfetamina ligado a mexicanos foi em 2016, quando o descreveu como um "superlaboratório".

O tribunal provisório, onde os suspeitos compareceram na quarta-feira, e as provas estavam sob forte segurança
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Desde então, laboratórios onde mexicanos atuavam foram descobertos também no Quênia, em Moçambique e na África do Sul.

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"Desde 2023, vimos um total de 14 laboratórios operados por mexicanos serem desmantelados. Houve um em 2023 [em Moçambique], outros seis em 2024, dois em 2025 e cinco neste ano", afirmou Griego.

"No último ano, quando falo desses cinco laboratórios, quatro dos cinco estavam na Nigéria", acrescentou.

Informações de inteligência do Africom e da Agência de Repressão às Drogas dos Estados Unidos (DEA) ligaram alguns desses laboratórios aos dois maiores cartéis de drogas do México: o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nova Geração.

Em depoimento ao Congresso dos EUA em maio, o comandante do Africom, general Dagvin Anderson, afirmou que grupos militantes e traficantes de drogas vêm atuando em conjunto.

"Grupos terroristas baseados na África estão sendo financiados em grau cada vez maior por cartéis de drogas, ampliando seu alcance e sua capacidade letal", disse aos parlamentares.

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Ao contrário de drogas de origem vegetal, como cocaína e heroína, que só podem ser cultivadas e processadas em determinadas regiões, uma droga sintética como a metanfetamina pode ser produzida em qualquer lugar que disponha dos produtos químicos e do conhecimento técnico necessários. Isso facilita que organizações criminosas ampliem rapidamente sua produção.

Conhecida por seus efeitos rápidos e duradouros, a metanfetamina provoca uma intensa sensação de euforia, mas também causa efeitos colaterais graves. Entre os principais riscos estão problemas cardiovasculares, desnutrição decorrente da má alimentação e, para quem a injeta, doenças transmitidas pelo sangue.

A interrupção do uso também costuma ser muito difícil, já que frequentemente provoca ansiedade, depressão severa, fadiga e desejo intenso de consumir a droga novamente.

À medida que traficantes de metanfetamina estabelecem novas redes de distribuição, para além de suas rotas tradicionais, um número cada vez maior de pessoas passa a ser exposto à droga.

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O suposto laboratório estava escondido de olhares indiscretos
Foto: Reuters / BBC News Brasil

A África Ocidental oferece diversas vantagens que atraem os cartéis mexicanos, começando pelas extensas áreas de floresta, que são ideais para instalar locais de produção isolados.

"A população também é um atrativo para eles, especialmente o enorme contingente de jovens. Isso significa mão de obra barata e também um mercado consumidor local", disse à BBC o porta-voz da NDLEA, Femi Babafemi.

As autoridades temem que o consumo de metanfetamina aumente na Nigéria. Uma pesquisa realizada em 2018 mostrou que 14,4% da população adulta do país já havia usado alguma droga ilícita — mais que o dobro da média global estimada pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

Segundo a organização Global Initiative Against Transnational Organized Crime, o uso da metanfetamina vem se espalhando pelo continente.

Na África Oriental, a droga tornou-se amplamente disponível em países como Quênia e Tanzânia. Já na África Austral, ela também é comum em países como a África do Sul, onde é conhecida como *tik*.

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Os cartéis de drogas têm interesse tanto nos mercados internacionais quanto no crescente mercado consumidor africano. Além disso, a localização geográfica do continente facilita o envio da droga para a Ásia e a Europa.

Uma operação sofisticada parecia ter sido montada no suposto laboratório de metanfetamina
Foto: BBC News Brasil

Produzir drogas na África Ocidental dá aos traficantes acesso às rotas marítimas do Atlântico. Somado às fronteiras porosas da região e à fiscalização mais frágil sobre a importação de produtos químicos, isso ajuda a reduzir os custos para abastecer mercados consumidores altamente lucrativos.

Na Europa, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) registrou um aumento de 47% no consumo de metanfetamina entre 2014 e 2024. Já no leste e sudeste da Ásia, as apreensões da droga pelas autoridades atingiram um recorde em 2024.

"Isso encurta a cadeia de abastecimento para a Ásia e também o caminho até a Europa", disse Griego.

Desde que voltou à Presidência dos Estados Unidos, em 2025, Donald Trump intensificou as ações contra os cartéis latino-americanos e suas operações.

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"Esses cartéis estão sofrendo pressão em outras partes do mundo", afirmou Babafemi. "Por isso, estão olhando para a África Ocidental como um polo de produção."

Alguns especialistas acreditam que o aumento da fiscalização sobre as rotas tradicionais do tráfico na América Latina pode ser um dos fatores que levam os cartéis a diversificar suas operações.

"Isso certamente faz parte do cálculo que explica por que os cartéis mexicanos intensificaram suas operações na África. Mas é apenas uma parte da história", disse Griego.

"O Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nova Geração sempre foram organizações globais. Eles atuam [na África] desde a década de 1990."

Ainda assim, o aumento recente no número de operações contra laboratórios clandestinos de metanfetamina na África pode indicar que os cartéis estão se consolidando cada vez mais no continente.

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O que já está claro é que o tráfico deixou de apenas usar a África como rota de passagem e passou a encontrar no continente novos locais para fabricar drogas e novos mercados consumidores.

Com medidas como a realização de audiências judiciais nos próprios laboratórios clandestinos, além do reforço da vigilância e do uso de inteligência, as autoridades nigerianas afirmam estar preparadas para enfrentar essa ameaça.

"É, sem dúvida, uma preocupação, mas isso nos ajuda a permanecer vigilantes e agir de forma preventiva. É por isso que conseguimos prendê-los antes que consigam levar essas drogas para nossas comunidades e para o mercado internacional", disse Babafemi.

"Conseguimos provar que a Nigéria não será um refúgio seguro para eles."

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