A ONG israelense B'Tselem denunciou em relatório um "projeto de eliminação" promovido por Israel para inviabilizar a existência do povo palestino na Cisjordânia ocupada. O documento aponta violência militar e de colonos, limpeza étnica, restrições de circulação e expansão de assentamentos como mecanismos estatais coordenados, intensificados sob o governo Netanyahu. Em resposta, o Exército de Israel rejeitou categoricamente as acusações, classificando-as como falsas e infundadas.
Frédérique Misslin, correspondente da RFI em Jerusalém, e AFP
A ONG israelense de direitos humanos B'Tselem afirma que as ações de Israel na Cisjordânia ocupada fazem parte de um projeto mais amplo destinado a tornar impossível que os palestinos continuem existindo como povo. Em relatório intitulado "O Projeto de Eliminação", a organização identifica cinco mecanismos que, segundo ela, atuam de forma conjunta: violência, limpeza étnica, restrições à circulação, estrangulamento econômico e destruição social e política.
Segundo a B'Tselem, a Cisjordânia vive atualmente uma ofensiva israelense que estaria desmantelando, de maneira sistemática e acelerada, as bases da existência palestina.
O relatório aponta a violência de colonos e das forças militares israelenses contra palestinos. Segundo uma contagem da AFP baseada em dados do Ministério da Saúde palestino, 1.108 palestinos, civis e combatentes, foram mortos na Cisjordânia desde 7 de outubro de 2023.
A organização também utiliza o termo "limpeza étnica" para descrever o deslocamento de dezenas de pequenas comunidades palestinas isoladas, que teriam sido obrigadas a abandonar suas localidades devido à violência ou à demolição de suas casas.
A B'Tselem denuncia ainda as restrições à circulação impostas por postos de controle militares e por mais de 900 portões instalados por Israel nas entradas de cidades e vilarejos palestinos.
"Juntos, esses mecanismos desmantelam as condições necessárias para que os palestinos continuem vivendo aqui como um povo", afirmou Yuli Novak, diretora-executiva da B'Tselem, durante uma entrevista coletiva em Jerusalém.
A ONG também classifica a política israelense de "projeto colonial de povoamento". Porém, "chamar isso de projeto colonial de povoamento não nega a ligação judaica com esta terra. Descreve um projeto político", avalia Novak.
O relatório reúne episódios individuais e políticas aplicadas na Cisjordânia e em Gaza para sustentar a tese de que fazem parte de uma política estatal mais ampla.
Israel rejeita acusações
O Exército israelense rejeitou categoricamente as acusações. Em comunicado, afirmou que qualquer alegação de que pretende "eliminar os palestinos como povo" é "falsa, infundada e totalmente desligada da realidade".
O Exército declarou ainda condenar "nos termos mais fortes" os episódios de violência de caráter nacionalista na Cisjordânia e rejeitou qualquer afirmação ou insinuação de que esteja perseguindo ou tendo como alvo a população palestina.
A B'Tselem, por sua vez, considera que o sistema está profundamente enraizado na sociedade e na política israelenses e que as eleições legislativas previstas para outubro terão pouco impacto sobre essa política.
"Este governo não criou o projeto. Ele herdou um sistema político violento construído ao longo de décadas por sucessivos governos israelenses", afirmou Novak.
Segundo ela, porém, o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, considerado um dos mais direitistas da história de Israel, tornou o sistema mais rápido, mais violento e mais institucionalizado do que nunca.
Desde o início do atual mandato de Netanyahu, o governo israelense legalizou ou aprovou, segundo a B'Tselem, 104 novos assentamentos na Cisjordânia, território de aproximadamente 6.000 quilômetros quadrados.
Os assentamentos israelenses na Cisjordânia são considerados ilegais pelo direito internacional. Israel ocupa o território desde 1967.
Mais de 500 mil colonos israelenses vivem atualmente na Cisjordânia, ao lado de cerca de três milhões de palestinos.