O Paquistão deverá receber delegações iranianas e americanas para negociações nesta sexta-feira (10), mas a participação de Teerã é incerta após os ataques aéreos israelenses que mataram mais de 300 pessoas no Líbano na quarta-feira, 8. Os bombardeios ocorreram horas após a entrada em vigor de um cessar-fogo negociado com os Estados Unidos (EUA), na noite de terça-feira, 7.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Os ataques ao Líbano, onde Israel combate o grupo Hezbollah, aliado do regime iraniano, foram os mais agressivos desde o início da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro.
"A realização de negociações com o objetivo de pôr fim à guerra depende do respeito dos Estados Unidos aos seus compromissos de cessar-fogo em todas as frentes, particularmente no Líbano", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baghai, conforme relatado pela agência de notícias ISNA.
No anúncio da trégua, o Paquistão, que atua como mediador das conversas no conflito, afirmou que o acordo se aplicaria "em todos os lugares, incluindo o Líbano" - o que foi negado tanto por israelenses, quanto por americanos.
Em Islamabad, as negociações previstas para este sábado (11) serão realizadas em um hotel de luxo, sob forte esquema de segurança. O vice-presidente dos EUA, JD Vance, deverá chefiar a delegação americana, ao lado do enviado especial Steve Witkoff e de Jared Kushner, genro de Donald Trump, anunciou a Casa Branca.
Trump diz estar 'muito otimista'
O presidente dos Estados Unidos disse à NBC News que estava "muito otimista" quanto à possibilidade de se chegar a um acordo de paz, apesar das divergências com o Irã.
O desfecho das negociações é incerto, entre um acordo real, o prolongamento estratégico das conversas ou uma nova crise. Em editorial, o jornal francês Les Echos lembra que o presidente americano costuma adiar decisões e evitar resolver questões centrais, além de ter o histórico de abandonar acordos internacionais importantes.
O lado iraniano demonstra menos otimismo do que Trump: pouco depois de anunciar na rede social X a chegada de uma delegação iraniana ao Paquistão, na noite de quinta-feira, o embaixador iraniano em Islamabad apagou a publicação. No Irã, o primeiro grande jornal da televisão estatal não mencionou as negociações, na manhã desta sexta-feira.
"As notícias veiculadas por alguns meios de comunicação de que uma equipe de negociadores iranianos teria chegado a Islamabad, no Paquistão, para negociar com os americanos são completamente falsas", informou a agência de notícias iraniana Tasnim, citando uma fonte anônima. "Enquanto os Estados Unidos não respeitarem seu compromisso de cessar-fogo no Líbano e o regime sionista continuar seus ataques, as negociações serão suspensas", completou o texto.
Estreito de Ormuz é a carta do Irã nas negociações
No Paquistão, o ministro da Defesa, Khawaja Asif, chamou Israel de "maligno" na noite de quinta-feira, no X, e acusou o país de cometer crimes de guerra no Líbano, antes de apagar sua publicação. O Líbano foi arrastado para o conflito pela atuação do Hezbollah, que atacou Israel em retaliação ao assassinato do líder supremo iraniano, Ali Khamenei, no primeiro dia da guerra.
A ONU expressou séria preocupação com a continuidade da campanha israelense, enquanto Paris, Londres e Ancara pediram a inclusão do Líbano no cessar-fogo.
O Libération afirma em manchete que o Estreito de Ormuz é a principal carta do Irã nas negociações. O tráfego marítimo nessa passagem estratégica para o comércio mundial continua quase paralisado. O regime iraniano tenta manter o controle do estreito, mesmo contrariando o direito internacional marítimo.
Poucos navios atravessaram a região após o anúncio da trégua, o que contradiz o discurso americano e reforça a percepção de que o cessar‑fogo é pouco convincente. As regras de circulação no estreito, acrescenta o Libération, seguem confusas e contraditórias.
O diário Le Figaro salienta que o presidente americano demonstra impaciência crescente e passou a responsabilizar os aliados da Otan pelo fracasso da ofensiva contra o regime iraniano.
Novos ataques
Na madrugada de sexta-feira, sirenes de alerta aéreo soaram em Israel, inclusive em Tel Aviv, informou o exército israelense, após o lançamento de foguetes do Líbano. Depois da meia-noite, o Hezbollah reivindicou a autoria de diversos ataques com foguetes e drones, incluindo disparos contra "grupos de soldados" em ambos os lados da fronteira entre o Líbano e Israel, e outro contra uma cidade fronteiriça israelense.
Em resposta à escalada das tensões, um oficial americano afirmou que conversas entre o Líbano e Israel também estão agendadas para a próxima semana em Washington. O Hezbollah rejeitou a iniciativa.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ordenou seu gabinete a iniciar "negociações diretas" com Beirute. Mas o Líbano insiste em "um cessar-fogo antes do início de qualquer negociação", disse à AFP um oficial libanês, falando sob condição de anonimato.
RFI com AFP