Agricultores franceses invadiram Paris com tratores em protesto contra o acordo UE-Mercosul e a gestão governamental da dermatose nodular bovina, gerando bloqueios e atritos políticos.
Cerca de uma centena de tratores entrou em Paris na madrugada de quarta para quinta-feira, 8, bloqueando ruas e avenidas centrais da capital, incluindo áreas próximas à Torre Eiffel e ao Arco do Triunfo. A maioria dos veículos foi contida nas entradas da cidade, segundo as autoridades policiais, mas alguns agricultores conseguiram avançar, apesar de um decreto que proibia manifestações não autorizadas em setores sensíveis, como as sedes do governo e da presidência, e da Assembleia Legislativa e Senado.
Os protestos foram convocados pelo sindicato Coordenação Rural, que reivindica mudanças na gestão da dermatose nodular contagiosa (DNC) bovina e se opõe ao acordo de livre-comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. "Estamos entre o desespero e o desapontamento. Sentimos que fomos abandonados em favor de naves espaciais, Airbus ou carros", disse Stéphane Pelletier, vice-presidente da Coordenação Rural na Vienne, próximo à Torre Eiffel.
Por volta das 8h no horário local (4h em Brasília), cerca de 20 tratores circulavam por pontos turísticos e estratégicos da capital. Parte dos veículos permaneceu estacionada às margens do rio Sena, enquanto outros subiram a Avenida Champs-Élysées e se concentraram diante do Arco do Triunfo.
A mobilização causou bloqueios em vias importantes e engarrafamentos que se estenderam por dezenas de quilômetros em rodovias que dão acesso a Paris, como a A13, segundo o ministro dos Transportes, Philippe Tabarot.
A porta-voz do governo francês, Maud Brégeon, classificou os bloqueios como "inaceitáveis" e afirmou que o governo não tolerará ações ilegais. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, acompanha a situação "com muita atenção".
Contexto político e econômico
Os agricultores franceses reunidos em Paris exigem mudanças em duas frentes principais: a revisão do acordo entre a UE e o Mercosul e um novo enfoque na estratégia de combate à DNC, doença viral que atinge bovinos e tem levado ao abate obrigatório de animais infectados em várias regiões rurais
As manifestações ocorrem dias após a Comissão Europeia suspender a taxa de carbono sobre fertilizantes, medida pedida por Paris e Roma para proteger agricultores europeus em dificuldade. A França continua a se opor ao acordo UE-Mercosul e tenta formar uma "minoria de bloqueio" com países como Polônia e Hungria, apesar de a Itália ter se mostrado mais favorável, abrindo caminho para a assinatura do tratado já na próxima semana.
Internamente, o governo francês respondeu às pressões anunciando medidas para restringir a importação de produtos agrícolas que não atendam aos padrões sanitários e ambientais da UE, incluindo a proibição de certos produtos tratados com substâncias proibidas no bloco.
Abate de animais em questão
No caso da dermatose que atinge o gado francês, a Coordenação Rural e a Confederação Paysanne, dois sindicatos do setor, criticam a política do governo, que determina o abate sistemático de bovinos infectados e vacinação obrigatória em um raio de 20 km, além de restrição total de movimentação dos animais.
A Federação Nacional dos Sindicatos de Exploração Agrícola (FNSEA), maior sindicato agrícola do país, apoia a medida, defendida como necessária para conter a doença. Os sindicatos opositores pedem que apenas os animais infectados sejam abatidos e o restante do rebanho seja vacinado nacionalmente.
A Coordenação Rural convocou um novo ato em frente à Assembleia Nacional às 10h (6h em Brasília), reforçando o caráter de protesto tanto contra a política sanitária quanto contra o tratado comercial com o Mercosul. O movimento demonstra a tensão crescente entre o governo e o setor agropecuário, especialmente no sudoeste da França, reduto histórico dos agricultores mobilizados.
O protesto ocorre em um momento de intensa pressão política para o governo do presidente Emmanuel Macron. A França tem tentado formar uma "minoria de bloqueio" dentro da UE para adiar ou modificar o apoio ao tratado com o Mercosul, em meio à resistência de agricultores e de parte da população rural. Países como Itália e Espanha têm posições diversas em relação ao acordo, e negociações em nível europeu continuam em andamento. *(Com AFP).