Baratos e ágeis: como os drones de fibra óptica do Hezbollah desafiam o poderoso Exército de Israel

Pequenos, baratos e fáceis de operar, os drones explosivos guiados por fibra óptica usados pelo Hezbollah expõem uma vulnerabilidade inesperada do Exército de Israel, um dos mais poderosos do mundo. Em uma semana, três pessoas morreram após ataques desse tipo, enquanto especialistas alertam que o equipamento, simples como um brinquedo e comprado online, dribla interferências e desafia defesas avançadas. A tática, inspirada na guerra da Ucrânia, virou um problema urgente para Israel.

2 mai 2026 - 14h03

São dispositivos pequenos, baratos e fáceis de operar. Mesmo assim, os drones explosivos guiados por fibra óptica que o Hezbollah libanês passou a usar já mataram várias vezes, colocando em xeque a defesa do Exército de Israel, uma das mais poderosas do mundo.

O grupo pró-Irã, que antes disparava principalmente foguetes contra o território israelense, parece ter priorizado os drones nos últimos dias, enquanto os combates continuam no sul do Líbano apesar do cessar-fogo em vigor desde 17 de abril.

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Em apenas uma semana, dois soldados e um civil foram mortos por drones, segundo o Exército israelense — aparelhos conectados por fibra óptica, de acordo com a imprensa local.

Ao contrário dos drones tradicionais guiados por GPS ou rádio — vulneráveis a interferências —, esses modelos são ligados ao ponto de lançamento por um cabo de fibra óptica que pode chegar a 50 quilômetros.

O operador pilota o drone em visão imersiva, como se estivesse dentro dele, usando uma tela ou óculos de realidade virtual, sem necessidade de treinamento complexo.

Eles não são mais difíceis de usar do que "um brinquedo de criança", resume Orna Mizrahi, pesquisadora do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), em Tel Aviv, e "podem ser comprados em qualquer lugar", inclusive em plataformas online.

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Arma de guerra assimétrica

Arma típica de conflitos assimétricos entre grupos armados e exércitos muito mais poderosos, esse tipo de equipamento simples, mas devastador, já mostrou que pode causar danos consideráveis — e virou um problema sério para Israel.

"Eles apareceram na Ucrânia há mais de três anos, e aprendemos com o que vemos lá", disse nesta semana a jornalistas um alto oficial israelense.

Para se proteger, "usamos vários tipos de tecnologia que não posso detalhar. Mas não é infalível, não tanto quanto gostaríamos", admitiu.

Youssef al-Zein, responsável do Hezbollah pelas relações com a imprensa, afirmou nesta sexta-feira a jornalistas que se trata de uma "tática" do grupo.

"Conhecemos a superioridade do inimigo, mas também exploramos seus pontos fracos", disse.

Os ucranianos, que se tornaram especialistas em drones desde a invasão russa de 2022, ofereceram sua expertise aos israelenses naquele mesmo ano, segundo o ex-ministro da Defesa da Ucrânia.

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Israel subestimou a ameaça

"Não houve resposta concreta", disse Oleksii Reznikov em 2024 ao site israelense Mako, avaliando que Israel não levou a ameaça a sério.

O Exército "não tem hoje nenhuma resposta, porque não se preparou para enfrentar explosivos tão rudimentares", afirma Orna Mizrahi.

Como esse drone "não transmite imagem por rádio nem é guiado por receptor de rádio, ele não pode ser detectado ou neutralizado eletronicamente", explica Arié Aviram, especialista que escreveu sobre o tema para o INSS.

Israel poderia recorrer a seus mísseis interceptores sofisticados, caças ou helicópteros, mas isso é financeiramente inviável a longo prazo para derrubar aparelhos tão baratos — que custam algumas centenas de dólares, chegando no máximo a US$ 4 mil.

O novo sistema de laser, desenvolvido para interceptar armas de curto alcance como foguetes e drones, pode ser uma solução, aponta Aviram, "desde que seja amplamente implantado".

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Sinal da dificuldade, o Ministério da Defesa lançou em 11 de abril um edital pedindo propostas de "tecnologias inovadoras" para enfrentar "a ameaça de drones controlados por fibra óptica".

Defesas improvisadas

Enquanto isso, e na falta de alternativas, o Exército recorre a métodos de baixa tecnologia: soldados detectam esses drones por radar ou visualmente — muitas vezes tarde demais, dada a velocidade — e usam redes de proteção, também empregadas na Ucrânia, como reconheceu o alto oficial israelense citado anteriormente.

Nas redes sociais, imagens publicadas pelo jornalista israelense Amit Segal mostram veículos militares cobertos por redes semelhantes a mosquiteiros — um contraste marcante com o padrão tecnológico do qual o Exército costuma se orgulhar.

Com AFP

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