O governo do presidente dos EUA, Donald Trump, está organizando uma cúpula internacional focada no combate ao movimento de esquerda Antifa e em outros grupos, disseram três fontes familiarizadas com o assunto, em um esforço que destaca a mudança nas prioridades antiterroristas da Casa Branca no último ano.
A conferência, prevista para junho ou julho, reunirá autoridades de várias nações para discutir estratégias de combate à Antifa e incentivar o compartilhamento de informações, disseram as fontes, que pediram anonimato por não estarem autorizadas a falar com a imprensa.
Trump descreveu o movimento antifascista como uma grave ameaça aos Estados Unidos.
Especialistas em contraterrorismo argumentam que o grupo não existe como uma entidade organizada, embora pessoas que alegam ter afinidade com a Antifa tenham se envolvido em ataques armados nos EUA.
Entre os funcionários que organizam o evento está o subsecretário de Estado para o Controle de Armas e Segurança Internacional, Thomas DiNanno, disseram duas das fontes.
Em resposta aos pedidos de comentários, porta-vozes da Casa Branca e do Departamento de Estado descreveram o movimento antifascista como uma grande preocupação de segurança para o governo Trump.
"Os anarquistas, marxistas e extremistas violentos da Antifa têm travado uma campanha de terror nos Estados Unidos e em todo o mundo ocidental há décadas, realizando atentados a bomba, espancamentos, tiroteios e tumultos a serviço de sua agenda extremista", disse Tommy Pigott, porta-voz adjunto principal do Departamento de Estado.
QUESTÃO DE PRIORIDADES
O evento planejado gerou preocupação entre alguns funcionários atuais e antigos, que argumentam que a cúpula seria uma distração em um momento em que os EUA enfrentam ameaças de grupos patrocinados pelo Irã, impulsionados pela guerra no Oriente Médio.
"Estou cético quanto à necessidade, agora, com tudo o que está acontecendo, considerando o número de planos que o Irã e o Hezbollah estão arquitetando, de se investir recursos limitados de combate ao terrorismo na ameaça da Antifa neste momento", disse Michael Jacobson, que foi diretor do Gabinete de Contra-Terrorismo do Departamento de Estado até 2025. Atualmente, ele é pesquisador sênior do think tank Washington Institute for the Near East Policy.
Um funcionário do Departamento de Estado argumentou que o governo havia tomado "medidas sem precedentes para combater o terrorismo em todo o mundo", incluindo diversas ações contra o Hezbollah, o Hamas, os houthis baseados no Iêmen e vários cartéis de drogas.
Muitos detalhes do evento planejado não estavam claros, incluindo quais países foram convidados e quais participariam.
Até a semana passada, convites formais para a conferência ainda não haviam sido enviados, disseram duas pessoas. O funcionário do Departamento de Estado afirmou que nenhuma data para a cúpula havia sido definida.
Também não estava claro se o evento se concentraria especificamente em grupos ou indivíduos que se identificam com a Antifa, ou em grupos de esquerda em geral. Em algumas ocasiões, altos funcionários do governo usaram o termo "Antifa" como uma abreviação pública para o extremismo de esquerda de todas as vertentes.
Uma fonte previu que muitos dos convites seriam enviados a governos europeus. Em novembro, o governo Trump designou quatro entidades de esquerda na Alemanha, Itália e Grécia como organizações terroristas estrangeiras, de acordo com a legislação norte-americana. Sete pessoas supostamente ligadas a um desses grupos, conhecido como Antifa Ost, foram a julgamento na Alemanha em novembro, acusadas de crimes que incluem tentativa de homicídio.
A fonte disse que funcionários do governo esperavam anunciar uma coalizão global para combater a Antifa perto da época da conferência.
ATOS DE VIOLÊNCIA, MAS SEM HIERARQUIA
A Antifa, abreviação de "antifascista", não é um grupo político organizado, mas sim um movimento descentralizado sem uma estrutura clara, hierarquia de comando ou líder, de acordo com um relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso de 2020.
Alguns especialistas em extremismo político, juntamente com o ex-diretor do FBI, Christopher Wray, argumentaram que a Antifa deve ser vista como uma ideologia, e não como uma entidade coesa.
Além disso, defensores dos direitos civis e jurídicos expressaram preocupação com o fato de a perseguição de Trump à Antifa equivaler a uma tentativa de criminalizar certas visões políticas.
Os defensores da estratégia da administração de combater a Antifa apontam que indivíduos que se identificam como simpatizantes da Antifa, na verdade, cometeram atos de violência.
Um júri federal em Fort Worth condenou neste mês nove pessoas, que os promotores disseram serem agentes antifascistas, por acusações relacionadas a terrorismo e porte de armas, referentes a um ataque a um centro de detenção do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) no Texas, no ano passado.
Trump tentou pela primeira vez designar o movimento como uma organização terrorista doméstica em 2020, quando manifestantes de esquerda atacaram prédios federais em Portland, Oregon, durante semanas de protestos após o assassinato de George Floyd pela polícia.
Um indivíduo que se identificou como simpatizante do movimento antifascista atirou e matou um membro do grupo de extrema-direita Patriot Prayer em Portland, em agosto de 2020, e foi morto em seguida por agentes da lei federais e locais.
AMEAÇA DO IRÃ SE APROXIMA
A maioria das autoridades antiterroristas ocidentais está agora focada na ameaça de ataques patrocinados pelo Irã contra alvos nos EUA, na Europa e em Israel.
Antes do ataque conjunto de Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o FBI alertou as agências de segurança de que Teerã poderia tentar retaliar quaisquer ataques norte-americanos lançando ataques surpresa com drones na Califórnia, de acordo com um boletim de segurança visto pela Reuters.
A Europol, agência policial europeia, alertou que o conflito tem "repercussões imediatas" para a segurança da União Europeia, com um aumento da ameaça de atos terroristas no continente.
Tanto em casa como no exterior, as autoridades norte-americanas têm-se concentrado mais, nos últimos anos, no extremismo de direita do que no extremismo de esquerda.
Mas Trump fez do combate a grupos de esquerda -- e à Antifa em particular -- uma prioridade. Ele destacou o movimento durante a campanha eleitoral de 2024 e prometeu tomar medidas contra grupos de esquerda que ele acusa de fomentar a violência, após o assassinato do ativista conservador e aliado Charlie Kirk, em setembro.
As provas disponíveis publicamente nesse caso não ligam o suposto assassino Tyler Robinson ao movimento antifascista.
Pouco depois do assassinato, Trump assinou uma ordem executiva classificando a Antifa como uma "organização terrorista doméstica".
Especialistas jurídicos afirmaram que a designação de terrorismo doméstico é ilegal e constitucionalmente questionável, levantando preocupações quanto à liberdade de expressão.