Guilhem Delteil e Aabla Jounaïdi, da RFI em Paris, e Michel Paul, correspondente da RFI em Jerusalém
Após os recentes casos de agressão, o exército de Israel isolou cidades no norte da Cisjordânia, mas os ataques de colonos israelenses contra comunidades palestinas continuam.
Segundo as vítimas ouvidas pela reportagem da RFI, a violência acontece de diferentes maneiras: comunidades são atacadas e intimidadas, árvores frutíferas são arrancadas, o gado é envenenado e os carros alvejados nas estradas, entre outras intimidações.
O tiroteio ocorrido em 24 de julho no vilarejo de Tell, que deu início à operação do exército israelense no território, é um exemplo que faz parte de um contexto mais amplo.
Mahmoud Toubassi, um dos moradores entrevistados, vive na cidade de Jalud, perto de Nablus, no norte da Cisjordânia. O palestino conta que ele e sua família resistiram por três longos meses sob a ameaça de colonos armados que haviam montado um acampamento em sua propriedade.
O homem relata que foram alvos de apedrejamentos e assédio dia e noite. Os colonos chegaram a incendiar uma peça da residência e, por fim, cortaram a luz.
"Ficamos sem comida, água ou luz. No fim, dois colonos armados chegaram e nos disseram: 'Vocês têm uma hora para sair. Ou vocês saem daqui, ou morrem dentro de casa'."
'Ameaçaram nos queimar vivos'
Desde então, Mahmoud Toubassi foi forçado a deixar sua casa, e agora está condenado a observar de longe a propriedade que um dia ocupou e da qual dependia para o seu sustento.
"A situação ficou catastrófica. Eles haviam incendiado nosso carro; atiravam pedras em nós e ameaçavam nos matar e por fogo em tudo, nos queimar vivos, assim como fizeram com a família Dawabsheh", afirma o agricultor, ao relembrar o caso da família incendiada por colonos em 2015. Três pessoas morreram, incluindo um bebê, enquanto em momento algum o exército israelense obrigou os colonos a recuarem,de acordo com relatos de moradores.
Autoridades apelam à comunidade internacional
A história de Mohamed Toubassi não é um caso isolado. Nos últimos dias, ocorreram deslocamentos forçados de populações em Yanun, Tana e em outras localidades na região de Nablus. Em Al Marajim, também no norte da Cisjordânia, 48 das 50 famílias abandonaram suas casas.
Atualmente, existem 64 assentamentos israelenses nessa área, das quais 49 nunca receberam autorização do governo de Israel. Há duas semanas, várias famílias montaram um acampamento no Monte Ebal, que domina a vista da cidade de Nablus.
Em entrevista à RFI, o governador de Nablus, Ghassan Daghlas, denunciou a facilidade com que as autoridades israelenses permitem que colonos ocupem novas terras: "Sem aviso prévio, sem alerta, sem nada, os colonos chegam com dois ou três trailers ao local que desejam ocupar e começam a construir. Hoje, todas as montanhas ao redor estão ocupadas. E o exército os apoia".
Diante dessa situação, as autoridades palestinas sentem-se impotentes. Ghassan Daghlas faz um apelo à comunidade internacional: "Ela precisa agir. É quem garante os Acordos de Oslo (entre Israel e Palestina) e testemunha tudo o que está acontecendo. É ela quem deve obrigar Israel a parar com isso. Em nossa província, não temos absolutamente nada. O que podemos fazer? Israel reteve todo o nosso dinheiro".
O governador de Nablus refere-se aos fundos que Israel retém dos impostos arrecadados em nome da Autoridade Palestina. O governo israelense considera essas medidas como punições em resposta ao pagamento de auxílios financeiros a prisioneiros e suas famílias - indivíduos classificados por Israel como terroristas.
A Autoridade Palestina, atualmente muito enfraquecida, exige uma intervenção internacional.
Parte dos israelenses questiona narrativa oficial
Na sociedade israelense, essa escalada brutal desafia frontalmente a narrativa do governo de Benjamin Netanyahu. A operação militar deflagrada após os confrontos da última sexta-feira em Tell não conseguiu consolidar a versão oficial dos fatos.
Embora o governo tenha denunciado um "ataque terrorista" para justificar sua resposta, vídeos que mostram a incursão inicial de colonos armados contradisseram o relato oficial. gerando um debate interno.
Uma parcela do público e da imprensa, inclusive o jornal de oposição Haaretz, questiona o uso do termo "terrorismo" para descrever moradores que defendiam suas terras.
No terreno, no entanto, essa escalada está sendo utilizada como instrumento de pressão. Punições coletivas, demolições e, agora, confiscos de terras realizados pelo exército na Zona A - exclusivamente palestina - demonstram que a operação em curso vai além da simples manutenção da ordem.
Apoiada por membros da extrema direita do governo de Benjamin Netanyahu - especificamente os ministros Ben-Gvir e Smotrich, que defendem abertamente a anexação da Cisjordânia -, essa estratégia visa, segundo parte da oposição, expandir os assentamentos e tornar irreversível o fim dos Acordos de Oslo, assinados nos anos 1990 entre Israel e a Organização para Libertação da Palestina.