As questões que Trump não respondeu sobre a guerra do Irã em discurso sobre o conflito

O que aconteceu com o 'plano de paz de 15 pontos'? E a ameaça de sair da Otan? Correspondente-chefe da BBC para América do Norte aponta para os temas que Trump omitiu em seu pronunciamento.

2 abr 2026 - 06h42
(atualizado às 07h20)
O discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca na noite de quarta-feira (1º/4), repetiu em grande parte o que ele já vinha dizendo sobre a guerra no Irã
O discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca na noite de quarta-feira (1º/4), repetiu em grande parte o que ele já vinha dizendo sobre a guerra no Irã
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, feito da Casa Branca na noite de quarta-feira (1º/4) foi, apesar de prévia especulação, em grande parte uma repetição do que ele vem dizendo há dias sobre a guerra no Irã.

Em um pronunciamento de 20 minutos em horário nobre, ele afirmou que os "objetivos estratégicos centrais" da operação militar dos EUA e de Israel estão "próximos de serem concluídos" após um mês de guerra e projetou que o conflito deve durar entre mais duas e três semanas.

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Também houve as ameaças habituais contra o Irã, incluindo a promessa reiterada de bombardear o país "de volta à Idade da Pedra".

Se alguém copiasse e colasse as postagens deles em seu perfil na rede social Truth Social, ao longo da última semana, o resultado não seria muito diferente deste discurso à nação.

O presidente tentou persuadir os americanos dos méritos dessa guerra. Há uma boa razão para isso, já que pesquisas indicam que uma maioria consistente de eleitores desaprova a operação militar que ele lançou em 28 de fevereiro.

Trump pediu aos americanos que vejam a guerra como um "investimento" em seu futuro e sugeriu que ela não se compara a outros conflitos do último século ou mais, nos quais os EUA acabaram envolvidos por períodos muito mais longos.

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Mas houve pouco no discurso para quem esperava respostas claras sobre para onde a guerra está caminhando ou possíveis caminhos de saída para os EUA. Houve omissões evidentes que deixam uma série de questões sem resposta.

Israel não parou de atacar o Irã
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Em primeiro lugar, Israel continua atacando o Irã e sendo alvo de ataques com drones e mísseis, inclusive mais cedo, na quarta-feira (1º/4), em Tel Aviv, capital de Israel, poucas horas antes do início da Páscoa judaica (Pessach).

Uma questão central é se o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, concorda com o cronograma de mais algumas semanas apresentado por Trump. Isso, neste momento, simplesmente não se sabe.

Em segundo lugar, o que aconteceu com o plano de paz de 15 pontos que a Casa Branca vinha pressionando o Irã a aceitar poucos dias atrás? Não houve qualquer menção a ele no discurso de Trump na noite de quarta-feira.

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Os EUA estão agora abandonando várias dessas exigências, incluindo a retirada do estoque de urânio enriquecido? Isso também não está claro.

A reabertura do estreito de Ormuz, via marítima praticamente fechada pelo Irã por onde passavam cerca de 20% do petróleo global, é um ponto central neste conflito.

O presidente americano, no entanto, não parece ter uma opinião formada sobre o assunto.

Em um momento, Trump exige que o Irã permita a passagem de cargueiros. No outro, o mesmo Trump diz a aliados que partam para a ação contra o fechamento. "Dirijam-se ao estreito e simplesmente retomem-no, protejam-no e usem-no vocês mesmos", disse na quarta-feira. "A parte mais difícil eu já fiz; agora deve ser fácil."

Mas de repente Trump afirma, sem muitas explicações, que o estreito vai se reabrir "naturalmente" quando a guerra acabar. É pouco provável que essas declarações reduzam as preocupações em relação ao preço do petróleo (o barril custava cerca de US$ 70 antes da guerra, mas agora está em US$ 107, cerca de R$ 552).

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A crítica direta de Trump a alguns aliados — ele disse em determinado momento que eles deveriam "criar alguma coragem atrasada" e liderar uma operação para reabrir o estreito — veio após ele cogitar a saída da aliança militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em uma entrevista mais cedo, na quarta-feira.

Mas essa retórica esteve completamente ausente do discurso, apesar de indicações de que seria um ponto central de suas declarações naquela noite.

O preço médio da gasolina nos EUA ultrapassou US$ 4 (cerca de R$ 20) pela primeira vez em quase quatro anos
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Outra pergunta-chave não respondida está ligada à possibilidade de tropas em solo. O que os milhares de soldados vão realmente fazer na região, já que eles continuam chegando?

A verdade é que depois do pronunciamento de Trump, nós realmente não estamos mais informados sobre o que o presidente americano vê como uma vitória na guerra contra o Irã.

E, dada a natureza conflitante de suas declarações dia após dia, tudo pode mudar a qualquer momento.

Enquanto isso, o preço médio da gasolina nos EUA atingiu US$ 4 por galão (cerca de R$ 5,43 por litro; no Brasil, o valor médio é de R$ 6,78 por litro, segundo a Petrobras) pela primeira vez em quase quatro anos. A aprovação média de Trump caiu de 52,4% em janeiro de 2025 para 39,5% em abril de 2026 (em comparação, a aprovação do presidente Lula no mesmo período variou entre 46% e 48%, segundo o Datafolha).

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Esse cenário se agrava a meses da eleição de meio de mandato nos EUA, em novembro, quando o controle do Congresso americano pode passar para o Partido Democrata, oposição ao partido de Trump, o Republicano.

Esse é o presidente dos EUA em busca de uma saída para essa guerra, mas que ainda procura uma maneira de encontrá-la.

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