Armênia vai às urnas em meio a polarização extrema e disputa de influência entre a UE e a Rússia

Às vésperas das eleições legislativas de 7 de junho, a Armênia deve ir às urnas em um clima de polarização extrema. Esse pleito, de grande relevância regional, é acompanhado de perto tanto pela União Europeia (UE) quanto pela Rússia, que monopolizam o debate.

5 jun 2026 - 15h39

Baptiste Condominas, da RFI em Paris

Dezenove forças políticas, entre 17 partidos e duas alianças, disputam uma votação considerada decisiva tanto para o futuro da Armênia quanto para o da região. Nesse cenário fragmentado, o partido Contrato Civil, do primeiro-ministro Nikol Pashinyan, aparece como favorito nas pesquisas e continua a dominar a cena política, oito anos após a "Revolução de Veludo" que o levou ao poder, determinado a mantê-lo por um terceiro mandato. 

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Do outro lado, encontram-se tanto figuras ligadas ao antigo sistema ou a redes russas, como o ex-presidente Robert Kocharyan e oligarcas como Samvel Karapetyan ou Gagik Tsarukyan, quanto candidatos pró-europeus, como o ex-prefeito de Erevan, Hayk Marutyan. "A oposição é virulenta, mas muito dividida e tem dificuldade para apresentar uma alternativa. Tudo parece feito para apresentar esse pleito como um referendo a favor ou contra a UE", explica Tigrane Yégavian, professor de relações internacionais na Universidade Schiller.

Diante dessa oposição, que o acusa, entre outras coisas, de "destruir a Armênia por dentro, derrubar sua identidade ao apagar seu passado e seus valores", Nikol Pashinyan aposta principalmente em sua gestão do conflito com o Azerbaijão. Após a guerra de 2020 e a tomada do controle total da região do Alto Karabakh por Baku em 2023, o governo armênio assinou, no ano passado, um acordo de paz em Washington que deve levar à normalização das relações com o Azerbaijão, mas também com a Turquia.

A sombra do Azerbaijão

Hoje, o primeiro-ministro em exercício resume os desafios da eleição como uma escolha "entre a paz e a não paz", afirmam os analistas. "O Azerbaijão pratica uma guerra híbrida, uma guerra psicológica que mantém um clima de tensão máxima", lembra Tigrane Yégavian, com o controle de posições estratégicas, uma pressão militar constante e relações de força assimétricas que fazem sua sombra pairar sobre a vida política armênia. Nesse contexto, o governo joga abertamente com o medo: "Pashinyan acena com o espectro da guerra e se apresenta como o único que pode garantir a prosperidade", destaca o especialista.

O pesquisador Michael Cecire, do think tank americano RAND, descreve a Armênia como um país "à beira da paz" com a Turquia e o Azerbaijão, mas ao custo de pesadas concessões. O Alto Karabakh foi perdido, seus 120 mil habitantes armênios foram deslocados, e o acordo de Washington entre Erevan e Baku consolida a soberania azerbaijana sobre o enclave. No entanto, esse especialista avalia que "aceitar essas perdas poderia trazer mais estabilidade e ao fim do isolamento estratégico da Armênia".

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Essa é a aposta de Nikol Pashinyan, que transformou a aceitação da derrota em eixo de campanha eleitoral. Mas, para parte da opinião pública, o preço pago, o abandono do Karabakh e o êxodo de sua população, o recuo em símbolos nacionais, a ideia de uma revisão constitucional exigida por Baku e a retirada de referências ao direito à autodeterminação, é visto como uma traição às três décadas de existência da República autoproclamada do Alto Karabakh.

Relações deterioradas com a Rússia

O conflito com o Azerbaijão também provocou uma crise profunda na relação entre Erevan e Moscou, a ponto de se tornar um tema central da política armênia. Aos olhos de muitos armênios, a Rússia os "abandonou" durante a guerra: não fez nada para impedir a campanha militar de Baku e falhou em seus deveres de aliada, embora a Armênia fosse membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC). Essa entidade, liderada pela Rússia, prevê uma cláusula de proteção mútua. Desde então, Erevan suspendeu sua adesão.

Em poucos anos, as relações passaram de uma aliança estratégica para uma parceria frágil. O ressentimento em relação à Rússia é forte em parte da opinião pública, que considera não apenas que ela deixou de ser um protetor eficaz, mas que se tornou uma ameaça política ao país. Uma impressão considerada legítima por Tigrane Yégavian, que avalia que a Rússia conduz uma "guerra de informação contra as redes pró-ocidentais na Armênia", alimentada por "trolls russos", veículos como Russia Today ou Sputnik e intermediários locais.

Às vésperas da votação, a questão das interferências está no centro das preocupações. Durante a campanha, duas operações de desinformação pró-Rússia atingiram a política armênia. Centenas de vídeos manipulados com o uso de inteligência artificial inundaram as redes, visando principalmente Nikol Pashinyan. O primeiro-ministro é sucessivamente acusado de corrupção e desvio de recursos, de ter aceitado a instalação de uma base turca ou de ter fechado um "acordo secreto" com o presidente francês, Emmanuel Macron, e a Otan para desencadear uma guerra contra a Rússia em troca de apoio.

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A UE reconheceu explicitamente temer uma intervenção russa nas eleições, e Erevan pediu uma ajuda comparável à concedida à Moldávia para combater "influências maliciosas". Já em janeiro, os serviços de inteligência denunciavam operações conduzidas "por organismos estatais ou governamentais estrangeiros, incluindo serviços especiais" para "influenciar os votos". A Armênia corre o risco de uma "moldavização", ou seja, de se tornar um palco de confronto entre Moscou e o Ocidente? Pois, se a ameaça russa paira, Bruxelas também se envolve no jogo regional.

Aspirações europeias

Em 2025, o Parlamento armênio aprovou uma lei de adesão à UE e um novo programa de parceria estratégica foi assinado entre a União Europeia e a Armênia. O bloco destacou uma missão de observação ao longo da fronteira armênio-azerbaijana desde fevereiro de 2023 e, em 2024, a Armênia e a UE iniciaram um diálogo sobre a liberalização de vistos. Erevan também sediou, em maio passado, a primeira cúpula UE-Armênia voltada ao fortalecimento das relações bilaterais, com a presença de vários altos representantes europeus.

O pesquisador em políticas de defesa e segurança do RAND, Michael Cecire, destaca que o governo armênio apresenta um "alinhamento crescente de valores" com a União Europeia. Uma tendência que também se reflete na população, que considera a Europa cada vez mais atraente. Segundo uma pesquisa realizada pelo IRI (International Republican Institute) em fevereiro de 2026, 72% dos armênios entrevistados dizem ser favoráveis à adesão à UE.

"Se os armênios são pró-europeus, é porque se sentem profundamente europeus", lembra Tigrane Yégavian. "Eles se consideram muito mais próximos dos europeus do que dos cazaques ou dos uzbeques". Mas essa aspiração esbarra na geografia e nas realidades políticas: a Armênia está distante, em uma "zona cinzenta", a Eurásia, e sua adesão à UE exigiria um ambiente regional transformado, em particular a integração da vizinha Geórgia e, de forma ainda mais hipotética, do Azerbaijão.

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Embora popular, a questão da adesão permanece utópica. Apesar da retórica ocidental do governo, Erevan mantém o diálogo com Moscou e continua oficialmente membro da União Econômica Eurasiática (UEE), liderada pela Rússia. Erevan também não apresentou uma candidatura formal à UE. Vladimir Putin, aliás, lembrou recentemente que é impossível fazer parte das duas ao mesmo tempo.

Polarização e radicalização do debate

Além disso, qualquer ruptura profunda com a Rússia parece inimaginável. Mercado-chave para as exportações agrícolas e têxteis, Moscou também é seu principal fornecedor de gás, um parceiro econômico de peso, do qual frequentemente dependem as elites econômicas armênias, e um vetor decisivo para a importante diáspora armênia na Rússia. São diversos pontos de pressão para o Kremlin, que não hesita em recorrer a sanções comerciais informais quando as relações se deterioram. Prova disso é a visita do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, por ocasião de uma reunião de líderes europeus no mês passado, que agravou a situação.

A Rússia proibiu temporariamente a importação de diversos produtos armênios, ameaçou suspender suas exportações de petróleo e gás, chamou de volta seu embaixador na Armênia e deixou claro que Erevan poderia ser excluída da União Econômica Eurasiática. Moscou também impôs restrições temporárias às importações de frutas e verduras provenientes da Armênia a partir de 30 de maio, com a autoridade agrícola russa alegando preocupações com a segurança fitossanitária.

Nesse contexto, as eleições se apresentam cada vez mais como um campo de batalha geopolítica entre um campo pró-europeu e um campo pró-russo, provocando uma polarização e uma radicalização do debate, que se reduz a apoiar um ou outro bloco.

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Alguns observadores, nacionais e internacionais, manifestam preocupação com o risco de uma eleição ofuscada por influências externas. O Observatório Internacional para a Democracia na Armênia (OIDA) denuncia tentativas, de ambos os lados, de "impor sua própria escolha" aos eleitores armênios. Moscou é apontada por suas tentativas de ingerência, mas o posicionamento de Bruxelas também é criticado.

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