"A alma do nosso acordo é o compromisso de usar força militar letal para destruir esses sinistros cartéis e redes terroristas. De uma vez por todas, vamos acabar com eles", declarou Trump aos líderes latino-americanos presentes na cúpula de aliados.
"Tudo se resume às ameaças que a região representa para a segurança dos Estados Unidos: migração e crime organizado", diz.
"Governantes dessa região permitiram que grandes áreas do hemisfério ocidental ficassem sob o controle de gangues transnacionais (...) Não vamos permitir que isso aconteça. Vamos ajudar", acrescentou.
O presidente americano chegou a ameaçar o uso de mísseis contra o crime organizado.
"Querem que usemos um míssil? Eles são extremamente precisos. Piu! Mandamos direto para a sala de estar e acabou o membro do cartel", advertiu.
Antes do anúncio, o republicano saudou os 12 convidados, entre eles aliados próximos como o presidente argentino Javier Milei, o equatoriano Daniel Noboa e o salvadorenho Nayib Bukele, a quem chamou de "grande presidente".
Doutrina Monroe
O encontro acontece no âmbito de sua versão da histórica Doutrina Monroe. Trump promete intervir na região para promover os interesses de Washington nas Américas, aumentar a segurança dos Estados Unidos e conter a influência de potências como a China.
Um exemplo dessa postura foi a operação das forças americanas que resultou na queda e captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em 3 de janeiro, em Caracas. Outro exemplo é o bloqueio imposto à entrega de petróleo a Cuba.
A reunião de cúpula com os aliados latino-americanos também ocorre no contexto da guerra iniciada por Washington e Israel contra o Irã na semana passada.
Insegurança
Além de Bukele, Milei e Noboa, Trump recebe em Doral, perto de Miami, os presidentes da Bolívia, Costa Rica, República Dominicana, Honduras, Panamá, Paraguai, Guiana e Trinidad e Tobago. O presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, também participa do encontro.
A maioria dos convidados compartilha a preocupação de Washington com o avanço do crime organizado no continente. O fenômeno afeta países que até pouco tempo eram considerados relativamente seguros, como Chile e Equador, explica Irene Mia, especialista em América Latina do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.
O aumento da criminalidade ajudou a direita latino-americana a vencer eleições recentes. Isso também explica por que o intervencionismo de Trump gerou menos rejeição do que o esperado em uma região com longa história de tensões com Washington, acrescenta a analista.
Alguns líderes, como Noboa, reforçaram os laços com os Estados Unidos. O presidente equatoriano anunciou nesta semana "operações conjuntas" com Washington e aliados regionais contra os narcotraficantes, que transformaram um dos países antes mais seguros da América Latina em um dos mais violentos em poucos anos.
Dúvidas
Além da afinidade ideológica com Trump, alguns líderes aproveitam a boa relação com o republicano para obter benefícios.
O hondurenho Nasry Asfura recebeu, por exemplo, apoio decisivo do presidente americano nas eleições do ano passado. No caso do argentino Milei, a sintonia com Trump facilitou que os Estados Unidos concedessem apoio de US$ 20 bilhões por meio de um acordo de swap cambial em 2025.
Mas essa coalizão de governos aliados levanta dúvidas sobre seu alcance e durabilidade, segundo Irene Mia. A especialista afirma que as propostas de Washington para a região se baseiam em uma agenda essencialmente negativa.
"Tudo se resume às ameaças que a região representa para a segurança dos Estados Unidos: migração e crime organizado", diz.
Ausências do Brasil e do México
Outra fragilidade dessa cúpula dedicada ao combate aos cartéis é a ausência do México e do Brasil, governados pelos presidentes de esquerda Claudia Sheinbaum e Luiz Inácio Lula da Silva, aponta a especialista. Os dois países precisariam estar presentes pois, segundo ela, o México é "o diretor executivo da cadeia de fornecimento do narcotráfico" e as facções criminosas do Brasil "são fundamentais para o envio de drogas à Europa".
O próprio Trump apontou neste sábado o México como "o epicentro da violência dos cartéis", que alimentam "grande parte do derramamento de sangue" nas Américas. "Os cartéis estão comandando o México. Não podemos ter isso perto de nós", criticou.
Para Irene Mia, apesar da aparente sintonia entre governos de direita da região e Washington, o apoio desses países "é bastante frágil devido à relação problemática" entre a América Latina e os Estados Unidos.
"É um equilíbrio muito delicado saber se a população aprovará a política de Trump e por quanto tempo", conclui.
Com AFP