Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
Desde a noite de domingo (19), Danilo Neves Pereira passou a ser procurado em todo o território argentino pela Rede Solidária, ao completar cinco dias desde que, em 14 de abril, o brasileiro desapareceu após ir a um encontro marcado através de um aplicativo.
"Estamos à procura dos seus amigos de referência, pessoas relacionadas com ele de alguma maneira, pessoas que o conheçam. Estamos nesse processo para organizar melhor esta procura. Ele se comunicava com amigos no Brasil e aqui, mas, de repente, parou de se comunicar. Essa desconexão repentina é estranha", explica à RFI Juan Carr, fundador e diretor da "Red Solidaria", uma prestigiosa organização argentina que une pessoas necessitadas com pessoas solidárias, principalmente para doação de alimentos e de roupas, mas também para transplantes e para a procura de pessoas, crianças e adultos.
A Rede Solidária foi criada em 1995 e, desde então, participou de inúmeras campanhas através de 74 sedes pelo país e 1.200 voluntários.
Juan Carr também é o fundador de "Missing Children" para a procura de crianças e de "Pessoas Adultas" para encontrar desaparecidos.
"O que mais me preocupa é que passaram cinco dias e não há ninguém a pressionar nem a divulgar o caso aqui na Argentina. Por isso, apelamos aos jornalistas com moral e com ética para nos ajudar, porque estamos numa corrida contra o tempo", clama Juan Carr.
Desaparecimento
Na madrugada desta segunda-feira (20), completaram-se seis dias desde a última informação de Danilo. Às 3h57 do passado dia 14, o brasileiro comunicou a um amigo que iria ao encontro de uma pessoa de nome, supostamente, Ulysses, enviando a captura de tela do destino: Avenida de Maio, 748.
Em linha reta, o endereço fica a dois quarteirões da Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, sede do Governo argentino, e a sete quarteirões do Congresso, numa das regiões mais centrais e monitoradas de Buenos Aires.
A Polícia da Cidade investiga o caso, enquanto o Consulado brasileiro em Buenos Aires informou que "foi acionado e prestou a assistência devida".
"Em casos dessa natureza, os consulados orientam os amigos e os familiares ao contato com a Polícia e com as autoridades locais, mas não têm competência para iniciar ou acompanhar as investigações", frisou a sede diplomática num texto padrão.
Pressão nas investigações
No entanto, Juan Carr indica que, segundo a sua experiência, as investigações ficariam mais intensas e eficazes se a diplomacia brasileira pressionasse.
"A procura de pessoas é um assunto histórico no nosso trabalho. A nossa experiência indica que, se uma autoridade brasileira ficar em cima da Procuradoria, as coisas andam mais. Sabemos que o Brasil tem diplomatas muito humanos e profissionais. Muito mais eficaz do que qualquer consulado é um embaixador que levante o telefone e fale diretamente com a Procuradoria. Sabemos que não é fácil que um embaixador faça isso. Por isso pedimos às autoridades brasileiras e aos jornalistas com ética e moral que nos ajudem", reforça Juan Carr.
Os primeiros passos devem ser o cruzamento do sinal de celular de Danilo e a análise das câmeras de segurança da zona indicada pelo brasileiro.
"A Procuradoria precisa avançar com essas imagens e, para isso, precisamos dos amigos, dos jornalistas e das autoridades brasileiras para que não se perca mais tempo", suplica.
Danilo Neves Pereira é goiano. Durante 12 anos, foi professor de inglês do Centro de Línguas da Universidade Federal de Goiás (UFG). Atualmente, é doutorando em Linguística Aplicada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Há seis meses, mudou-se para Buenos Aires, onde vive sozinho.
Todos os anos, a Rede Solidária recebe 14 mil denúncias de pessoas desaparecidas. Em média, são 38 por dia, uma a cada hora e meia.
"Em 90% dos casos, os procurados aparecem poucas horas depois ou poucos dias depois", diz, esperançoso, Juan Carr.
"Mas a angústia da família e dos amigos aumenta a cada dia", aponta.