Originada na província de Ituri, no nordeste do país, a atual epidemia foi declarada em 15 de maio e se espalhou por várias províncias da área oriental da República Democrática do Congo, onde a presença do Estado é frágil e as instalações de saúde não possuem recursos suficientes. A taxa de mortalidade é calculada em 45,9% pelas autoridades de saúde congolesas.
O balanço aproxima a epidemia atual da ocorrida de 2018-2020, a mais letal até hoje no país. Durante aquele período foram registrados quase 2.300 mortos entre os 3.500 casos confirmados.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença se espalha "mais rapidamente" do que nos episódios anteriores. A situação é confirmada pelo virologista congolês Jean‑Jacques Muyembe, um dos descobridores do vírus, em 1976. Diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica de Kinshasa, ele explicou ao jornal francês Le Monde que um dos motivos desta propagação inesparada foi a demora para a detecção da epidemia.
"Essa cepa provavelmente começou a circular já em janeiro, mas não foi detectada nem confirmada antes de abril‑maio, o que deu ao vírus tempo para se infiltrar nas comunidades. Desde então, temos dificuldade em acompanhar o ritmo de sua propagação", afirma.
Longe do pico
Em uma entrevista retransmitida na rede social X nesta terça‑feira, o ministro da Saúde congolês, Samuel Roger Kamba, declarou que o pico da atual epidemia está longe de ser atingido. "Nos próximos três meses, acreditamos que já teremos controlado a progressão e começaremos a ver a diminuição" do número de casos, afirmou.
Ainda assim, a insegurança causada por grupos armados e a desconfiança da população dificultam a resposta nas províncias afetadas. "Conseguimos atender apenas 30% das pessoas contaminadas, enquanto 70% morrem em casa", afirmou na segunda‑feira (10) Mohamed Yakub Janabi, diretor regional da OMS para a África. "É por isso que esta epidemia de ebola é diferente", avaliou.
Análise da vacina
Especialistas da OMS recomendaram na última sexta-feira (7) analisar, em um teste clínico, a vacina homologada contra a doença, diante da falta de um imunizante específico contra a variante Bundibugyo, que afeta a República Democrática do Congo atualmente. Segundo cientistas, já estão disponíveis muitos dados, em particular sobre a segurança da vacina Ervebo, que permite considerar uma avaliação em fase 3, etapa que geralmente é organizada em escala mundial com milhares de pessoas.
Em comunicado, a aliança Gavi - que reúne doadores públicos e privados para ajudar países em desenvolvimento a adquirir imunizantes - afirmou que doses da Ervebo, procedentes da reserva mundial da vacina contra o ebola, devem ser disponibilizadas para apoiar os ensaios clínicos. O estoque conta com quase 500 mil doses, produzidas pelo laboratório farmacêutico americano Merck, algumas delas mantidas na República Democrática do Congo devido à frequência dos surtos no país.
O Canadá também autorizou a gigante farmacêutica Moderna a iniciar testes clínicos para sua vacina contra a atual cepa da doença. Outros dois candidatos estão em desenvolvimento: a rVSV Bundibugyo, apresentada pela OMS como "a mais promissora" e desenvolvida pelo Hilleman Laboratories, e uma vacina da Universidade de Oxford, cujo primeiro voluntário recebeu uma dose no fim de julho.
Já os Estados Unidos anunciaram na semana passada a liberação de mais de US$ 242 milhões adicionais para ajudar a combater a epidemia.
RFI com AFP